O Preço da Volta
1 Capítulo 1 - Vida difícil...
Notas iniciais
O par de tênis desgastados faziam seus pés doerem pela corrida cansativa que fazia pelas ruas de Londres enquanto olhava para trás na tentativa de despistar os guardas que passaram no fatídico momento em que estava com a bolsa Prada em mãos de uma garota fútil que olhava distraída a London Eye.
O beco emanava mau cheiro, mas Quinn não viu problema e se esgueirou no pequeno espaço atrás de um container de lixo.
Os guardas tolos passaram correndo enquanto seguravam seus cassetetes e ela suspirou aliviada, enquanto abria um sorriso logo e arrumava a touca na cabeça, seguida de seu grosso cachecol, guardando a bolsa vermelho sangue dentro do casaco cinza velho, porém quente.
O caminho de volta foi tranquilo. A jovem observava as paisagens e as pessoas e não percebeu quando esbarrou em um homem de meia-idade que trajava um terno impecavelmente alinhado ao corpo sob um grosso sobretudo de couro. Segurava uma maleta preta do mesmo material na mão esquerda e um celular na direita.
O senhor analisou a adolescente dos pés à cabeça e esboçou um olhar de desdém, proferindo em seguida palavras mais frias que o clima daquela tarde.
— Olhe por onde anda, garota! Não me faça ter contato com gente da sua classe social. — Falou com escárnio e em seguida pôs o celular de volta à orelha, desculpando-se com a pessoa do outro lado da linha e voltando a andar como se nada tivesse acontecido.
Quinn já havia sofrido diversos tipos de humilhações e as palavras não a afetaram, porém sua língua não se manteve quieta.
— Oras! Então arrume um carro que ocupe sua bunda murcha e não ande em uma rua pública, seu velho nojento. — A voz rouca e firme da loira fez o homem virar-se, mas ela já havia dobrado a rua sem esperar a resposta, que com toda a certeza não seria agradável.
Rachel provavalmente ficaria calada se fosse ela em tal situação. Santana bateria no senhor até ele pedir perdão e Brittany choraria horrores, todavia, Quinn só sentia pena e repulsa por pessoas assim.
Se perguntava todos os dias se seus pais eram pessoas desse tipo. Também perguntava-se se estavam mortos como os pais das amigas ou se estavam sabe se lá Deus onde, como os de Rachel.
Levando em consideração o colar com um brasão de ouro maciço com a letra F no verso que estava envolto em seu pescoço quando foi abandonada, Quinn deduzia que fossem ricos, porém não compreendia o porquê de nunca ter os conhecido e ter sido deixada na porta do orfanato. Talvez fosse por causa da sua diferença, era a única explicação plausível.
Suspirou tristemente com o pensamento, isso com certeza, a loira nunca descobriria. Ao menos ela pensava assim.
...
Foi inevitável não sorrir ao ver a figura pequena coberta por roupas grossas sentada no banco do parque Hampstead Heath.
O cabelo preto e liso na altura dos seios estavam desarrumados, mas não perdiam sua beleza e maciez.
A pele morena era um diferencial que Quinn amava na namorada, levando em consideração as peles sempre pálidas dos londrinos.
A touca marrom fazia contraste com o sobretudo da mesma cor que era duas vezes maior que a morena e as botas que iam até os joelhos estavam desgastadas, em igualdade com os tênis da loira.
Rachel percebeu a presença da namorada assim que Quinn parou atrás do banco e virou-se dando o sorriso que iluminava a loira.
O sorriso amoroso.
O sorriso feliz.
O sorriso de Quinn.
Levantou-se rapidamente e agarrou-se como um filhote de coala ao corpo alvo coberto por roupas.
— Demorou mais do que o normal. Fiquei preocupada. — A voz doce e protetora saiu abafada pelo rosto moreno encostado contra o peito da mais alta.
— Tive que correr praticamente toda a cidade porque os guardas idiotas me viram pegando a bolsa de uma garota mimada que estava distraída. — Respondeu, olhando nos olhos castanhos que agoram encaravam os seus e deu-lhe um selinho delicado.
— Você precisa prestar mais atenção. — A baixinha retirou a touca preta da cabeça da maior e arrumou os fios loiros e curtos que chegavam na nuca da namorada. — Se te pegassem, não iriam ter pena só porque tem dezesseis anos. Aqui ganham os mais ricos e nós... — Apontou de si para a loira. — Não somos nada. — Completou, recolocando o objeto na namodada.
— É por isso que não deixo você ir comigo. Além de ter a mesma idade que eu, é pequena e frágil. — Respondeu enquanto caminhavam para sentar no banco antes ocupado somente pela morena.
— Eu não sou frágil, Quinnie. — Retrucou com um bico nos lábios carnudos. — Sei me defender muito bem. — Cruzou os braços.
— Eu sei que sabe. — Sorriu, dando-lhe alguns selinhos, desmanchando o bico nos lábios fartos. — Mas eu cuido de você também. Cuidamos uma da outra. — Sorriu amorosamente.
— Eu amo você. — Respondeu enquanto descruzava os braços e segurava o rosto alvo entre suas mãos cobertas pelas luvas.
— Eu amo você. — A maior respondeu com os olhos fechados. — Muito. — Completou enquanto beijava-lhe os lábios amorosamente.
As duas trocavam afetos com a mesma itensidade de quando iniciaram o namoro, aos doze anos de idade. Eram novas e imaturas, mas o amor não tem idade, e a prova disso foi a proteção e amor que Quinn sentiu assim que a morena foi transferida para o orfanato em que vivia por conta da super lotação do local onde residia anteriormente, aos dez anos de idade.
Rachel e Quinn tornaram-se amigas no mesmo dia em que a morena chegou. Seria clichê dizer que a alma de ambas se conectaram se não fosse verdade. Uma não vivia sem a outra.
E as memórias ainda eram vivídas, principalmente do dia em que contou para Rachel de sua intersexualidade. Foi vergonhoso, triste e agonizante quando as palavras saíram, pois na cabeça da loira, seria tratada como aberração, como sempre fora pela maioria das freiras do orfanato.
Quinn não tinha pretensões de ter algo com a morena aos dez anos de idade, mal sabia o que era sexo, mas eram amigas e Santana e Brittany também sabiam.
Rachel teve a reação mais adoravelmente fofa que Quinn jamais esperaria...
A baixinha apenas deu de ombros e disse que a loira nunca seria uma aberração e sim especial. E a morena amava coisas especias, então a amaria mais ainda.
Aos doze anos Quinn via a forma como Santana e Brittany olhavam-se e se pegava olhando assim para a morena. Soltava suspiros involuntários quando ouvia a amiga fazer monólogos ou quando sorria largamente.
Quando a jovem de origem latina veio contar-lhe saltitando que pediria Brittany em namoro, Quinn resolveu contar que sentia coisas estranhas por Rachel, e depois de muita conversa, as duas amigas decidiram fazer o pedido juntas.
Quinn suava frio e sentia o corpo tremer. Santana não estava diferente. Ambas vestiam as melhores roupas que receberam em doações e a loira penteou os cabelos que eram sempre revoltos.
O jardim do orfanato era sempre composto pelo barulho das crianças do local, então na noite silenciosa quando todos haviam dormido, as duas garotas levaram Rachel e Brittany até o banco de madeira próximo aos balanços e fizeram um pedido desajeitado, porém amoroso.
A reciprocidade de amor que Quinn recebeu ao ouvir o sim choroso pela emoção de Rachel após o pedido, seguido do primeiro beijo de ambas, fez sua vida valer a pena.
Desde então, as quatro amigas comemoravam no mesmo dia o aniversário de namoro e nunca tiraram os anéis simples de compromisso que Quinn e Santana compraram aos catorze anos com uma boa quantia de dinheiro que furtaram da carteira de uma senhora de classe alta.
A vida era difícil, mas com Rachel e suas amigas, tudo sempre ficaria bem.
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