O Preço da Coroa
9 Entre Tronos e Chão de Terra
Na manhã seguinte à grande vitória, o castelo de Edimburgo parecia respirar um ar novo. Edmund, com uma autoridade que agora lhe caía naturalmente, ordenou que Maria fosse instalada na Ala Leste — a ala das visitas de estado. O quarto era uma explosão de sedas azul-pavão, tapeçarias que não falavam de luxo vazio, mas de cenas de colheita, e uma cama com dossel que parecia uma nuvem.
Quando Edmund bateu à porta e entrou, encontrou Maria tocando as cortinas com dedos hesitantes.
— Isso é demais, Edmund — ela sussurrou, sem se virar. — Eu sinto que estou roubando o lugar de uma princesa.
— Você salvou o rei, Maria. Isso faz de você mais do que qualquer princesa de sangue — ele respondeu, aproximando-se. — Mas hoje, eu não quero ser o rei. Quero que você me leve para casa. Para a sua casa.
O Calor da Lareira Humilde
A viagem até o vilarejo foi feita sem escoltas pesadas. Edmund queria ver a vida que Maria defendera com tanta fúria. A casa dos Benevides, embora simples, tinha sido transformada pelas reformas que Edmund financiara em segredo. Havia janelas novas que barravam o vento frio e móveis de madeira sólida que cheiravam a floresta fresca.
Jorge, o pai de Maria, não se curvou. Quando o rei entrou, o homem de mãos calejadas abriu um sorriso largo e o envolveu em um abraço de urso, apertando os ombros de Edmund como se ele fosse apenas um rapaz da vizinhança que finalmente tomara juízo.
— Entre, menino! — Jorge exclamou. — A sopa está no fogo e a hospitalidade aqui não exige coroas.
Elena, a mãe de Maria, aproximou-se com passos lentos, a mão repousando sobre o ventre visivelmente arredondado. A nova vida que crescia ali era o símbolo da esperança que Edmund trouxera.
Eles comeram juntos, dividindo pão e histórias. Edmund riu como não ria há anos, ouvindo sobre as travessuras de Maria quando criança. Por algumas horas, ele não era o soberano da Escócia; era apenas um convidado querido em uma mesa cheia de amor.
Suspiros na Escuridão
Ao cair da noite, Maria pediu para ficar com a família. Edmund aceitou, voltando para o palácio sob o luar prateado. No conforto da cozinha, Elena observava a filha enquanto limpavam a mesa.
— O modo como ele olha para você, Maria... — Elena disse, com um brilho terno nos olhos. — Não é o olhar de um mestre para uma serva. É o olhar de um homem que encontrou sua bússola. É um amor lindo de se ver.
Maria parou de secar um prato, o peito subindo e descendo com um suspiro pesado.
— Somos apenas amigos, mãe. Aliados. O que você viu... é gratidão. Roma e as leis deste reino jamais aceitariam um rei e uma plebeia. Eu seria a ruína do reinado dele se tentássemos algo mais.
No castelo, a cena se repetia de forma espelhada. Lorde Archibald, o único conselheiro que permanecera leal, servia uma última taça de vinho para Edmund no gabinete.
— O povo comenta, Majestade — disse Archibald, com cautela. — Eles amam a moça Benevides. E notam como os olhos do senhor a procuram em cada sala.
Edmund olhou para o fogo moribundo na lareira, a expressão carregada de uma tristeza profunda.
— Eu daria metade deste reino para que ela fosse nobre, Archibald. Mas os limites impostos pela Igreja e pela tradição são mais fortes que as minhas vontades. Roma aceitou minha reforma política, mas jamais aceitaria Maria como minha rainha. E eu não posso pedir que ela viva nas sombras como uma amante. Ela merece o sol, não o segredo.
Ele suspirou, o peso da coroa parecendo, pela primeira vez, uma sentença de solidão.
— Às vezes, o preço da paz é o próprio coração — concluiu o rei, em um sussurro que se perdeu nas sombras do palácio.
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