O Preço De Uma Mentira
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Quando saíram de São Francisco pouco depois da festa de aniversário e embarcaram para Aspen, a última hora da tarde, levou um bom momento nevando. Flocos brancos cobriam as calçadas, aderia-se a luzes e edifícios, e se acumulavam com forma de chapéu pontiagudo sobre os semáforos. Assim que desembarcaram no Eagle County Regional Airport, as estradas estavam limpas e a viagem, no Land Rover que Jake tinha alugado, foi cômodo e pouco problemático.
Tal e como ele havia predito, Suzannah, recém banhada e com um pijama, dormia profundamente em um saco de dormir. Durante um longo momento, o silêncio só se viu interrompido pelo ruído do limpador de para-brisas.
Gina olhava os flocos de neve sem vê-los na realidade; pensava na festa de aniversário. Tinha posto em Suzannah um vestido de festa e laços combinando, que ela mesma tinha comprado nessa manhã. Quando Jake chegou para pegar a menina só havia dito «Ora, está linda», e isso aliviou seu desgosto.
— Gi vem? — perguntou Suzannah.
— Por que ela te chama de Gi? — espetou ele, com voz desgostada.
— Eu o sugeri — admitiu Gina.
— Não acha «nana» seria mais apropriado?
— Pensei que possivelmente tivesse chamado assim a sua avó... algumas crianças o fazem — explicou ela, apurada.
— Pode, papai? — insistiu Suzannah.
— Quer que ela vá?
A menina assentiu com força.
— Tem algo melhor a fazer? — perguntou Jake, pousando seus olhos azuis no rosto de Gina.
— Não, eu adoraria ir — repôs ela com entusiasmo; a possibilidade de assistir a fez tão feliz que esqueceu sua precaução habitual.
A festa foi um grande êxito. Se Gina tivesse notado a frequência com que Jake olhava para ela, em vez de Suzannah, teria se alarmado; mas estava tão ensimesmada olhando à menina, que o único momento difícil foi quando uma das empregadas a chamou «senhora Arkeman» e percebeu o olhar gelado de Jake.
— Você gostou da festa? — perguntou ele irônico, como se tivesse adivinhado seus pensamentos.
— Oh, sim. Sempre gostei de festas infantis — respondeu ela com rapidez, tentando não mostrar sua emoção. — Ver suas carinhas e suas reações são fascinantes.
— Acreditei que possivelmente, ao ter que estar atenta a tanta crianças, teria se arrependido de ir.
— Oh, não, eu adoro.
— Ainda acho que deveria ter usado uniforme — falou ele mordaz. — As pessoas acharam que era a mãe de Suzannah
Gina ficou calada.
— Já estiveste antes em The Little Nell em Aspen? — perguntou ele, dando uma súbita mudança à conversa.
— Não — mentiu ela, inspirando profundamente.
— A paisagem é preciosa, com bosques, montanhas e mananciais de água quente. É muito popular entre os turistas que gostam de esquiar e tirar alguns dias para descansar; por isso decidi construir o centro termal — com um ligeiro tom depreciativo continuou — Permite que os entediados cidadãos, ou ao menos os acomodados, relaxem e se deixem mimar em um ambiente pitoresco.
— Soa um pouco... depreciativo.
— O lago me encanta, mas o ambiente do clube sempre me parece abafado, para não dizer claustrofóbico. Faz poucos meses puseram a venda uma velha casa que eu gostava e decidi comprá-la. Assim, quando tiver acabado com as reformas, terei um lugar realmente meu onde poderei ir quando necessitar escapar de São Francisco.
Gina relaxou e começou a respirar com regularidade, mas a calma só durou um instante.
— Meu meio-irmão também gostava de escapar-se da cidade, mas só ficava em um hotel ao norte do lago. Estava ali de férias quando conheceu a mulher que se tornou a sua esposa. Acredito que tiveram um encontro no vestíbulo do hotel. Foi amor à primeira vista, ao menos da parte dele. Estava louco por ela…
Gina, dolorida, perguntou-se por que razão Jake lhe contava isso. Parecia que estava atormentando-a de propósito.
— Embora suponha que não tinha nem ideia de como era ela na realidade... — acrescentou Jake com amargura e aborrecimento. — O certo é que a mãe de Suzannah não tinha nem escrúpulos nem moralidade.
Gina estremeceu. Estava claro que, apesar do passar do tempo, Jake ainda odiava a sua cunhada. Ele pôs um ponto final à conversa ligando o rádio; o som de Ponte Sobre Águas Turbulentas encheu o carro.
Gina, vazia e emocionalmente esgotada, apoiou a cabeça no assento e fechou os olhos. Devia ter adormecido; quando abriu as pálpebras entravam no luxuoso centro termal que viu pela primeira vez quatro anos atrás.
Naquela época havia uma tormenta de neve; agora vislumbrou uma cena de serena beleza. A neve cobria tudo com um suave manto de brancura e alguns flocos revoavam brandamente em sua queda para o chão, mas o céu estava quase limpo. Da zona central partiam vários caminhos bem iluminados e ante a porta principal havia uma árvore de Natal enorme, enfeitada com bolas brilhantes.
Gina ficou surpresa quando Jake, em vez de dirigir-se à entrada principal, tomou um caminho para a esquerda e parasse ante um chalé de madeira de um só andar, ligeiramente afastado do resto.
— Alguma coisa errada? — perguntou ele secamente, ao ver a surpresa em seu rosto.
— Não... Imaginava que nos alojaríamos em seu apartamento no edifício principal.
— Como sabe que tenho um apartamento no edifício principal? — perguntou ele, sua voz soou tranquila, mas letal.
— Bom, não, não é que saiba claro... Mas imaginei... — gaguejou ela, e calou.
— O certo é que acertou — admitiu. — Disponho de uma suíte, mas só tem dois dormitórios; teria tido que compartilhar um com Suzannah. Ou comigo — Gina ruborizou-se profundamente e ele acrescentou com ironia. — Eu não gostei da primeira opção e acreditei que você não gostaria da segunda.
Jake abriu a porta e saiu do carro. Ela, incômoda e alarmada por seu estúpido engano, seguiu-o.
Suzannah, firmemente segura ao assento que compartilhava com Cocó, seguia dormindo. Jake levantou ambas com cuidado e as levou a chalé, a um pequeno quarto com mobiliário infantil. Depois, enquanto Gina a deitava, saiu para pegar a bagagem.
Gina acendeu o intercomunicador, baixou a luz do abajur ao mínimo e, depois de beijar a avermelhada bochecha da menina, saiu à bonita sala de estar. No centro da habitação, situado a um nível mais baixo, havia um sofá coberto com suaves almofadas, frente à lareira já acesa. Em um lado havia uma moderna cozinha francesa, com uma geladeira bem abastecida.
Gina tirou o casaco e o pendurou atrás de uma das portas corridas do vestíbulo, ainda desconcertada. Tinha esperado ficar no hotel, e a ideia de estar ali a sós com Jake lhe parecia maravilhosa e inquietante ao mesmo tempo; para não dizer perigosa. Desde sua volta da Nigéria, ele estava muito estranho, sempre parecia a ponto de explodir.
Recordou suas palavras «...se for impossível para mim não te tocar...» e tremeu. Só tinha que beijá-la ou tocá-la uma vez, e estaria perdida...
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