O Baile da Colheita era a celebração mais vibrante de Aethelgard. Diferente do formalismo do aniversário, ali o povo e a nobreza se misturavam sob as cores do outono, com o aroma de cidra, canela e feno preenchendo os salões. A música era rústica, mas a valsa que começava a tocar agora tinha um tom mais suave, quase melancólico.


​Diana estava encostada em uma coluna de mármore, observando a multidão. Ela usava um vestido cor de bronze que brilhava como trigo sob o sol, mas seus olhos não buscavam a festa; buscavam ele. Marcos estava a poucos metros, conversando com um grupo de mercadores, mas sua atenção estava nitidamente dividida.

​Desde o incidente na laranjeira, os jardins haviam se tornado o refúgio dos dois. Horas de conversas sobre o mundo, sobre os mistérios do Norte e sobre os sonhos de Diana haviam construído uma ponte perigosa.

​Ela caminhou até ele, interrompendo o círculo de homens com a confiança que herdara de Mellyssa.

​— Conde Delavga — ela disse, com um brilho desafiador no olhar. — A música está convidativa e eu notei que o senhor passou a noite inteira apenas observando as sombras. Não vai me convidar para uma dança?

​Marcos sorriu, um sorriso que iluminou seu rosto de uma forma que Alexander nunca vira. Ele se despediu dos mercadores e fez uma mesura lenta.

​— Eu estava apenas esperando que a dona do baile me desse permissão para tocar sua mão, Princesa — ele respondeu, esticando a palma da mão para ela.

​Diana colocou a mão sobre a dele sem hesitar. No momento em que os dedos se entrelaçaram, uma corrente elétrica pareceu percorrer o braço de ambos. Ele a conduziu para o centro do salão, ignorando os olhares de Adrian e a vigilância constante de Alexander.

​A Valsa das Verdades

​Eles começaram a girar. Marcos a segurava com uma firmeza que a fazia sentir-se segura e, ao mesmo tempo, vulnerável. O mundo ao redor — o palácio, a coroa, a vingança — começou a desaparecer, sobrando apenas o som dos violinos e o calor do corpo dele contra o dela.

​— Você dança como se estivesse em uma batalha, Diana — ele sussurrou perto do ouvido dela, o hálito quente arrepiando sua pele. — Sempre querendo liderar o passo.

​— E você dança como se estivesse escondendo um segredo a cada movimento — ela rebateu, olhando-o nos olhos, recusando-se a desviar o olhar.

​Marcos diminuiu o passo, trazendo-a para ainda mais perto. A valsa tornou-se íntima, os rostos a poucos centímetros de distância. O plano de Giulia estava em pedaços na mente dele. Ele não via mais a filha do seu inimigo; via a mulher que o fazia querer queimar o próprio passado.

​— Se eu tenho um segredo, Diana, é que eu não previa que Aethelgard teria um tesouro que eu não pudesse simplesmente levar embora — ele disse, a voz rouca e carregada de uma sinceridade brutal.

​Diana sentiu o coração acelerar de uma forma que nunca acontecera antes. — Do que você está falando, Marcos?

​— Estou falando que eu vim para este reino com o coração de pedra — ele confessou, parando de dançar por um segundo, mesmo com a música continuando ao redor deles. — Mas cada conversa nos jardins, cada risada sua na laranjeira... você quebrou as defesas que levei anos para construir. Eu estou perdidamente encantado por você. E isso é o mais perigoso dos meus segredos.

​Diana sentiu o ar faltar. A declaração dele não era polida como as dos outros nobres; era urgente, quase desesperada. Ela apertou a mão dele sobre seu ombro, sentindo a própria pulsação martelar nos dedos.

​— Então somos dois fugitivos — ela sussurrou, a voz trêmula. — Porque eu nunca permiti que ninguém chegasse perto o suficiente para ouvir meu coração... e hoje, ele só sabe gritar o seu nome.

​Marcos a envolveu em um giro final, escondendo o rosto dela contra seu peito por um breve instante. Ali, no meio do baile, cercado pela família que deveria destruir, Lucca Lâfrer percebeu que o amor de Diana era a única liberdade pela qual ele realmente estava disposto a pagar qualquer preço. O problema era que o passado estava batendo à porta, e o veneno de sua mãe ainda corria em suas veias.