O Preço De Uma Mentira
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Ela desejava responder que partiria, mas a idéia de estar longe de lá fez que lhe encolhesse o coração.
— Iria embora?
De algum jeito devia ter adivinhado que nunca iria voluntariamente, pensou ela agitada, e estava lhe provocando de propósito.
— Não acredito que isso fosse bom para Suzannah. Acaba de acostumar-se a mim, e uma menina de sua idade necessita de certa estabilidade — apontou.
Como se a menção de Suzannah lhe houvesse devolvido a prudência, Jake deixou cair às mãos e deu um passo para trás, com a expressão controlada e fria. Gina se dispunha a correr para o seu quarto quando voltou a detê-la.
— Não desapareça — ordenou. — Quero falar com você. Já jantou?
— Não.
— Então podemos jantar juntos e falar enquanto comemos.
— Normalmente janto na cozinha, com a senhora Morgan. Pareceria estranho que eu...
— Ela não está livre às sextas-feiras de noite?
Era certo. Essa manhã tinha comentado sua intenção de passar a noite com sua filha casada.
— Em qualquer caso, jantar na cozinha vai ser melhor, me juntarei ali com você depois de tomar banho e trocar de roupa — disse Jake com ironia, sem desviar os olhos do expressivo rosto de Gina.
Tinha recuperado sua habitual atitude fria e disciplinada, e ela se perguntou o que tinha provocado esse ataque de ira, essa necessidade de dominá-la e ridicularizá-la. Não podia ser só por ter utilizado seu nome em um conto de fadas. Sentiu um calafrio. Ele nunca tinha tentado dissimular o fato de que não lhe agradava, mas fazia um momento quase pareceu odiá-la. E apesar disso, a tinha beijado como um homem arrebatado pela paixão.
Na cozinha havia comida preparada, e enquanto esquentava o guisado de frango no micro-ondas e punha a mesa, assaltou-a outra grande dúvida: Do que queria falar Jake? O mês de experiência quase tinha terminado, tinha decidido livrar-se dela? Não, não podia ser isso. Suzannah a tinha aceitado, ele sabia e, além disso, necessitava de uma babá. Então, o que? Tinha descoberto sua verdadeira identidade? Não, nesse caso a teria despedido imediatamente.
Recordava com toda claridade o olhar de ódio profundo que lhe dirigiu naquela noite, quando, com os lábios apertados, disse-lhe sem levantar a voz, mas com fúria devastadora «Quero que saia de minha casa na primeira hora da manhã. Não quero voltar a vê-la nunca mais». Tremendo, tentou apartar a dolorosa lembrança. Isso ocorreu muito tempo atrás, e pertencia a um passado que procurava esquecer.
O ruído da maçaneta a sobressaltou e o coração deu um salto ao vê-lo. Havia colocado uma camisa pólo de cor verde oliva e uma calça esportiva; estava muito atraente, mas, ao mesmo tempo, impunha com sua presença. Sua forma de mover-se, arrogante e provida de uma graça quase felina, combinada com seus impressionantes olhos, sempre a tinham feito pensar em uma pantera negra. Sentiu que a boca ficava seca.
— Por que só uma taça? — perguntou ele, tirando uma garrafa de vinho branco da geladeira, enquanto ela tirava o guisado do forno.
— Não estou acostumado a beber — repôs ela.
— Já sei que isso é o que disse, mas, desta vez, não lhe terei isso em conta — disse ele com os olhos nublados de ira, ou impaciência. Aproximou-se de outra taça e serviu vinho nas duas. Ela pôs uma tigela de arroz branco e uma salada sobre a mesa e tomou assento frente a ele. Com toda autoridade, ele encheu os dois pratos.
Durante um momento comeram sem falar até que ela decidiu quebrar o silêncio para recuperar um ambiente de normalidade.
— Fez boa viagem?
— Soa como se fosse uma esposa amorosa — balbuciou ele, com uma careta.
— Sinto muito. Só tentava ser agradável.
— Enquanto que eu faço justamente o contrário? — apontou ele, cínico. E dando um desses giros repentinos que pareciam destinados a incomodá-la, acrescentou. — O dia que te contratei mencionei que Suzannah era filha de meu meio-irmão.
Embora fosse mais uma afirmação que uma pergunta, exigia uma resposta, assim que ela assentiu com a cabeça.
— Não me perguntou onde ele está — disse. Viu-a empalidecer até adotar um tom cinzento. — Pergunto-me por que.
— Não me pareceu que fosse de minha conta — repôs ela, escutando o eco de sua própria voz ricocheteando em sua cabeça uma e outra vez.
— Direi isso de qualquer modo. Hoje faz dois anos que morreu em um acidente. Por isso estou de tão mau humor... — explicou. Ela o olhou paralisada, incapaz de falar, como se estivesse mortalmente ferida. — Espero que possa me perdoar.
— Sim, é obvio. Sinto muito — conseguiu murmurar Gina depois do que pareceu uma eternidade.
— Suponho que não tive nenhum problema com Suzannah enquanto estive fora — comentou ele, voltando a encher as taças.
— Não, nenhum. Sentiu sua falta, certamente, e perguntou por você todos os dias.
— Chama-me papai?
— Sim
— Não a desanimei porque espero poder adotá-la — sem trocar de tom de voz, continuou. — Fez algum plano especial para amanhã?
— Plano especial?
— É o aniversário de Suzannah.
Gina engoliu a saliva, tentando reagir ao golpe.
— Eu…, não sabia. Ninguém o mencionou… — balbuciou e ao ver que o rosto de Jake se endurecia com ira, acrescentou — Era disso do que queria me falar?
— Entre outras coisas. Mas primeiro falaremos disso.
— Amanhã, quando a levar à creche, falarei com as mães de seus amigos e tentarei organizar uma festa pela tarde, com bolo e... — sugeriu.
— Não será necessário. Antes de sair de viagem, organizei uma festa em um McDonalds, com bolo, mágico e todo o resto. Convidei mais ou menos uma dúzia de amigos de Suzannah.
Gina se sentiu como se a tivesse esbofeteado, e voltou a engolir a saliva.
— Sinto que não me mencionasse isso antes... Nem sequer lhe comprei um presente de aniversário.
— Não há nenhuma necessidade de que lhe compre nada.
— Eu gostaria de fazê-lo.
— Muito bem. Se quiser escolher algo, tome a manhã livre. Estarei em casa todo o dia.
— Obrigado — respondeu ela com secura. Depois, como se não tivesse nenhuma importância, perguntou. — Você a levará à festa?
— Sim. Tinha pensado em levá-la. Por quê? Quer tomar todo o dia livre?
— Não, era só uma pergunta.
Gina se levantou e, escondendo sua decepção, recolheu os pratos. Quando ele recuou com um gesto o bolo de chocolate, levou a cafeteira à mesa.
— Tem algum plano para as férias? — perguntou ele enquanto ela enchia as taças.
— Não.
— Bem. Pensava passar o Natal longe daqui.
— Então, quer que fique aqui com Suzannah?
— Não, quero que as duas venham comigo. Sou dono de um clube de campo e de um centro termal em The Little Nell, Aspen.
Gina ficou gelada.
— Já estive alguma vez em um centro termal?
— Não... Não sei nada desse tipo de lugares.
— Então já é hora de que conheça um. Sabe nadar?
— Não — mentiu ela, invadida pelo pânico.
— Então será a oportunidade perfeita para que aprenda.
A ideia de voltar para The Little Nell, onde tinha sido tão feliz, encheu-a de angústia.
— Não parece que você goste da ideia — comentou Jake, notando sua reação.
— Paga-me para que cuide de Suzannah, não para que aprenda a nadar — protestou ela, dizendo a primeira coisa que lhe veio à cabeça.
— No ano que vem Suzannah saberá nadar; é melhor que tenha experiência para poder acompanhá-la.
Gina se deu conta de que falava sobre o ano seguinte como se contasse com ela, e sentiu uma onda de satisfação.
— Mas alguém terá que cuidá-la enquanto eu...
— Alguém o fará. É um centro familiar. Além da equipe de profissionais, há enfermeiras e babás. No ano passado inauguramos uma creche e um centro de atividades infantis. Assim as crianças se entretêm, as babás habituais podem sair de férias — olhou-a zombador — e os pais desfrutam. O sistema foi minha ideia e eu gostaria de comprovar pessoalmente como funciona — com tom sarcástico, acrescentou: — Quer dizer, se não tiver nenhuma objeção.
— Não, não tenho nenhuma objeção — aceitou ela. O que menos desejava no mundo era acompanhar Jake a The Little Nell, mas trabalhava para ele e não podia negar-se.
— Bem. Então está decidido. Pode ficar preparada amanhã depois da festa? Na idade de Suzannah viajar de carro e avião é muito aborrecido, mas se o fizermos de noite dormirá grande parte da viagem.
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