O Preço da liberdade livro 2
9 O Ritmo do Coração
O Baile da Colheita era a celebração mais vibrante de Aethelgard. Diferente do formalismo do aniversário, ali o povo e a nobreza se misturavam sob as cores do outono, com o aroma de cidra, canela e feno preenchendo os salões. A música era rústica, mas a valsa que começava a tocar agora tinha um tom mais suave, quase melancólico.
Diana estava encostada em uma coluna de mármore, observando a multidão. Ela usava um vestido cor de bronze que brilhava como trigo sob o sol, mas seus olhos não buscavam a festa; buscavam ele. Marcos estava a poucos metros, conversando com um grupo de mercadores, mas sua atenção estava nitidamente dividida.
Desde o incidente na laranjeira, os jardins haviam se tornado o refúgio dos dois. Horas de conversas sobre o mundo, sobre os mistérios do Norte e sobre os sonhos de Diana haviam construído uma ponte perigosa.
Ela caminhou até ele, interrompendo o círculo de homens com a confiança que herdara de Mellyssa.
— Conde Delavga — ela disse, com um brilho desafiador no olhar. — A música está convidativa e eu notei que o senhor passou a noite inteira apenas observando as sombras. Não vai me convidar para uma dança?
Marcos sorriu, um sorriso que iluminou seu rosto de uma forma que Alexander nunca vira. Ele se despediu dos mercadores e fez uma mesura lenta.
— Eu estava apenas esperando que a dona do baile me desse permissão para tocar sua mão, Princesa — ele respondeu, esticando a palma da mão para ela.
Diana colocou a mão sobre a dele sem hesitar. No momento em que os dedos se entrelaçaram, uma corrente elétrica pareceu percorrer o braço de ambos. Ele a conduziu para o centro do salão, ignorando os olhares de Adrian e a vigilância constante de Alexander.
A Valsa das Verdades
Eles começaram a girar. Marcos a segurava com uma firmeza que a fazia sentir-se segura e, ao mesmo tempo, vulnerável. O mundo ao redor — o palácio, a coroa, a vingança — começou a desaparecer, sobrando apenas o som dos violinos e o calor do corpo dele contra o dela.
— Você dança como se estivesse em uma batalha, Diana — ele sussurrou perto do ouvido dela, o hálito quente arrepiando sua pele. — Sempre querendo liderar o passo.
— E você dança como se estivesse escondendo um segredo a cada movimento — ela rebateu, olhando-o nos olhos, recusando-se a desviar o olhar.
Marcos diminuiu o passo, trazendo-a para ainda mais perto. A valsa tornou-se íntima, os rostos a poucos centímetros de distância. O plano de Giulia estava em pedaços na mente dele. Ele não via mais a filha do seu inimigo; via a mulher que o fazia querer queimar o próprio passado.
— Se eu tenho um segredo, Diana, é que eu não previa que Aethelgard teria um tesouro que eu não pudesse simplesmente levar embora — ele disse, a voz rouca e carregada de uma sinceridade brutal.
Diana sentiu o coração acelerar de uma forma que nunca acontecera antes. — Do que você está falando, Marcos?
— Estou falando que eu vim para este reino com o coração de pedra — ele confessou, parando de dançar por um segundo, mesmo com a música continuando ao redor deles. — Mas cada conversa nos jardins, cada risada sua na laranjeira... você quebrou as defesas que levei anos para construir. Eu estou perdidamente encantado por você. E isso é o mais perigoso dos meus segredos.
Diana sentiu o ar faltar. A declaração dele não era polida como as dos outros nobres; era urgente, quase desesperada. Ela apertou a mão dele sobre seu ombro, sentindo a própria pulsação martelar nos dedos.
— Então somos dois fugitivos — ela sussurrou, a voz trêmula. — Porque eu nunca permiti que ninguém chegasse perto o suficiente para ouvir meu coração... e hoje, ele só sabe gritar o seu nome.
Marcos a envolveu em um giro final, escondendo o rosto dela contra seu peito por um breve instante. Ali, no meio do baile, cercado pela família que deveria destruir, Lucca Lâfrer percebeu que o amor de Diana era a única liberdade pela qual ele realmente estava disposto a pagar qualquer preço. O problema era que o passado estava batendo à porta, e o veneno de sua mãe ainda corria em suas veias.
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