O Preço De Uma Mentira
8 Capítulo 8
Notas iniciais
A primeira vez que o viu, embora tivesse uma certa relação com outro homem, apaixonou-se perdidamente por ele. Jake satisfez seus desejos mais profundos e primários, e quando recordou a intensidade de sua resposta quando fizeram amor, sua testa se cobriu de suor e lhe umedeceram as palmas das mãos. A intensa atração tinha sido mútua. Havia-a possuído com urgência apaixonada, mas sem deixar de ser amável, carinhoso e profundamente terno.
Entretanto, parecia que, com o passar dos anos Jake tinha desenvolvido uma veia de crueldade e não duvidou nem por um momento que a destroçaria em pedaços, emocionalmente falando, se lhe desse a mínima oportunidade.
A porta se abriu e Jake entrou carregado de malas, com flocos de neve derretendo-se em seu cabelo claro. Deixou a mala dela no dormitório mais próximo ao da menina e depois foi guardar suas coisas e as de Suzannah.
A viagem tinha sido longa e Gina, supondo que ele gostaria de beber algo, pôs a água para ferver. Estava enchendo a cafeteira quando ouviu seus passos. Levantou a vista e se olharam nos olhos em silêncio.
— Quer que eu prepare um pouco de janta? — perguntou nervosa.
— Não espero que cuide de mim, além de cuidar de Suzannah — repôs ele com brutalidade.
— Não é nenhum incômodo — ruborizou-se ela.
— Nesse caso, obrigado.
Ela preparou uns sanduíches de presunto e queijo; ele se sentou no sofá com os cotovelos apoiados nos joelhos, contemplando as chamas. Tinha um olhar sombrio e concentrado que não agourava nada bem. Gina colocou a cafeteira e os sanduíches em uma bandeja e os levou a mesinha, depois deu a volta, batendo-se em retirada.
— Aonde vai? — exigiu ele.
— Estou um pouco cansada — repôs timidamente. — Pensava ir para a cama.
— Sente-se e toma um café e um sanduíche.
— Não tenho fome, e o café me tirará o sono.
— Então fique e converse comigo — ordenou ele. Gina mordeu o lábio e se sentou na outra ponta do sofá.
— Do que quer falar?
— De você. Eu gostaria de saber por que diz que é a senhorita Kurt.
— Porque é meu nome — respondeu Gina, quase sem fôlego.
— Senhorita... por que, se já foi casada?
— O que te faz pensar que já fui casada? — perguntou ela com voz estridente, pálida como um lençol.
— Recorda o dia que te levei para pegar sua bagagem? Enquanto fazia a mala, a senhora Amesbury me mostrou sua foto com as gêmeas, de quando começou a trabalhar para eles. Está sentada com uma menina em cada joelho... — explicou. Ela o olhou fixamente, os olhos escuros de medo. — Não se vê muito o rosto, usa óculos e tem a cabeça encurvada, mas as mãos estão bem enfocadas e se vê claramente uma aliança.
Ela a tinha tirado para sempre pouco tempo depois.
— Me conte algo de seu casamento — insistiu ele.
— Não há muito que contar — começou ela, com voz quebradiça como o gelo. — Os dois éramos jovens e não durou muito.
— Onde está seu marido agora?
Gina, a ponto de mentir e dizer que a tinha abandonado, titubeou. E se Karen Amesbury lhe tinha contado o pouco que sabia dela?
— Meu marido morreu — admitiu com esforço.
— Que necessidade tem uma respeitável viúva de apresentar-se como senhorita Kurt?
— Decidi esquecer o passado e recuperar meu nome de solteira. Agora, se me perdoar, estou muito cansada — antes que pudesse detê-la, ficou em pé e partiu apressada.
Embora escapar assim não fosse o mais adequado, não pôde evitá-lo. Estava emocionalmente exausta, não aguentava mais.
Depois de tanta intensidade emocional, a Gina foi impossível conciliar o sono e ficou virando na cama até que a alvorada iluminou o céu e se ouviu o primeiro canto dos pássaros. Então, exausta, dormiu profundamente durante uma hora; despertou com um sol brilhante e o agradável aroma a café recém feito.
Tomou banho, colocou uma calça de lã justa e um suéter de cor creme e foi à área de estar.
Jake, com uma toalha atada aos quadris e uma mecha de cabelo claro sobre a testa, preparava o café da manhã enquanto Suzannah compartilhava cereais e fruta com a galinha Cocó.
Deu-lhe uma olhada, advertindo seu ar de cansaço e as escuras olheiras que rodeavam seus olhos castanhos.
— Bom dia — saudou-a com voz relaxada e quase amistosa, parecia que o mau humor do dia anterior havia se dissipado. — Dormiu bem?
— Muito bem, obrigado — mentiu ela. — Sinto não ter despertado antes.
— Não é problema — rechaçou-o. — Estamos de férias.
Gina pensou que, se falavam corretamente, ela não o estava. Deu a Suzannah um beijo de bom dia e, ao levantar a cabeça, captou o satírico olhar de Jake e se ruborizou. Entretanto, ele não fez nenhum comentário.
— Havia te dito que há uma piscina especial para principiantes? — perguntou-lhe. Ela moveu a cabeça negativamente. — Pedi a nosso melhor monitor que esteja disponível para te dar a primeira aula depois do café da manhã.
— Não tenho traje de banho — desculpou-se Gina, compreendendo imediatamente que isso não serviria.
— Poderá escolher um — repôs ele com um tom que não admitia réplica. — Não se preocupe — acrescentou, cortante, — possivelmente tenha habilidade natural para aprender.
Assim que acabaram de tomar o café da manhã Jake levou Gina ao complexo termal, que contava com várias piscinas azuis, situadas em vários níveis, assim como com sauna e jacuzzi.
Lá fora brilhava o sol e fazia um dia precioso. Uma camada de gelo bordeava o lago azul, as árvores pareciam estar recobertas com uma capa açucarada, e a neve cobria as colinas por completo.
Dentro, a salvo dos rigores invernais, o ar era quente e uma praia de areia branca, com palmeiras e arbustos em flor, criava a ilusão de uma ilha tropical. Todo o entorno dava uma impressão de sensualidade refinada.
Jake apresentou Gina ao bonito monitor que os esperava, deu uma olhada aos trajes de banho que havia em exposição e, enquanto ela escolhia, foi levar Suzannah e Cocó ao centro de atividades. Quando retornou, ela tinha posto um modesto traje de banho de uma peça, estampado com laranjas e limões sobre fundo branco, e um roupão combinando.
Ela tinha a esperança de que Jake se unisse aos nadadores experimentados em alguma outra das piscinas, mas não foi assim.
— Pode ir na frente. Reunirei com você assim que me trocar — ordenou ele.
O loiro e bonito monitor, Bryce Martinson, saltou dentro da piscina e esperou enquanto ela descia lentamente pelos degraus. Gina sempre tinha desfrutado da natação, e se animou ao sentir a água sedosa e fresca a seu redor. Bryce começou a lhe explicar as diferentes braçadas. Ela o escutava pela metade, quando chegou Jake. Havia colocado um traje de banho preto, tinha o cabelo um pouco alvoroçado e estava muito atraente. Consciente de que a olhava atentamente, tentou comportar-se como uma principiante e seguir as instruções de Bryce: flutuar de costas e depois tentar dar umas braçadas.
— Um progresso excelente, senhorita Kurt. É você uma nadadora nata — disse Bryce com entusiasmo quando, depois de instruí-la pacientemente durante um momento, «conseguiu» nadar um pouco.
— Me alegro de ouvi-lo — interveio secamente Jake, que acabava de nadar algumas voltas. — Acredito que já esta bem por hoje. Obrigado, Bryce — acrescentou, depois de dar uma olhada ao relógio. Gina agradeceu e o professor se afastou da piscina.
— Vou vestir-me e irei ver Suzannah, quero me assegurar de que está passando bem — informou-a Jake.
— Não deveria ser eu a fazê-lo? É para isso que me paga.
— No momento te pago para que aprenda a nadar. Pode ficar na parte pouco profunda e tentar nadar um par de voltas mais, voltarei em seguida.
Apesar de que nadar tinha evocado muitas lembranças dolorosas, também a fez recordar quanto gostava desse esporte. Estava desejando nadar crawl, a velocidade de corrida, mas teve que conformar-se fazendo voltas lentamente.
De repente, ouviu um grito e viu um menino esquadrinhando a água na zona de saltos. Estava claro que algo ia mal. A monitora loira já não estava ali e não havia ninguém perto. Gina completou a volta a toda velocidade, saiu da piscina e correu para o menino.
— O que acontece?
— É meu irmão... — choramingou. — Ela não lhe deixou pular do trampolim mais alto, assim quando ela partiu, voltou às escondidas. Acredito que se machucou, e eu não nado muito bem... — explicou atropeladamente.
Gina inspirou profundamente e se atirou à água de cabeça. Um menino de uns nove ou dez anos subia à superfície nesse momento, tossindo e engasgando-se.
— Deite-se de costas — ordenou-lhe, segurando-o. O menino obedeceu; Gina lhe pôs uma mão sob o queixo e o rebocou até a beirada. — Está bem? — perguntou depois de ajudá-lo a sair.
— Só sem fôlego — murmurou. — Mas minha mãe vai me repreender quando souber.
— Não acha que merece uma reprimenda? Fiz algo muito estúpido. Poderia ter se machucado muito.
— Suponho que sim — admitiu arrependido.
— Mas não creio que tua mãe fique chateada por muito tempo. Ficará feliz de que não te tenha acontecido nada — consolou Gina, ao ver sua tristeza. E nesse momento apareceram dois meninos um pouco mais velhos.
— Olá, Vincy, está tudo bem? — perguntou um deles.
— Quer ir ao tobogã de água? — sugeriu o outro.
Gina, compreendeu que já não fazia nenhuma falta e se dirigiu para a cabine onde havia deixado sua roupa. A princípio, não viu Jake. Estava suspirando de alívio quando o descobriu no terraço, olhando-a fixamente.
Quanto tempo ele estaria ali? Se havia visto o ocorrido, saberia que havia mentido.
Ele desceu as escadas e se aproximou a grandes passadas. Ela o esperava tensa, temendo o golpe final.
— A princípio não te via — disse ele com amabilidade. — Pensei que havia ido trocar de roupa.
— Ia agora mesmo — repôs ela, abaixando a cabeça para que não lhe visse o rosto. — Suzannah está bem?
— Contente como um passarinho. Perguntei-lhe se queria vir para comer com nós, mas prefere ficar e comer com as outras crianças.
— Ah... — ainda que em parte quisesse estar a sós com Jake, sabia muito bem o perigo que podia ser.
— Já que estamos a sós — disse Jake suavemente, — sugiro que subamos de carro até o topo e desfrutemos da paisagem.
— Quer ir?
— Sim, claro. Há muitas casas lá em cima, assim que a estrada está acostumada estar limpa. Já verá que a vista do primeiro mirante, embora não está muito acima, é impressionante. Depois podemos parar no Sky Windows e comer algo — disse Jake. Gina, com o coração rapidamente e oscilando entre a alegria e o alarme, não respondeu. — Irei pegar o carro e te esperarei lá fora — concluiu ele.
Gina tomou banho e se vestiu o mais rapidamente possível, secou o cabelo com o secador, enrolou sua sedosa cabeleira castanha encaracolada em um coque e correu para o carro.
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