O Preço da Volta
18 Capítulo 18 - ''Você está morta...''
Notas iniciais
A morena lia atentamente a bula em suas mãos. O copo de cristal descansava sobre a bancada da cozinha ao lado da pequena pílula branca redonda.
— Bom dia, querida. — A voz de Shelby ecoou atrás de si, fazendo Rachel pular com o susto e deixar o papel que segurava cair no chão.
— Santo Deus! — Pôs a mão sobre o peito. — Não me assuste assim, mãe. — Pediu ofegante, abaixando-se e pegando o objeto caído.
— Desculpe. — A mais alta deu uma risadinha. — Não a vi desde a nossa conversa no escritório ontem. — Aproximou-se.
— Eu estava cuidando da Quinnie e não estávamos com cabeça para sair do quarto. — Voltou sua atenção para a bula.
— Entendo. — Assentiu. — Onde todos estão? — Indagou.
— Quinn e Sant foram para a empresa com Frannie e Puck. Britt está lá em cima e Cassandra foi levar Kate para a escola. — Respondeu erguendo o rosto para encarar a mais velha.
— E Judy? — Questionou sentando-se na cadeira acolchoada giratória perto da bancada.
— Saiu cedo com Finn. — Deu de ombros.
— Espero que não apronte algo. — Murmurou.
— Não acho que ela colocaria tudo a perder. — Depositou a bula ao lado da pílula, pegando a mesma e ingerindo-a junto com a água.
— Isso é o que eu estou pensando? — Indagou franzindo as sobrancelhas.
— Não sei no que está pensando. — Desviou o olhar após engolir o medicamento.
— Estou pensando que se isso for o que eu acho que é, você e Lucy estão sendo irresponsáveis. — Levantou-se, cruzando os braços com a expressão seria. — Quantas vezes vocês estão transando sem camisinha?
— Foi a terceira vez que fizemos sem proteção. — Respondeu com o rosto vermelho depois de alguns segundos.
— Rachel! — A morena encolheu-se ainda mais diante da voz firme da mãe. — Vocês são duas adolescentes de dezesseis anos. Mesmo que agora tenham uma condição de vida que proporciona conforto ao extremo, ainda são duas garotas. — Pôs as mãos nos rosto. — Há quanto tempo vocês já possuem uma vida sexual?
— Pare de me fazer essas perguntas. — Pediu, sentindo o rosto queimar.
— Essas mesmas perguntas serão feitas pela médica que irá atendê-la ainda hoje. — Proferiu.
— Mas eu não conheço quase nada dessa cidade. — Retrucou.
— Não se preocupe. Essa cidade não mudou nada e eu a conheço como ninguém. Agora vá se arrumar. — Voltou a sentar-se.
Rachel assentiu ainda encabulada e levantou-se, saindo da cozinha e subindo as escadas para o quarto.
...
— Então nós iremos receber alguns sócios de uma relojoaria que deseja fazer uma campanha conosco para divulgar ambas as empresas. — Frannie explicava enquanto caminhava pelo saguão do local até o elevador. — Marcamos a reunião para daqui à uma hora e iremos discutir os detalhes da campanha.
Quinn adentrou o elevador ao lado da irmã, Santana e Puck enquanto ouvia a mais velha falar sobre a reunião, todavia, sua mente vagava em um estado catatônico até a namorada. Rachel assegurou-lhe que tomaria a pílula e a loira estava preocupada se isso afetaria a saúde da morena.
Sua mente voltou ao presente momento quando sentiu um impacto contra sua nuca.
— Mas que diabos! — Pôs a mão no local. — O que aconteceu?
— Você estava parecendo uma morta-viva encarando a porta do elevador sem piscar nós achamos que sua alma estava fora do seu corpo. — A latina explicou calmamente.
— Não precisava ter me batido por isso. — Esfregava a nuca.
— Pare de reclamar, nem foi tão forte assim. — Cruzou os braços.
Quinn revirou os olhos para a latina e em seguida as portas de metal abriram-se, dando a visão dos funcionários sentados em suas mesas. Puck logo despediu-se das amigas e caminhou até a sala de contabilidade.
Os funcionários observavam as duas loiras e a latina andando lado a lado pelos corredores e alguns dirigiam cumprimentos educados pelo caminho. Quinn sentia-se corar diante dos olhares que lhe eram direcionados. Acontecia a mesma coisa todos os dias e a loira não havia se acostumado com os sorrisos abertos que recebia de tantas pessoas estranhas.
— Bom dia, Frannie, Lucy e Santana. — Mercedes apareceu em seu campo de visão impecavelmente vestida em um terno feminino.
— Bom dia! Como vai, Cedes? — Frannie sorriu para a amiga e funcionária.
— Estou ótima. Os sócios da relojoaria Anderson estão para chegar. — Respondeu educada.
— Certo. Venha comigo. Tenho que discutir algumas coisas sobre a reunião com você. — Virou-se para a irmã e a latina. — Querem vir? — Indagou.
— Eu já irei. Preciso ligar para a Rach. — Respondeu.
— Eu vou. Não aguento ouvir a melação que sairá dessa ligação. — Santana fez uma careta.
Mercedes riu enquanto Quinn revirava os olhos e observou as três saírem em direção à sala de Frannie.
A loira retirou o celular do bolso da calça jeans escura e efetuou a ligação para a namorada. A voz melodiosa fez-se presente após o segundo toque.
— Quinnie?
— Rach. — A loira falou rapidamente. — Você tomou a pílula? Está sentindo alguma coisa? Eu posso sair daqui se você se sentir mal.
— Meu amor, calma. — A morena riu no outro lado da linha. — Sim, eu tomei e estou bem. Minha mãe está me levando até a ginecologista para que eu possa começar a tomar o anticoncepcional. — Explicou carinhosa.
— Shelby sabe que nós... — De repente o rosto pálido ganhou uma coloração avermelhada.
— Ela apareceu enquanto eu tomava o medicamento e é meio impossível alguém pensar que não fazemos, Quinnie. Namoramos desde os doze anos. — Respondeu divertida.
— Eu sei. — Passou a mão livre pelos cabelos. — Mas é meio estranho.
— Ainda é estranho para mim também, mas ela é minha mãe e saberia de qualquer forma. — Respondeu calmamente.
— Tudo bem. — Suspirou. — Não está sentido nada mesmo?
— Nadinha. — Rachel sorriu pela preocupação da loira. — Não se preocupe, tudo bem? Qualquer coisa eu ligarei.
— Promete?
— Eu prometo. Agora preciso desligar. Estamos chegando. Eu amo você, Q.
— Eu também te amo, Rach. Muito. — Sorriu.
— Até mais tarde. — Quinn ouviu o som de um beijo estalado contra o telefone e soltou uma risada, ouvindo a finalização da chamada em seguida.
A loira guardou o celular de volta no lugar e sorriu, dirigindo-se até a sala da irmã em seguida.
...
Rachel encarava a cadeira vazia à sua frente e balançava a perna impacientemente enquanto aguardava a doutora adentrar a sala espaçosa e luxuosa.
— Não acredito que conseguiu uma consulta na melhor clínica de Lima só em falar meu sobrenome. — A menor torceu os lábios.
— Eu disse que seu sobrenome era importante. Querendo ou não Hiram e Leroy construíram um império respeitado pelo país. — Shelby sorriu, alisando o braço da filha docemente.
A menor suspirou e virou o rosto quando o barulho da porta sendo aberta fez-se presente.
Uma mulher loira que aparentava possuir a mesma idade de Shelby adentrou a sala trajando calça e blusa social sob o jaleco branco.
Rachel levantou, seguida da mãe e ambas a cumprimentaram simpaticamente, logo sentando-se novamente. A mulher olhou algo escrito no papel em sua mesa e sorriu, olhando para Rachel em seguida.
— Rachel Berry, eu sou a doutora Kristin White e é um prazer tê-la aqui. Muitas garotas da sua idade vêm ao meu consultório e é importante possuir conhecimento e acompanhamento desde cedo. — Sorriu simpática.
— O prazer é meu. — Rachel sorriu timidamente. — Eu iria marcar uma consulta em breve, mas minha mãe quis vir o mais rápido possível.
— E o que fez a senhorita Corcoran desejar vir rapidamente para cá? — Indagou curiosa.
— Bom... — Desviou o olhar para as próprias mãos. — Ela apareceu enquanto eu tomava... você sabe... a pílula. — O rosto moreno ia ganhando uma coloração avermelhada aos poucos.
— Oh, sim. — A doutora sorriu compreensiva. — A pílula do dia seguinte. É muito normal pelo menos uma vez na vida isso acontecer. E sua mãe fez certo em trazê-la logo para cá. O ideal é tomar um anticoncepcional para que não ocorra incidentes.
Shelby assentia enquanto observava a menor ainda sem jeito ao seu lado.
— Há quanto tempo você e Lucy Fabray possuem uma relação sexualmente ativa?
— A senhora sabe que eu namoro a Quinnie? — Rachel franziu as sobrancelhas.
— Creio que todos em Ohio saibam. — A doutora soltou uma risadinha. — Pode me chamar de você. Serei sua médica agora e formalidade demais é desagradável.
— Certo. — A menor assentiu. — Eu ainda não me acostumei totalmente com todos sabendo sobre nossas vidas desse jeito. — Respondeu encabulada.
— Eu imagino como deve ser difícil se acostumar com isso. — Sorriu gentilmente. — Mas eu preciso saber tudo a respeito da sua vida sexual.
— Tudo bem. — Rachel sentiu o rosto corar novamente. — Nós fizemos sexo pela primeira vez há alguns meses. — Brincava com os próprios dedos em sinal de nervosismo.
— Os hormônios realmente afloram nessa idade. — A loira comentou enquanto anotava algo no papel. — E você sabe me dizer se Lucy é fértil? — Indagou seriamente.
— Acho que sim. — A menor torceu o rosto em confusão. — Por que essa pergunta?
— Eu já trabalhei em muitas clínicas de diversos países e conheci diversas garotas intersexuais. Algumas eram férteis e outras estéreis. — Entrelaçou os dedos sobre a mesa de vidro.
— Você está querendo dizer que a Quinn pode ser estéril? — Rachel sentiu um nó na garganta.
— Intersexualidade é uma condição genética causada por um problema na gestação. — A doutora começou a explicar calmamente. — Por se tratar de uma condição, é provável em alguns casos que os órgãos não produzam o necessário para gerar fertilidade. — Finalizou.
— Mas... — Rachel sentiu os olhos marejados. A morena simplesmente sonhava em ter filhos geneticamente parecidos com ambas. — Ela não pode ser estéril.
— E eu não estou dizendo que ela é. — A loira falou docemente. — Na próxima consulta traga-a aqui e faremos um teste que obterá resultados imediatos.
— Eu trarei. — Rachel assentiu freneticamente.
— Certo. — Sorriu. — Você nunca foi em uma ginecologista?
— Não. — A menor maneou novamente a cabeça. — Nunca tive oportunidade em Londres.
— Então vamos examinar você e em seguida darei a receita do anticoncepcional que deverá usar. — Levantou-se após anotar algumas coisas no papel.
Rachel concordou e levantou-se em seguida.
...
Quinn caminhava ao lado da irmã e da latina em direção à sala de reuniões. Conversavam animadamente sobre assuntos aleatórios. Mercedes, que ia logo à frente, adentrou as portas duplas, sendo seguida pelas três.
Frannie paralisou assim que seus olhos percorreram a grande sala. As orbes azuis arregalaram-se ao mesmo momento em que fitaram a mulher inclinada sobre a enorme mesa composta por papéis. Santana não estava diferente, e muito menos Quinn.
— Meu Deus. — A latina murmurou extasiada.
A mulher logo voltou a ficar ereta e virou-se, encarando as três figuras paralisadas na entrada da sala.
O rosto possuía traços indianos delicados, com grandes cabelos pretos lisos. A blusa social branca estava justíssima, assim como a saia preta. Era uma mulher muito bonita e seu decote, ainda que mínimo, causou impacto.
— Essa é Janna Shruti, a nova advogada da relojoaria Anderson. — Mercedes pronunciou-se, fazendo-as despertar do estado de torpor.
— É um prazer conhecer as irmãs Fabray. — A morena aproximou-se, cumprimentando todas elas com um aperto de mão. — E eu vi sua foto no jornal de Ohio. Santana Lopez, não é? — Indagou sorridente fitando a latina.
— Ah...sim! — Santana balançou a cabeça voltando para a realidade. — Santana Lopez, melhor amiga da Q. — Sorriu educada.
— Eu estou muito contente em finalmente conhecê-las. — O tom de voz era repleto de felicidade. — Sempre li sobre essa joalheria e em como é bastante respeitada e importante pelo país.
— Realmente nosso avô construiu isso tudo com muito trabalho. — Frannie sorriu simpática. — Mas e então, quando todos chegarão?
— Estarão aqui em alguns minutos. Eu cheguei adiantada para organizar alguns papéis. — A morena sorriu, voltando para a mesa.
— Então vamos nos preparar. — A Fabray mais velha sorriu para a irmã.
— Você está brincando, não é? — A latina manifestou-se. — Olha como a blusa dela é extremamente apertada. — Sussurrou a última parte.
— Eu não vi nada demais. — Quinn deu de ombros. — A minha cabeça sempre vai pensar na Rachel.
— Pare de ser tão melosa. — Santana revirou os olhos. — E você olhou para o decote dela.
— Foi só por alguns segundos e você também olhou! — A loira rebateu.
— Parem com isso! — Frannie murmurou. — Todas olhamos. Era impossível não olhar, e observar não faz tão mal. Agora vamos nos concentrar na reunião. — Pediu dirigindo-se até a mesa.
Quinn encarou a latina e ambas assentiram, antes de seguirem a mais velha.
...
A loira observava a cidade através da grande janela da sala de reuniões. O local estava vazio e o relógio na parede marcava quase uma da tarde.
A porta fora aberta e Quinn girou na cadeira, observando a mulher de traços indianos adentrar a sala e lhe dirigir um sorriso.
— Olá. — Fechou a porta. — Eu acabei esquecendo alguns papéis aqui e tive de voltar para buscá-los.
— Oh, tudo bem. — Quinn sorriu timidamente, voltando para a paisagem da cidade.
— Achei que estivesse no horário de almoço. — A voz com o leve sotaque falou atrás de si.
— E está, mas estou sem fome e decidi ficar por aqui. — Deu de ombros.
— Entendo. — O silêncio fez-se presente e Quinn podia ouvir o barulho de papéis sendo mexidos.
De repente duas mãos apoiaram-se contra seus ombros e a loira deu um pequeno sobressalto pelo susto.
— Eu achei tão bonitinho o jeito que você corou quando notou que estava encarando o meu decote mais cedo. — As mãos apertaram-lhe os ombros cobertos pela camisa social preta.
— Foi um acidente. — Quinn levantou-se de supetão, livrando-se das mãos da morena e com as bochechas coradas.
— Eu sei que foi um acidente. — Aproximou-se sorrindo. — Você é muito nova e deve possuir muitos hormônios loucos para serem liberados. — Enlaçou os braços no pescoço alvo. — Por que não os libera agora comigo? — Aproximou o rosto. — Janna significa paraíso e eu posso levar você para lá em segundos. — Aumentou o sorriso.
Quinn observava o rosto moreno de nariz pequeno e sua mente logo vagou até Rachel. O nariz avantajado que a loira adorava e o cheiro...o cheiro daquela mulher não era o de Rachel. Os cabelos não eram os de Rachel. Ela não era sua Rachel.
A morena baixinha despediu-se de Shelby e adentrou a grande empresa, logo subindo com o elevador até o andar superior, atraindo olhares de todos. Os saltos chocavam-se no piso e os cabelos castanhos ondulados balançavam harmoniosamente assim como os quadris perfeitamente moldados no vestido preto que cobria-lhe até metade das coxas.
Rachel observou a mulher negra vindo em sua direção e sorriu simpática. Tinham se conhecido quando a menor fora conhecer a empresa junto com a namorada.
— Olá, Mercedes. — Saudou sorrindo. — Onde está a Q?
— Olá, Rachel. — A mulher sorriu. — Não a vi desde que saí da sala de reuniões mais cedo. Acho que ela ainda está lá.
— Obrigada. — Agradeceu sorrindo e despediu-se, andando até o corredor e indo de encontro à última porta do mesmo.
Vozes preencheram seus ouvidos e Rachel reconheceu a de Quinn no mesmo segundo.
— Você é louca! — A loira empurrou a morena para longe de si. — Eu amo a minha namorada e não vou jogar quase quatro anos de namoro fora por uma traição estúpida. Agora saia daqui antes que eu conte o que houve para Frannie e ela dará um jeito de você ser demitida. — Apontou para a porta da sala.
— Ah, vamos lá, Lucy. — A mulher aproximou-se novamente. — Eu sou mais velha, mais experiente, e você... — Passou a língua sobre os lábios. — É muito gostosa para a sua pouca idade.
— Não me interessa nada disso! Saia logo daqui! — Continuou apontando. O rosto pálido estava vermelho de raiva.
— Pare de se fazer de difícil. — A mais velha revirou os olhos. — Sinta isso.
— O que... — A mão que estava apontando para a saída fora bruscamente segurada pela mulher, indo de encontro ao seio esquerdo da mesma.
— Você pode tê-los em sua boca, é só parar de fazer jogo duro. — Apertou a mão alva contra a carne coberta pela blusa.
Quinn abria e fechava a boca várias vezes em choque pelo atrevimento da mulher, quando a porta fora aberta em um estrondo, revelando uma Rachel Berry com o rosto banhado em ódio segurando a bolsa sobre o ombro.
— Você está morta!
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