O Preço da Volta
24 Capítulo 24 - Acerto de contas e surpresas desagradáveis...
Notas iniciais
O rapaz assinou a papelada em uma velocidade notável. Estava louco para sair daquele lugar. Roupas casuais estavam postas sobre a cama para serem vestidas pelo mesmo.
A enfermeira segurou os papéis assim que Finn os assinou e retirou-se da sala com um sorriso simpático.
— Vou aguardar na recepção enquanto se veste. Não demore. — Judy disse.
Finn apenas assentiu, observando a mulher se retirar da sala com a bolsa de sobre o ombro.
As mãos grandes passaram delicadamente na face coberta por curativos. Tudo latejava e ganhava uma coloração mais arroxeada à medida que o tempo passava. Os efeitos dos medicamentos estavam passando. O rapaz virou-se para pegar os objetos e adentrou o banheiro, logo retirando a roupa hospitalar e vestindo as casuais. O jeans, camiseta e tênis eram um diferencial aos ternos sempre usados e os davam um ar mais novo.
Saiu do banheiro e seu corpo entrou em alerta ao observar as duas pessoas na sua frente.
A latina estava perfeitamente acomodada na poltrona ao lado da cama. As pernas cruzadas subiam o vestido preto colado e deixavam à mostra parte das coxas morenas. Os dedos entrelaçados sobre o colo. Santana sorria de maneira desdenhosa.
Puck se encontrava em pé em frente à porta. O blazer de seu terno estava jogado sobre a cama pouco tempo antes ocupada por Finn. A gravata estava frouxa e os primeiros botões da camisa branca abertos. As mangas dobradas até os cotovelos e um sorriso semelhante ao da amiga banhava em seu rosto.
— Olá, Finnútil. — A latina saudou.
O rapaz engoliu o nó na garganta e assumiu uma postura tensa.
— O que vocês estão fazendo aqui? — Indagou raivoso.
— Viemos apenas acertar algumas coisinhas. — Puck se manifestou, estalando os dedos da mão ainda sorrindo.
Finn observou o barulho dos ossos sendo estalados e tentou não sentir medo. Seu corpo gritava para que ele saísse dali.
— É melhor vocês saírem antes que eu chame a segurança. — Proferiu, mantendo a voz firme.
— Você pode até tentar sair daqui, mas acho difícil conseguir. — Santana respondeu, levantando-se e erguendo a mão, mostrando o aparelho celular de Finn. — Não há para quem ligar, cara de feto. — Jogou o objeto no chão, pisando em cima com o salto fino de seus sapatos e abrindo quebrando a tela.
— Eu não vou ficar aqui com vocês! — Rosnou.
— E o que vai fazer? — Puck indagou. — Gritar por socorro?
Finn até poderia gritar, mas seu ego também se manifestava dentro de si. O maior trincou o maxilar e partiu para cima de Puck. Seu punho fechou-se, mas antes de chocar-se contra a face do rapaz de moicano, o mesmo esquivou-se e acertou-lhe um soco na boca do estômago, fazendo Finn curvar-se pela falta de ar e ser empurrado em direção ao chão.
— Sabe, Finn, quando eu tinha onze anos, um garoto muito parecido com você entrou no orfanato. — A latina começou, enquanto o rapaz mantinha-se no chão, tentando recuperar o ar. — Ele era assim, babaca e covarde. Sempre destruía os brinquedos das outras crianças. Batia nos mais fracos e não era amigo de ninguém. Quando eu tentei fazer alguma coisa juntamente com Puck, a Q disse que violência não ajuda em nada e que apenas gerava mais violência. — Caminhou até estar na frente do maior. — Esse mesmo garotinho fez questão de acertá-la propositalmente com uma bola onde saberia que ia doer. Ele machucou uma garota de onze anos que nunca fez mal a ninguém. — Abaixou-se, encarando os olhos de Finn. — Puck e eu entramos em seu quarto durante a noite, amarramos a boca dele e o arrastamos até o jardim pelos cabelos. E sabe o que nós fizemos? — Segurou fortemente os cabelos de Finn, fazendo-o gemer de dor e negar com a cabeça. — Nós o amarramos em uma árvore e chamamos todos os garotos em quem ele bateu para revidarem tudo. Ele desmaiou com a surra que levou. — Sorriu maldosamente. — E então você tenta agarrar a Rach e depois matar a Q e espera que saia impune disso? — Riu, balançando a cabeça em negação. — Um erro enorme, Finn. — Soltou os fios escuros e curtos do rapaz, levantando-se e acertando-lhe um chute na face.
O rosto do maior virou com o impacto forte e seu corpo curvou no chão, sentindo a dor aguda, enquanto os cortes fechados por pontos abriam-se.
Puck aproximou-se e chutou-lhe a barriga, fazendo-o grunhir de dor e assumir uma posição fetal. O ar sumindo de seus pulmões.
Outro chute.
Dessa vez nas costelas. Finn soltou um gemido mais alto devido à dor. Sua cabeça girava a sua visão se tornava turva.
— Você não é alguém capaz de brigar com quem consegue revidar na mesma moeda. — Puck rosnou. — Teve de esfaquear uma garota, seu babaca?
— O que vão fazer? Me matar? — Finn murmurou, tossindo. A voz rouca e seca.
— Não. — Puck maneou a cabeça. — Não somos assassinos e nem podres como você.
— Mas vamos fazer você sentir dor. Sabe como, Finn? — A latina questionou, dando-lhe outro chute nas costelas.
O rapaz soltou um grito abafado pela forte pancada no lugar já chutado por Puck anteriormente e escondeu o rosto no chão, sentindo as lágrimas descerem por seu rosto. Sentia seu corpo pesado e doendo como se um carro houvesse passado por cima de si.
Santana rasgou um pedaço da camisa do rapaz e amarrou o pano contra a boca do mesmo, segurando-lhe a cabeça e observando Puck se abaixar na altura de Finn.
O rapaz de moicano segurou a perna do mais alto e girou o tornozelo do mesmo com uma força e velocidade absurda. O barulho do osso se quebrando pôde ser ouvido e o grito de Finn saiu abafado pelo pano em sua boca, enquanto mais lágrimas desciam pelo seu rosto.
— Calma, Finnbabaca. Está quase acabando. — Santana disse, enquanto mantinha a mão prendendo o tecido na boca do rapaz.
Puck repetiu o processo na outra perna na mesma intensidade e Finn já não gritou. A dor apoderou-se de seu corpo e o rapaz sentia a visão escurecer.
Santana retirou o tecido da boca de Finn e se levantou, deixando a cabeça do mesmo cair no chão.
— Nunca mais se aproxime da Q ou da Rach. — Santana passou as mãos nos cabelos. — E nem pense em fazer nada ou te acharemos onde você estiver e será bem pior. — Ameaçou.
Puck recolheu o blazer de cima da cama e o pôs sobre o ombro, saindo do quarto com a amiga logo em seguida.
Os olhos azuis de Judy se abriram em surpresa quando bateu de frente com os dois amigos saindo do quarto de Finn.
— O que estavam fazendo aí dentro? — A mulher quis saber.
— Eu acho melhor entrar e cuidar do seu filho. — A latina sorriu. — E se tentar fazer algo, Finn vai pagar caro.
— Bem mais do que já pagou. Isso... — Apontou para a porta do quarto trezentos e seis. — Foi apenas uma amostra grátis. — Piscou o olho, partindo dali com a latina e deixando a mulher em um estado catatônico.
...
As mãos delicadas abriram o cesto de roupas para lavar e fisgaram a blusa social de cor púrpura, levando-a diretamente até o nariz.
O cheiro de Quinn estava ali. Forte e penetrável. Os dedos morenos apertaram-se contra o tecido, como se pudesse sentir o corpo esguio e macio de Quinn perfeitamente moldado naquela peça de seda.
Rachel vestiu a blusa, vendo-a ficar extremamente folgada e cobrir-lhe até metade das coxas. Abotoou-a vagarosamente e retirou as outras peças que continham o cheiro da namorada do cesto do banheiro. As roupas foram depositadas na vasta cama. Logo vestiu a calça moletom da loira e jogou-se sobre o colchão macio. O cheiro estava tão forte e tão vivo e isso causou uma onda de dor enorme dentro de si. O choro voltou minutos depois e ela se encolheu na cama apertando os tecidos contra si.
Era tão doloroso observar como aquele quarto abrigava pedaços da loira.
Desde os livros sobre técnicas de joias e suas histórias que estavam jogados sobre a poltrona perto da cama até o laptop que possuía alguns post-it colados com lembretes sobre o que estudar com a letra forte e cursiva de Quinn.
A morena observou o relógio digital que marcava o início da noite e virou-se, observando o céu pela janela do quarto. Cinza e com pesadas nuvens escuras. Até era possível assemelhar aquele clima à sensação de vazio que permanecia no seu interior.
Continuou chorando até os olhos pesarem consideravelmente pelo efeito do calmante que Shelby lhe deu ao chegar na mansão.
Dormiu pensando em Quinn.
...
A baixinha despertou-se vagarosamente ao sentir toques suaves em seus cabelos e uma voz doce pronunciando seu nome em um tom baixo.
— Britt? — A voz de Rachel saiu rouca enquanto coçava os olhos e se sentava na cama. — Aconteceu algo com a Quinnie? — Indagou nervosa.
— Não, Rach. — Tranquilizou a amiga. — Eu vim aqui pra saber como você está e trouxe um chá. — Mostrou-lhe a xícara, entregando-a para a menor.
A morena soprou a fumaça que emanava do líquido quente e tomou um gole pequeno, apreciando o gosto adocicado da camomila.
— Obrigada, Britt. — Sorriu fracamente.
A loirinha retribuiu o sorriso e levantou-se, segurando um objeto em mãos.
— Eu tenho uma coisa pra você. — Sentou-se na ponta da cama.
— O que é? — A morena perguntou, bebendo outro gole e pondo a xícara sobre a mesa de cabeceira.
— Bom...lembra de quando eu fiz catorze anos e a Q me deu aquela câmera fotográfica furtada? — Questionou, soltando uma risadinha.
— Sim. — Rachel assentiu, sorrindo mais largamente. — Nós passamos meses tirando fotos de tudo o que víamos pela frente, mas ela se quebrou e nunca pudemos salvar as fotografias.
— Eu a guardei e antes de virmos para Ohio, pus ela em minha bolsa e semana passada levei no conserto com a Sant e revelei as fotos. — Contou calmamente.
— Isso é sério, Britt? — Rachel sorriu. — Isso é um álbum com as fotos? — Apontou para o objeto nas mãos da amiga.
— Não todas. — Entregou-o para a morena. — Eu pus aqui todas as fotos em que continham você e a Q e daria para vocês no próximo aniversário de namoro como um presente. — Sorriu docemente. — Mas devido aos acontecimentos, eu quis adiantar o presente para que você possa vê-las.
Rachel olhava o objeto como se ele fosse um tesouro. A capa era preta e possuía o nome de ambas em uma cor cinza forte no canto inferior direito do álbum. Brittany sempre seria doce como açúcar.
— Deus, Britt! — A morena pôs o objeto ao seu lado e jogou-se sobre a loirinha, abraçando-a fortemente. — Obrigada, obrigada, obrigada... — Repetia sem parar.
A maior soltou uma risadinha e apertou a morena contra si.
— Não precisa agradecer, Rach. — Separaram-se vagarosamente. — Somos amigas desde criança e sempre estarei aqui pra você e por você.
— Eu também Britt. — Sorriu com carinho. — Eu amo você, Sant e Puck. São como meus irmãos. E a Q... — Suspirou. — Ela é a junção de tudo o que há de lindo dentro de mim.
— Nós também amamos você, Rach. — Afagou os cabelos castanhos. — Também amamos a Q e ela vai estar bem logo logo para ver esse álbum com você.
— Ela com certeza irá, Britt. — Assentiu com os olhos marejados.
— Eu tenho que ir agora. Irei chamar você para jantar e irá comer mesmo alegando estar sem fome. Precisa se alimentar. — Levantou-se, beijando a testa da amiga e andando até a porta.
— Britt. — Chamou assim que a loirinha pôs a mão na maçaneta.
— Sim? — Virou-se.
— Obrigada. — Agradeceu novamente.
— Pare de agradecer. — Ralhou em brincadeira. — Eu sei que sou a melhor amiga do mundo. — Sorriu, saindo do quarto em seguida.
Rachel soltou uma risadinha e pegou o objeto em suas mãos, afagando-lhe a capa e deitando novamente entre as roupas de Quinn. As mãos morenas abriram o álbum e Rachel pôde ver as fotos preenchendo as páginas, juntamente com a data em que foram tiradas logo abaixo delas.
Os olhos castanhos marejaram consideravelmente enquanto as pontas dos dedos passeavam pelo rosto de Quinn nas fotografias, como se pudesse tocá-la.
Eram diversas fotos. Ambas no parque Hampstead Heath, acomodadas no banco onde sempre ficavam. Estavam devidamente agasalhadas e a pontinha do nariz de Quinn estava vermelha. As mãos entrelaçadas cobertas por luvas e o sorriso no rosto.
Na próxima fotografia os braços de Quinn circulavam a cintura de Rachel, enquanto a loira mantinha-se atrás de si e era possível ver a Ponte de Westminster ao fundo. Os sorrisos estavam ali.
As lágrimas caíam dos olhos castanhos com velocidade, e os soluços baixos ecoavam pelo quarto vultoso.
E havia as fotos em que ambas faziam brincadeiras, como a que Rachel estava nas costas de Quinn e sorria sapeca, enquanto era segurada pelas coxas e descia a touca da namorada para tampar-lhe a visão. Mesmo sendo pega de surpresa, Quinn não deixou de sorrir.
As páginas iam passando e a morena chorava enquanto observava a felicidade no rosto de ambas naquelas imagens. Muitas delas Quinn olhava para Rachel no momento em que a foto era tirada e o olhar da loira era a representação pura do amor em uma pessoa.
O amor de Quinn.
...
Os cabelos estavam presos em um rabo de cavalo. A morena não perdeu tempo para arrumá-los. Não usava nenhum vestido que moldava-lhe o corpo. A calça jeans e a blusa rosa clara de mangas longas eram confortáveis, juntamente com o par de sandálias pretas. A bolsa estava sobre o ombro e o semblante era cansado.
Rachel passou pela recepção e acomodou-se na sala de espera ao lado dos demais.
Todavia, seu rosto contorceu-se em confusão ao observar o doutor Clarck aparecer e não uma das enfermeiras para acompanhá-la até a UTI. Sentiu uma sensação de aperto ao notar a roupa cirúrgica que o mesmo vestia.
— Doutor? — Rachel se pronunciou, levantando do seu lugar.
— Olá, Rachel. — Saudou educado, logo após cumprimentando os outros ali presentes.
— Eu vim ver Lucy hoje. — Frannie disse. — Rachel concordou que eu entrasse.
O homem suspirou pesadamente e olhou algo em sua prancheta antes de encarar a Fabray mais velha.
— Houve algumas surpresas desagradáveis nessa madrugada. — O doutor começou.
— Surpresas? — Rachel sentiu a respiração engatar em um ritmo descompassado. — O que houve?
— Lucy teve duas paradas cardíacas. — O homem respondeu.
O ar faltou-lhe no mesmo segundo e Rachel se sentiu desabando gradativamente.
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