O Preço da Volta
26 Capítulo 26 - ''Você voltou para mim...''
Notas iniciais
Os olhos verdes se abriram com dificuldade, fitando o extenso lugar com gramas verdes e árvores robustas.
Quinn observou atentamente os balanços mais adiante, seguido do banco velho ao lado dos brinquedos e por fim a enorme construção antiga. O Strawberry Fields.
As madres conversavam entre si e dirigiam os olhares para as crianças esporadicamente. O barulho de tantas vozes juntas quase fazia daquele lugar um local feliz, se não fosse pelas cicatrizes que aqueles pequeninos carregavam dentro de si.
— Sabe...você já deveria estar melhor e não ter se entregado assim. — Uma voz infantil chamou sua atenção e Quinn olhou para o lado, olhando para...ela mesma.
— O que... — A loira mais velha tentava formular algo coerente, mas nada vinha em sua cabeça. Onde ela estava, afinal? Em uma espécie de plano depois da morte?
— Você não está morta, sua boba. — A Quinn mais nova respondeu revirando os olhos.
— Você consegue ler meus pensamentos? — A mais velha questionou assustada.
— Tecnicamente somos a mesma pessoa, então o que você pensar, eu penso também. — Bateu o dedo em sua têmpora.
— Certo, e por que estou aqui? — Indagou, tentando organizar as informações na sua cabeça.
— Por que todos os seus pensamentos enquanto está no hospital foram direcionados para cá. Você pensa demais na infância. Em Rachel mais especificamente. — Sorriu ao pronunciar o nome da morena.
— Você parece ser bem adulta, apesar da idade. — Analisou a Quinn mais nova. Os cabelos na altura dos ombros, a blusa verde com listras azuis e a calça jeans de lavagem clara desgastada, assim como o par de tênis.
— Isso aqui. — Fez um gesto indicando todo o local. — É coisa da sua cabeça. Estamos ligadas e eu tenho quase a sua mentalidade. — Explicou calmamente.
— E qual o propósito de eu estar aqui, conversando com meu eu de dez anos? — Perguntou impaciente, de repente gemendo de dor e pondo a mão sobre o dorso. — Droga! — Praguejou baixinho com os dentes trincados.
— Você está quase se entregando à dor. Isso não pode acontecer! Você tem noção de como todos ficariam se você morrer? — A mais nova se levantou batendo o pé impaciente.
— Você não sabe como isso dói. Eu só quero que passe logo. — Respirou profundamente.
— Vai passar se você lutar contra isso e voltar para a vida normal. Pare de fraquejar! — Esbravejou. — Quer deixar Rachel sozinha?
— Eu não... — Tomou uma longa respiração. — Não...posso deixá-la sozinha. Droga, droga... — Quinn apertava a lateral do seu tronco, sentindo a dor aumentar consideravelmente.
— Aceite os remédios. Não os expulse de dentro de si. Vai doer por um tempo, mas vai passar. É como um corte. Sempre fecha, por mais profundo que ele seja, tudo bem? — Pôs a mão no ombro da mais velha, que estava sentada na grama.
Quinn apenas assentiu agoniada, sentindo o suor escorrer em sua testa.
— Quinnie! — Uma voz fina chamou a atenção das duas loiras, e uma morena baixinha apareceu em seu campo de visão.
Os cabelos pretos lisos, os olhos castanhos grandes, o nariz avantajado e os lábios grossos.
Rachel.
A pequena correu na direção da Quinn de dez anos e segurou a mão pálida. A loira mais velha sentiu o toque em si.
— Vamos! Você prometeu terminar de ler O Pequeno Príncipe e ainda não acabou. — Fez um biquinho nos lábios grossos.
— Ela não consegue me ver? — A mais velha indagou.
A loira mais nova apenas negou com a cabeça antes de encarar a baixinha contrariada.
— Eu nunca quebraria uma promessa, Rach. Vamos lá. — Sorriu e apertou a mão da morena, virando-se em seguida e movendo os lábios, emitindo silenciosamente um ''Nade contra essa dor'' e sumindo de sua visão com Rachel ao seu lado.
Quinn não pôde processar nada quando um grito rouco escapou de sua garganta, e deitou na grama, encolhendo em posição fetal e sentindo as lágrimas molharem sua face. A dor era imensurável e ao mesmo tempo que doía, queimava como o inferno.
Os olhos fecharam fortemente e logo a imagem de Rachel veio em sua cabeça. As palavras proferidas na UTI ecoando como um mantra em sua mente.
''...seja forte e nade por mim, Quinnie. Nade pelo nosso amor. Não desista.''
''Aguente firme, meu amor.''
A mão direita apertava a pele de seu tronco, tentando aliviar a dor torturante que apossava-se de si. Quinn afundou a testa na grama, enquanto soluçava de modo sôfrego e mantinha a consciência ativa. Ela gostaria de fechar os olhos. Deus! Como gostaria de se desligar agora e simplesmente ir embora como um alívio, livrando-se de todo o peso que sentia sobre si, mas ela não faria isso. Ela não deixaria Rachel sozinha.
Tudo em sua volta começou a perder o foco e a cor, e de repente houve apenas a escuridão, exceto por um ponto luminoso minúsculo que podia ser visto ao longe. Quinn apertou os olhos e os abriu novamente, observando a luz tornar-se maior e mais forte, enquanto sentia o suor escorrer por seu pescoço.
Novamente fez o processo de abrir e fechar os olhos, tentando aguentar a claridade que irradiava, e quanto não era mais possível suportar tal esplendor, Quinn fechou os olhos.
E não os abriu novamente.
...
— QUINN! — Rachel sentou-se na cama, sentindo o corpo tremer e o rosto suando consideravelmente.
— Rach. — A voz de Brittany ecoou preocupada ao lado de si. — O que houve? — Os braços longos abraçaram-na fortemente, enquanto a morena deixou-se cair contra o corpo da amiga.
Os olhos castanhos observaram o garoto de moicano com o semblante cansado e assustado sentado na poltrona ao lado da cama, e a latina sentada do seu outro lado, encarando-a da mesma forma.
— Rach... — Dessa vez Santana pronunciou-se. — O que está sentindo?
— A Quinnie...ela...eu vi que...que ela... — A morena voltou a chorar, apertando-se contra o corpo de Brittany, enquanto os amigos fitavam-na confusos.
A porta do quadro fora aberta antes que alguém pudesse dizer alguma coisa e Frannie adentrou o local com o telefone residencial em mãos.
— Era o doutor Clarck. Temos de ir para o hospital. — Anunciou nervosa.
— Aconteceu algo grave com a Q? — Santana indagou já de pé e passando as mãos nos cabelos revoltos.
— Ele não quis contar por telefone. Vou me trocar e já partimos. — Saiu do quarto sem esperar uma resposta.
— Vamos lá, Rach. — Brittany passou as mãos nos cabelos castanhos. — Vamos ver o que houve com a Q.
A baixinha apenas assentiu, tentando acalmar o corpo e parar de tremer, soltando-se do abraço da amiga e observando o relógio na mesa de cabeceira marcando as duas da madrugada.
...
Hospitais com toda a certeza possuem o clima mórbido, e à noite era tudo muito pior. Diferente da correria e da agitação de enfermeiras e médicos durante o dia, durante a madrugada era quase raro ver alguém andando pela recepção ou pelos corredores.
Exceto pela mulher que habitava a recepção, era possível ver apenas o homem de jaleco e segurando a prancheta em mãos, com o rosto cansado.
— Doutor. — Rachel andou apressadamente até o homem. — O que houve com a Quinnie?
O homem observou todos ali presentes.
— Bom...Lucy estava entubada para que ela estivesse totalmente sedada quando os medicamentos entrassem em contato com seu fígado, para garantir que ela não sentisse nenhuma dor e também para o caso de haver alguma outra surpresa e já estarmos preparados. — Explicava calmamente. — Eu estava fazendo plantão aqui nessa madrugada e recebi um chamado para vê-la urgentemente.
— E o que ela teve? — Frannie indagou agoniada.
— Sabe, eu trabalho aqui desde os vinte e três anos e nunca vi nada parecido com aquilo. — Comentou, lembrando da cena. — Lucy acordou de uma sedação profunda e teve uma convulsão devido aos medicamentos. A entubação era justamente para que quando os efeitos dos remédios entrassem em seu sistema ela não sentisse nada, mas ao contrário do que deveria ter acontecido, Lucy despertou e sentiu parte da dor do processo. Eu não sei explicá-los o quanto essa dor foi descomunal, mas logo nós a sedamos novamente e ela dormiu. Fizemos alguns exames e retiramos o tubo. Seu corpo agora está aceitando todos os medicamentos necessários. Deveríamos esperar as vinte e quatro horas completas para que pudéssemos retirá-la da entubação e fazer os exames para saber se seu corpo reagiu, mas em menos de vinte horas isso ocorreu. Eu nunca vi algo parecido.
Rachel ainda tentava processar as informações. Dor...Quinn sentiu dor. Não uma simples dor, mas uma dor descomunal e isso apertou seu peito consideravelmente.
Lembrou também do pesadelo que tivera. Quinn tentava lutar contra a dor, mas parecia impossível. O desespero nos olhos verdes era tão doloroso e Rachel não podia fazer nada enquanto apenas assistia aquele padecimento.
Fora tudo tão real que o corpo da baixinha ainda tremia levemente enquanto absorvia as informações do médico. Quando menos esperava, as lágrimas escorriam por seu rosto.
— Então Lucy está bem? — Frannie indagou.
— Ela terá de ficar no hospital por um tempo longo e recebendo nutrientes e medicamentos pela sonda, além de se alimentar somente de alimentos pastosos quando obtiver alta, mas ela está fora de perigo e amanhã irá para um quarto se continuar reagindo aos remédios. — Finalizou com um sorriso gentil.
— Oh, Deus. — Rachel chorou mais forte. Um choro de alívio, enquanto sentia o mundo praticamente sair de suas costas.
A baixinha não perdeu tempo e abraçou o homem de jaleco, emitindo vários agradecimentos enquanto chorava. O doutor retribuiu o afeto sorrindo e logo ambos separaram-se.
— Eu posso passar a noite aqui? Eu sei que isso não é permitido na UTI, mas me deixe ficar ao lado dela. — Suplicou.
— A visitação é sempre boa, Rachel. — O doutor sorriu. — Nós apenas permitimos quinze minutos na UTI por conta da gravidade do estado do paciente, mas visitas são essenciais. São elas que ligam o paciente ao mundo real. Que dão conforto e transmitem sensações de paz. Lucy não está mais em um estado crítico e sua permanência na UTI pelas próximas horas é apenas para observação. Eu vou autorizar que você fique esse resto de madrugada com ela. — Finalizou com um sorriso.
— Obrigada, doutor Clarck. — A baixinha sorriu largamente, virando para encarar os amigos e cunhada, que também sorriam e choravam ao mesmo tempo.
Brittany abraçou a amiga fortemente, enquanto os demais também juntavam-se ao afeto. Dessa vez sem dores ou aflições. Apenas o alívio.
— Me ligue assim que Lucy for transferida para um quarto. — Frannie se pronunciou após separarem-se do abraço. — Eu irei vir correndo para vê-la.
— Eu irei ligar sim, eu prometo. — Rachel sorriu.
Trocou despedidas com os amigos, antes de ser chamada pelo doutor, que havia acabado de autorizar sua entrada para pernoitar. A morena caminhou rapidamente. Sem hesitar ou parar para tomar respiração. Ela apenas queria ver o rosto de Quinn.
Ao entrar no leito individual ela pôde ver a loira novamente. Os lábios agora estavam ganhando uma coloração rosada e o rosto estava com a tonalidade alva normal que Quinn sempre tivera e não aquela aparência sem vida. O monitor cardíaco fazia seu típico som emitindo os batimentos calmos da namorada. A sonda também estava lá e Rachel agora sabia que aqueles líquidos de tonalidades variáveis que estavam entrando no interior da loira realmente estavam fazendo o devido efeito.
Ela não perdeu tempo e deu a volta na cama, sentando delicadamente na poltrona acolchoada e logo buscou a mão marmórea.
— Eu achei que fosse perder você. — Sussurrou. — Achei que o mundo seria injusto comigo também. Sabe...sempre dizem que só podemos ter sorte em uma única coisa especifica. Nos bens materiais ou nos sentimentais e não nos dois. Achei que o universo iria tirar você de mim para provar que eu não poderia ter as duas coisas, mas eu estava enganada. — Sorriu, enquanto afagava as costas da mão de Quinn com o polegar. — O mundo não vai tirar você de mim porque você mostrou ser mais forte do que qualquer força negativa. Você nadou, Quinnie. Nadou por mim. Por nós. Pelo nosso amor. Você voltou para mim e eu estou tão feliz por saber que em breve irei olhar novamente para os seus olhos. Eu sinto tanta falta do seu toque, de você inteira. — Beijou a sua mão demoradamente. — Eu te amo tanto.
...
Rachel encarava a mais alta enquanto lhe contava histórias. Não sabia quanto tempo passou falando com ela. Horas passaram-se, mas quantas delas a judia não saberia dizer.
Seu monólogo fora interrompido bruscamente quando a mão de Quinn apertou a sua levemente, fazendo-a arregalar os grandes olhos castanhos.
Ela abriu a boca surpresa quando sentiu novamente outro aperto e em seguida os olhos da loira se abriram vagarosamente.
Rachel viu o verde outra vez.
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