O ar na masmorra parecia ter ficado ainda mais pesado, carregado com o cheiro de fumaça que Adrian trazia em suas vestes — o rastro do incêndio emocional que Diana acabara de causar em seus aposentos. O Rei parou diante da cela de Lucca, suas mãos cruzadas nas costas, observando o homem que um dia chamou de filho por escolha.


​Lucca não se levantou desta vez. Ele continuou sentado no chão úmido, as costas apoiadas na parede fria, os olhos fixos em um ponto invisível na escuridão. O barulho das chaves no cinto do guarda lá fora era o único som que competia com o gotejar incessante do teto.

​— Eu falei com ela — Adrian disse, sua voz ecoando de forma cavernosa. — Eu vi o que restou do amor que ela sentia por você.

​Lucca finalmente ergueu o olhar, uma centelha de dor atravessando seu rosto pálido. — Ela está bem?

​— Ela está destruindo tudo — Adrian respondeu com uma frieza cortante. — Queimando cada carta, cada presente, cada lembrança do homem que ela achava que você era. O veredicto dela foi curto, Lucca. Ela não quer o seu sangue, nem o seu exílio. Ela quer o seu esquecimento. Ela ordenou que você apodreça aqui, no escuro, ouvindo apenas o silêncio do desprezo dela para o resto da sua vida.

​Houve um momento de silêncio absoluto. Então, um som baixo e rouco escapou da garganta de Lucca. Ele começou a rir — uma risada seca, sem um pingo de humor, que parecia mais um soluço sufocado.

​— Ela sempre foi decidida — Lucca murmurou, balançando a cabeça lentamente enquanto a risada morria em seus lábios secos. — Eu sabia que ela faria isso. Diana não faz nada pela metade. Se ela ama, ela se entrega por inteiro; se ela odeia... ela apaga a existência do culpado.

​Ele se ajeitou contra a pedra áspera, fechando os olhos por um segundo como se estivesse sentindo o peso da sentença.

​— Estou preparado para isso, Majestade — ele continuou, a voz agora estranhamente calma. — Estou preparado para passar o resto dos meus dias entre estas paredes de pedra. É um preço justo por ter tido o privilégio de ser amado por ela, mesmo que sob uma mentira.

​Lucca olhou para as próprias mãos, as mesmas mãos que Diana beijara dias antes.

— Deixe-me aqui. Deixe que o mofo me consuma enquanto ela brilha lá fora. O meu inferno não é esta cela, Adrian. O meu inferno é saber que a mulher que é a minha vida está lá em cima, respirando o mesmo ar que eu, mas me odiando com a mesma intensidade com que me fez sentir vivo.

​Adrian observou o sacrifício silencioso daquele homem. Ele vira a fúria de Diana e agora via a resignação de Lucca. O Rei sentiu uma pontada de algo que beirava a piedade, mas a honra dos Kane falava mais alto.

​— Você escolheu o seu destino no momento em que permitiu que Giulia escrevesse o seu roteiro, Lucca Lâfrer — Adrian sentenciou, virando as costas. — Aproveite a sua eternidade. Diana nunca mais pronunciará o seu nome.

​Enquanto os passos do Rei se afastavam, Lucca encostou a cabeça na parede e sussurrou para o vazio:

— Ela não precisa dizer meu nome. Eu o gravarei nas pedras desta prisão, assim como ela o gravou no meu peito.

​A porta de ferro da masmorra se fechou com um estrondo final, selando o destino do homem que amou demais a própria mentira, condenado a viver no túmulo de um amor que o ódio não permitia morrer.