O Preço da Volta
27 Capítulo 27 - Entrando nos eixos...
Notas iniciais
Os olhos castanhos observavam atentamente o objeto pontiagudo adentrar a pele alva. O soro fora devidamente colocado pela enfermeira de meia idade.
A mulher de cabelos pretos com alguns fios grisalhos checou novamente a sonda que transportava um líquido de tonalidade transparente para dentro de Quinn, logo depois cobrindo-a novamente com o lençol.
Ela tinha sido transferida para um quarto no início da manhã.
A porta do quarto logo fora aperta e o doutor Clarck adentrou-o com um sorriso gentil.
— Então, como está a nossa paciente? — Indagou, aproximando-se da cama.
— Os batimentos estão normais, assim como o pulso e a temperatura do corpo. — A enfermeira respondeu.
— E quando ela irá acordar? — A baixinha indagou apreensiva.
— Não irá demorar. — O homem tranquilizou-a. — Ela ter aberto os olhos há quase uma hora foi um sinal que a sedação está cessando. Logo mais ela irá se despertar totalmente. — Sorriu.
A morena assentiu enquanto suspirava e observou a namorada dormindo na cama levemente reclinada com a expressão serena. Aproximou-se e beijou-lhe a têmpora demoradamente.
— Me chame quando ela acordar. — O doutor olhou algo em sua prancheta. — Eu virei no mesmo instante. Basta apertar aquele botão logo acima da cama.
— Pode deixar. Eu chamarei. — Rachel assentiu.
O doutor apenas maneou a cabeça e deu-lhe mais algumas instruções, antes de retirar-se do quarto acompanhado da enfermeira.
A morena passou a mão no rosto e aproximou-se, passando os dedos delicadamente pelos cabelos claros e macios de Quinn.
Sua atenção fora desviada para a porta quando a mesma abriu-se e Rachel pôde observar Brittany e Santana segurando duas malas de pequeno porte e Frannie logo atrás.
— O que é isso? — Rachel indagou confusa.
— Isso... — A latina indicou a mala de pequeno porte em sua mão. — São algumas roupas porque sabemos que não vai querer sair daqui até que a Q saia também.
— E isso... — Brittany fez um gesto com a mão indicando a outra mala. — São coisas que trouxemos caso você precise. — Sorriu, depositando o objeto sobre o sofá na lateral do quarto e o abrindo. — Comprei algumas coisas também. — Retirou o livro da mala e entregou para Rachel.
A morena analisou atentamente o garotinho loiro na capa do livro e o título preto, sorrindo largamente em seguida.
— Oh, Deus! — Passou a ponta dos dedos sobre a capa. — Não acredito que vocês compraram O Pequeno Príncipe.
— Agora você vai poder ler para a Q. — A latina aproximou-se da cama, observando a amiga enquanto falava.
— E também compramos isso. — A loirinha fez suspense, retirando da mala pequena outro objeto e mostrando para Rachel.
A morena olhou a capa com ilustrações e soltou uma risada nostálgica, pegando o DVD das mãos da amiga.
— Céus! Há quanto tempo não vemos isso? — Sorriu consigo mesma.
— Há mais de seis anos. — A latina respondeu ainda ao lado da cama. — Achei que a Q gostaria de ver enquanto estiver aqui. Ela aprendeu a gostar desse filme chato com você. — Provocou com um sorriso.
— Não é chato. — Rachel rebateu. — A Bela Adormecida é o melhor filme que a Disney já produziu. E a Aurora é encantadora. — Pôs o livro e o DVD sobre o sofá.
— Kate está louca para vir aqui, mas achei melhor aguardar uns dias quando Lucy já estiver desperta e melhor. — Frannie se pronunciou, andando até parar do outro lado da cama de frente para Santana. — Acha que vai demorar para ela acordar?
— Não. — A morena negou com a cabeça. — O doutor Clarck garantiu que não vai demorar. — Sorriu.
— Então nesse caso nós vamos almoçar. Quer ir conosco? — A Fabray mais velha indagou.
— Não. Eu vou ficar aqui com a Quinnie. Podem ir. — Sorriu gentil.
— Iremos trazer algo pra você comer. — Brittany aproximou-se. — Sei que não comeu direito aqui no hospital.
— Não precisa, eu...
— Não diga que não precisa. — Santana ralhou, interrompendo a baixinha. — Vamos trazer algo e não adianta discutir. — Finalizou.
Rachel apenas suspirou e assentiu resignada.
— Tudo bem. Não demorem.
— Não iremos. — Brittany sorriu, inclinando-se e plantando um beijo na testa de Quinn.
A latina repetiu o gesto da namorada e Frannie logo fez a mesma coisa, andando até a porta do quarto e parando bruscamente.
— Ah, e Shelby avisou que virá aqui amanhã pela manhã. — Sorriu, saindo do quarto em seguida.
A morena apenas sorriu e virou-se, abrindo a outra mala de pequeno porte e observando os objetos que haviam dentro. Algumas peças íntimas, roupas casuais e confortáveis, produtos de higiene. Rachel passou alguns minutos apenas analisando cada coisa, até que sua atenção fora desviada para Quinn, que tossiu levemente.
A baixinha largou tudo e praticamente correu até a cama, observando a namorada tossir mais algumas vezes, antes de abrir os olhos vagarosamente e piscar algumas vezes.
Quinn sentia o corpo pesando consideravelmente. Seu dorso estava doendo levemente e sentia um leve incômodo naquela região, enquanto engolia com dificuldade por conta da garganta extremamente seca.
Seus olhos ardiam por conta da claridade e sua visão estava embaçada, mas foi possível notar alguém perto de si, olhando-a com atenção. Os cabelos longos e escuros, assim como a pele morena e o perfume doce e inebriante. Rachel.
— Quinnie? — A voz melodiosa ecoou em seus ouvidos e a mão pequena e quente tocou a lateral do seu rosto. A loira sorriu fracamente.
— Rach... — A voz saiu excessivamente rouca. — Rach...água. — Pediu.
A morena reagiu no mesmo segundo e antes de encher o copo de plástico situado na pequena mesa hospitalar ao lado da cama, Rachel apertou o pequeno botão vermelho fixo na parede.
— Eu não posso dar água diretamente a você. — Explicou enquanto enchia o recipiente com água e segurava o copo em mãos, fisgando um pouco de algodão e o molhando. — O doutor disse que você não vai sentir sede porque a sonda já está levando água para o seu interior, mas sua garganta estaria seca, então ele me aconselhou a fazer isso. — Aproximou-se, passando o objeto macio sobre os lábios de Quinn.
A loira sugou o conteúdo de seus lábios, sentindo Rachel repetir o processo algumas vezes até que conseguiu engolir novamente com facilidade.
— Deus! — Rachel aproximou-se novamente logo depois de colocar o copo com algodão em seu devido lugar. — Eu nem acredito que você está aqui. — Declarou, sentindo os olhos marejarem.
— Não chore. — A loira murmurou baixinho, erguendo o braço e tocando o rosto moreno com a ponta dos dedos.
— Você não sabe como eu me senti enquanto via você quase sem vida naquela UTI. — A morena segurou a mão pálida e beijou a palma várias vezes. — Eu achei que fosse perder você. — Sentiu a primeira lágrima escorrerem por seu rosto.
— Não chore, Rach. — Quinn pediu novamente, utilizando o polegar para secar o rosto da morena. — Eu estou aqui. Eu não vou morrer. Eu amo você. — Sorriu amorosa.
Rachel suspirou. Como sentiu falta daquele sorriso. De como as maçãs do rosto de Quinn ficavam marcadas quando ela sorria e de como os olhos encolhiam. A morena inclinou-se e juntou seus lábios nos de Quinn, em um selinho demorado.
A menor sentia o coração quase saindo pela sua boca. Era quase como o primeiro beijo de ambas. As mesmas sensações. A grande metáfora sobre ver estrelas não era uma metáfora porque a morena jurava poder enxergar pontos brilhantes que reluziam o que estava sentindo naquele gesto amoroso. O estômago revirava e as pernas estavam bambas. Era um selinho, mas para Rachel nunca seria algo simples, tampouco para Quinn.
As bocas desgrudaram quando a porta fora aberta e o homem de jaleco adentrou o quarto sorrindo largamente.
Rachel mal podia esperar para tocar seus lábios nos de Quinn novamente.
...
O doutor Clarck havia se retirado do quarto há alguns minutos e Quinn ainda absorvia as informações descobertas.
Ela moveu o braço delicadamente e levantou o lençol de coloração azul céu e observou o objeto transparente introduzido dentro de si. O esparadrapo estava envolto na sonda para que a mesma não saísse do lugar e Quinn fez uma careta involuntária, sentindo-se desconfortável ao imaginar aquilo ligado ao seu fígado.
— Eu não quero ficar nesse hospital. — Murmurou.
— Não seja teimosa agora. — A morena aproximou-se, sentando na ponta da cama. — Você vai ficar quietinha aqui querendo ou não até obter alta, e irá seguir todas as recomendações quando sair. — Passou a mão no rosto pálido.
— O que houve com o Finn? — Indagou, segurando a mão morena.
— Eu sinceramente não quero saber. — Suspirou. — Frannie expulsou Judy e consequentemente ele da mansão por ela ter ficado do seu lado.
— Ela ficou do lado dele? — A loira sentiu o peito afundar.
— Ela é um monstro, Q. — Rachel aproximou-se, sabendo o que a namorada estava sentindo através da sua expressão de desgosto. — Ela merece ficar com gente do seu tipo. — Segurou o rosto pálido entre as mãos.
— É só que... — Engoliu o nó na garganta. — Enquanto o doutor explicava tudo, eu apenas pensava se ela iria aparecer aqui e dizer que sente muito por tudo e eu conseguiria ver o arrependimento nos olhos dela. — Respirou fundo. — Eu a perdoaria, sabe? Se eu enxergasse realmente que ela estava arrependida. Eu a perdoaria e poderíamos recomeçar. — Fechou os olhos, sentindo algumas lágrimas escorrerem pela face de bochechas levemente rosadas.
Rachel sentiu o peito doer consideravelmente e manteve as mãos segurando o rosto da loira, enquanto sentia os próprios olhos marejarem. A morena aproximou seu rosto e depositou inúmeros selinhos nos lábios finos, fazendo Quinn sorrir enquanto a baixinha não parava com o gesto.
A morena retribuiu o sorriso e deu-lhe um último selinho demorado, antes de colar sua testa na dela e observar os olhos verdes brilhantes.
— Eu senti tanto a sua falta. — Sussurrou. — Eu amo tanto você. — Selinho. — Tanto. — Mais um.
Quinn soltou uma risadinha e pincelou seu nariz no da morena, aspirando o cheiro doce de Rachel.
— Eu nunca deixaria você sozinha. Eu nadei por você. — Sorriu, fazendo Rachel arregalar os olhos surpresa.
— Você...você conseguiu ouvir o que eu disse? — Indagou surpresa.
— Eu ouvi cada palavra. — Sorriu, beijando a ponta do nariz da namorada.
Rachel sorriu e novamente encheu a loira de selinhos, fazendo-a rir um pouco mais alto.
A bolha de ambas fora quebrada quando a porta abriu-se e as amigas adentraram o quarto com Frannie.
— Olha quem acordou! — A latina sorriu, aproximando-se da cama. — Como está se sentindo? — Indagou levemente preocupada.
— Acho que estou pronta pra outra. — Brincou, sorrindo levemente.
— Não diga isso! — Brittany disse, andando até parar ao lado da latina. — Você nos deu um susto enorme.
— Teve duas paradas cardíacas. — Frannie se aproximou, ficando ao lado de Rachel, inclinando-se e beijando-lhe a testa. — Achei que iria perder minha irmã caçula.
— Você não iria ser filha única novamente. É muito chato. — Quinn respondeu sorrindo para a mais velha.
Frannie soltou uma risada e assentiu, segurando a mão da mais nova entre as suas.
— Então... — Santana sorriu de lado. — A Hobbit contou o que Puck e eu fizemos com o cara de feto?
— Santana! — Brittany ralhou. — Agora não.
— O que vocês fizeram? — A loira franziu o cenho.
— Nós ensinamos uma lição. Estilo East End. — Bateu as mãos uma na outra.
— Santana e Noah deram uma surra no Finn e ainda quebraram seus dois pés. — Frannie explicou para a irmã.
— O quê? — Quinn quase gritou, completamente em choque, tentando sentar e logo gemendo de dor pelo esforço.
— Você ficou maluca?! — Rachel pôs a mão sobre os ombros da namorada, deitando-a na cama. — Fique quieta! — Ordenou.
— Desculpe. — Murmurou, tomando uma longa respiração e encarando a latina. — Vocês fizeram isso?
— É claro, Q! — Respondeu cruzando os braços. — Ele mereceu.
— Não se resolve nada com violência, Santana. — Repreendeu. — Finn merece ser preso.
— Pare de ser tão gentil. Aquele nojento esfaqueou você sem o mínimo de pena. O que fizemos foi pouco. — Revirou os olhos. — Além do mais, a polícia não irá fazer nada. Essa cidade é minúscula e aposto que Judy possui contatos.
A loira pensou em retrucar, mas apenas suspirou, passando as mãos pelos cabelos, logo voltando a encarar a amiga.
— Como foi bater nele? — Indagou curiosa, sorrindo levemente.
Santana sorriu largamente e sentou-se na beira da cama, passando a contar tudo o que fez com Puck.
Rachel apenas revirou os olhos e sentou no sofá de dois lugares com Brittany, que lhe entregou a embalagem de comida vegana.
...
— Eu não quero dormir. — A loira disse.
— Você já deveria estar dormindo. — Rachel retrucou, saindo do banheiro com uma regata e calça moletom. — Conversou por horas com Sant, Britt e Frannie. Ainda falou com Puck pelo telefone. Já se esforçou demais por hoje.
— Ainda são oito horas. — Respondeu bocejando. — Eu ainda acho que você deveria ir pra casa.
— E deixar você aqui sozinha? Eu nunca vou deixar você. — Sentou na cama.
A loira apenas sorriu com amor, observando Rachel deitar ao seu lado na cama grande do hospital e fisgando sua mão.
— Eu amo você. — Quinn sentia os olhos pesarem.
— Eu te amo mais. — Rachel ergueu-se, beijando sua bochecha. — Para sempre.
— Para sempre. — Quinn sussurrou, fechando os olhos e entregando-se ao sono.
Rachel sorriu enquanto olhava para a namorada. Seu coração batia descompassado e a ela chorou em silêncio mais uma vez. Chorou de amor. Chorou de alívio. E chorou de felicidade até pegar no sono.
Tudo havia entrado nos eixos novamente.
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