O quarto de Diana, que antes era um refúgio de sonhos e romance, agora parecia uma zona de guerra. O cheiro de lavanda fora substituído pelo odor acre de papel queimado e tecidos caros sendo consumidos pelo fogo.

​Adrian e Mellyssa pararam à porta, paralisados pela cena. Diana estava no centro do caos, com o cabelo totalmente desgrenhado e os olhos vermelhos de tanto chorar, mas não havia mais lágrimas; apenas uma fúria maníaca que a fazia mover-se com uma energia assustadora.


​— Diana, pare! Você vai acabar incendiando o castelo! — Mellyssa gritou, correndo para tentar segurar o braço da filha, mas Diana se desvencilhou com um movimento brusco.

​— Deixe que queime! — Diana gritou, a voz rouca. — Deixe que tudo o que ele tocou vire cinzas!

​Ela agarrou um porta-retratos de prata com um desenho dos dois e o arremessou com força contra a parede de pedra. O vidro estilhaçou-se em mil pedaços, assim como o seu coração. Em seguida, ela pegou um cacho de cartas — as promessas de amor que Lucca escrevera durante o noivado — e as jogou aos punhados dentro da lareira. As chamas subiram, lambendo o papel e transformando as palavras "para sempre" em fumaça negra.

​— Cada palavra... cada maldita palavra era um veneno! — Diana ria, uma risada quebrada e dolorosa, enquanto jogava no fogo a capa de veludo que ele lhe dera de presente. — Ele me olhava nos olhos e planejava como nos destruir! Ele ria com o senhor, pai! Ele bebia do nosso vinho!

​Adrian aproximou-se lentamente, vendo a filha destruir um baú de madeira com as próprias mãos para tirar de lá as roupas de Marcos.

— Diana, eu acabei de vir das masmorras...

​— NÃO DIGA O NOME DELE! — ela berrou, virando-se para o pai com uma camisa de linho de Lucca nas mãos, pronta para rasgá-la. — Eu não quero saber o que aquele monstro tem a dizer! Ele é um Lâfrer! Ele é o filho da mulher que tentou acabar com a nossa família!

​— Ele admite que foi enviado para isso, Diana — Adrian tentou falar, mantendo a voz calma apesar do caos. — Mas ele jura que o amor por você mudou tudo. Ele está destruído lá embaixo.

​Diana parou por um segundo, a camisa pendurada em suas mãos trêmulas. O silêncio que se seguiu foi pesado. Ela olhou para o fogo, onde os restos de sua vida de casada brilhavam intensamente.

​— Destruído? — ela perguntou, a voz caindo para um sussurro perigoso. — Ele teve a escolha de me dizer a verdade todos os dias. No jardim, na igreja, na nossa cama... ele escolheu o silêncio. Ele escolheu a mentira. Ele não está destruído, pai. Ele está apenas colhendo o que plantou.

​Com um gesto final de desprezo, ela jogou a última peça de roupa nas brasas e limpou as mãos na saia do próprio vestido, como se estivesse suja.

​— Eu não sou mais a Diana que subia em árvores por gatinhos — ela disse, olhando fixamente para Adrian e Mellyssa, os olhos agora frios como o inverno lá fora. — Aquela Diana morreu no salão de baile. Se ele queria um Lâfrer para enfrentar, ele conseguiu uma Kane que não sabe o que é misericórdia.

​Mellyssa abraçou a filha, sentindo o corpo dela vibrar de puro ódio. Adrian olhou para a lareira, vendo os restos carbonizados do que poderia ter sido uma grande história de amor, sabendo que, embora o fogo estivesse apagando as lembranças, a marca que Lucca deixara na alma de Diana nunca seria consumida pelas chamas.

​— O que você quer que eu faça com ele? — Adrian perguntou, testando a força da filha.

​Diana afastou-se do abraço da mãe e olhou para a janela, na direção das torres da masmorra.

— Deixe-o lá. Deixe que ele apodreça no escuro, ouvindo o silêncio do meu desprezo. Esse é o único presente que um traidor merece.