O Preço da liberdade livro 2
14 O Castelo de Vidro
O idílio de Diana e Marcos nos dias seguintes ao casamento era quase etéreo. Eles eram vistos cavalgando pelos campos ao amanhecer ou sussurrando nos corredores do palácio, alheios ao peso das coroas que os cercavam. Para o reino, era a união perfeita; para Adrian e Mellyssa, era um alívio ver a felicidade da filha; mas para Marcos, era uma corda bamba perigosa.
Ele acreditava, com a arrogância típica de quem domina o próprio destino, que havia vencido. Achava que poderia manter Diana em uma bolha de amor e Giulia em uma redoma de silêncio. Mas o veneno de uma Lâfrer nunca dorme.
Enquanto o casal partilhava frutas e risadas no café da manhã privado na varanda, a quilômetros dali, em um casebre úmido que servia de quartel-general para o ressentimento, Giulia Lâfrer abria um sorriso que não continha um pingo de humanidade.
Ela segurava um envelope lacrado com o brasão real de Aethelgard — um documento que Marcos acreditava ter destruído, mas que ela, com sua rede de espiões, recuperara.
— Ele acha que o amor o salvou — Giulia murmurou para as paredes vazias. — Ele acha que pode ser um Kane e um Lâfrer ao mesmo tempo. Pobre Lucca. Ele esqueceu que, para a luz brilhar, a sombra precisa ser alimentada.
No Palácio: A Ilusão de Controle
Marcos observava Diana enquanto ela tentava desenhar o perfil dele em um pergaminho. Ele se sentia invencível. Na sua mente, ele já havia traçado o plano para desviar os fundos das rotas de café para pagar a mãe e mantê-la longe para sempre. Ele pretendia comprar o silêncio de Giulia com o ouro de Adrian e viver a mentira mais bonita da história de Aethelgard.
— Você está distante de novo — Diana disse, baixando o carvão e franzindo a testa com aquele biquinho que o desarmava. — O que o Conde Delavga tanto pensa?
Marcos sorriu, inclinando-se para beijar a ponta do nariz dela.
— Penso que sou o homem mais sortudo do mundo por ter enganado o destino e acabado aqui, com você.
— Enganado o destino? — Ela riu, sem notar a gravidade naquelas palavras. — Você apenas seguiu o caminho certo, Marcos.
"Se você soubesse...", ele pensou, sentindo uma pontada de culpa que logo sufocou. Ele tinha tudo sob controle. O Príncipe Alexander ainda o vigiava, mas Marcos era cuidadoso demais. As rotas estavam seguras. O casamento estava consumado. O segredo estava enterrado.
A Serpente no Jardim
O que Marcos não sabia era que Giulia já não se contentava com ouro. Ela queria o espetáculo. Ela queria ver a face de Adrian Kane quando descobrisse que sua "luz" estava dormindo com o filho da mulher que ele mais odiava.
Naquela tarde, enquanto Diana se preparava para um passeio com a mãe e a avó Catarina, uma pequena encomenda chegou às mãos de uma das camareiras, endereçada especificamente à Rainha Mellyssa. Não era uma joia, nem um tecido. Era um medalhão antigo, com uma orquídea de ouro gravada — o símbolo da família Lâfrer.
Dentro, não havia um retrato, mas uma data. A data em que Lucca Lâfrer fora expulso do reino.
Giulia estava movendo sua primeira peça no tabuleiro. Ela sabia que Marcos não teria coragem de desferir o golpe final contra a família de Diana. Então, ela mesma o faria. Ela revelaria a verdade de tal forma que o amor de Diana se transformaria em cinzas, e a fúria de Adrian transformaria o palácio em um campo de execução.
Marcos Delavga achava que era o mestre do jogo. Ele não percebia que, no momento em que colocou a aliança no dedo de Diana, ele não se tornou um jogador; ele se tornou o prêmio pelo qual as duas linhagens lutariam até a morte. O castelo de vidro estava prestes a rachar, e o som seria ouvido em todo o reino.
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