O Preço da Coroa
10 O Rei do Sol e do Lodo
O palácio parecia estranhamente vazio para Maria. Seus novos aposentos de luxo, com as sedas e o cheiro de lavanda, pareciam uma gaiola dourada. Ela passara a noite na simplicidade da casa dos pais, e a transição para a opulência a deixava inquieta. Mais do que isso, a ausência de Edmund a incomodava. Ele não estava no gabinete, não estava no salão de banquetes.
— Onde está o Rei? — Maria perguntou a um guarda, sua voz com uma autoridade natural que os soldados já respeitavam.
— No vilarejo baixo, senhora. Ele saiu ao amanhecer, sem escolta pesada.
Maria sentiu o coração acelerar. Sem escolta? Ela cobriu os ombros com uma capa simples e desceu para a cidade.
O Som da Alegria
A mudança no vilarejo era milagrosa. As ruas, antes fossas de lama e desespero, agora estavam limpas, pavimentadas com pedras planas que Edmund financiara. O cheiro de podridão fora substituído pelo cheiro de pão fresco e sabão. Mas o que mais impressionou Maria foi o som. Não havia mais o silêncio da fome, mas o som de risos.
Ao chegar à praça central, Maria parou, paralisada pela cena diante dela.
No centro da praça, cercado por uma dúzia de crianças esfarrapadas mas gordinhas e risonhas, estava Edmund. Ele não usava a túnica de veludo ou a coroa. Estava com uma camisa de linho branco, agora totalmente encharcada e grudada ao corpo, revelando a silhueta de seus ombros. Seus cabelos escuros estavam bagunçados e molhados, grudados na testa.
— Peguei você, Majestade! — gritou um menino pequeno, jogando um balde de água fria direto no peito de Edmund.
Edmund não rugiu com raiva. Ele soltou uma gargalhada alta e genuína, um som que Maria nunca ouvira dele no castelo. Ele se abaixou, pegando outro balde vazio, e começou uma perseguição lúdica, jogando água nas crianças que gritavam de alegria.
— O Rei está tomando banho a balde na rua! — uma mulher exclamou, rindo da janela de uma casa limpa, sem medo de retaliação.
Edmund parou por um momento, ofegante, limpando a água dos olhos. Ele estava radiante. O sorriso em seu rosto não era mecânico ou diplomático; era o sorriso de um homem que encontrara sua alma no meio do povo que ele quase deixara morrer.
O Olhar que Quebra Barreiras
Maria permaneceu nas sombras de um beco, observando-o. O ódio que ela sentira por ele meses atrás parecia uma memória de outra vida. O homem que ela via ali, molhado, rindo e brincando com crianças que ele salvara, era o Rei que ela sempre sonhara para a Escócia. E, mais do que isso, era o homem que ela amava.
Uma onda de melancolia a atingiu ao lembrar das palavras de sua mãe na noite anterior: Roma jamais aceitaria.
Edmund, como se sentisse a presença dela, virou a cabeça e a viu. O riso dele suavizou-se instantaneamente, transformando-se em um sorriso terno e cúmplice. Ele acenou para ela, ignorando o fato de que estava encharcado e ridículo para os padrões da corte.
Maria saiu das sombras e aproximou-se lentamente.
— Majestade — ela disse, tentando manter a voz formal, mas um sorriso escapou de seus lábios — o Parlamento dissolvido ficaria horrorizado se visse como o Rei gasta seu tempo.
Edmund aproximou-se dela, o cheiro de água fresca e sabão de lixívia emanando dele. Ele parou a poucos centímetros dela, a camisa molhada quase tocando o vestido dela.
— O Parlamento dissolvido nunca soube o que é ser feliz, Maria — ele sussurrou, a voz caindo para um tom íntimo que fez o coração dela falhar uma batida. — Olhe para este lugar. Olhe para estas crianças. Este é o meu verdadeiro trono. E eu nunca me senti tão rei como agora, encharcado e sujo de lodo, sabendo que eles estão seguros.
Ele olhou para ela, a água pingando de seus cabelos, e por um segundo, a barreira entre rei e plebeia desapareceu. Havia apenas Edmund e Maria, em uma praça limpa, cercados pela alegria que eles haviam construído juntos.
— Você está lindo assim — Maria deixou escapar, a voz quase inaudível.
Edmund sentiu o impacto das palavras dela. Ele estendeu a mão molhada, como se fosse tocar o rosto dela, mas parou, lembrando-se da promessa silenciosa de não complicar a vida dela.
— Vamos voltar para o palácio — ele disse, com um suspiro que quebrou o momento. — Archibald deve estar tendo um ataque cardíaco.
Eles caminharam juntos, lado a lado, pelas ruas que eles haviam transformado, enquanto as crianças continuavam a brincar sob o sol de outono, sem saber que o Rei e a mulher que o salvara estavam carregando o peso de um amor impossível.
Fale com o autor