O Preço De Uma Mentira
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Gina se esticou e descobriu que era de dia e estava sozinha na cama. Sentou-se e olhou pela janela; tinha deixado de nevar e dava a impressão de que faria um bom dia. Asseou-se, vestiu-se e se dirigiu à cozinha, onde a recebeu o agradável aroma de café recém feito. Jake estava vestido e preparava panquecas.
— Como pode ver, o temporal terminou, a tira-neve já passou, assim podemos voltar depois que comermos — disse-lhe, voltando-se para ela.
— Sim, eu gostaria de sair o quanto antes se por acaso Suzannah...
— Suzannah estará perfeitamente bem — interrompeu. — Se preocupa com ela como se fosse sua mãe, em vez de sua babá — acrescentou com tom seco.
De novo, seu humor tinha mudado.
— Sou sua babá, paga-me para que eu me preocupe.
— Pago-lhe para que dê satisfação, profissionalmente falando. Embora ontem à noite teve bastante êxito em outras áreas — acrescentou com ironia, e observou como suas bochechas se avermelhavam.
Gina mordeu a língua para não responder. Não serviria de nada começar uma briga. Com seu humor azedo e seu controle, ele ganhava todas.
— O café da manhã está pronto quando quiser — disse ele, servindo as panquecas. Com um olhar de recriminação, sentou-se silenciosa à mesa.
O cabelo castanho com os longos cachos rodeavam lhe os ombros e seu rosto ovalado seguia ligeiramente ruborizado. Jake, observando-a jogar mel sobre as panquecas, pensou surpreso, que estava muito bela. Seus amendoados olhos castanhos estavam emoldurados por longos cílios. Tinha a pele perfeita, quase translúcida, como uma aquarela, mas sua boca e queixo insinuavam caráter e força. Ela levantou a vista e encontrando-se com seu olhar, ruborizou-se mais ainda.
— Está muito diferente com o cabelo solto — comentou ele. —Deixe-o sempre assim, prefiro-o.
Ela preferia o ar de formalidade que lhe dava o coque, mas, para não discutir, se calou.
Tomaram o café da manhã em silêncio, Gina limpou a mesa e saíram ao branco resplendor do exterior. Jake fechou a porta e a ela escapou um suspiro. Tinham passado muitas coisas desde que a abriu, coisas que não podia esquecer nem desfazer, que tinham alterado sua relação irremediavelmente. Ele a tinha utilizado como uma espécie de vacina, para imunizar-se contra o que havia descrito como uma febre...
Subiu no carro e lhe ocorreu uma idéia ainda pior. Teria posto em perigo seu trabalho ao entregar-se a ele? Se Jake, arrependido do o que acontecera, decidia que sua presença o envergonhava podia optar por despedi-la. Ele tinha as rédeas...
A neve, quebradiça e fofa, afundava-se sob as rodas do carro, que Jake conduzia cuidadosamente para a estrada principal. Tal e como ele havia dito, a estrada estava limpa. Parecia que, para compensar a tormenta do dia anterior, os elementos se puseram de acordo para orquestrar uma manhã gloriosa, do sol resplandecente e céu azul profundo.
Chegaram ao chalé e Suzannah saiu correndo para recebê-los; abraçou-se aos joelhos de Gina e levantou o rosto para receber um beijo. Ela se agachou, para abraçá-la e beijá-la.
— Olá, boneca passou bem à noite? — Jake a elevou pelo ar e, com um rugido, simulou lhe mordiscar a orelha, a menina gritou encantada. Quando a deixou no chão, correu para uma agradável mulher de meia idade e, agarrando-a pela mão, levou-a até Gina.
— Eu sou Gladys.
Por cima da cabeça da menina, as duas mulheres se sorriram.
— Foi tudo bem? — perguntou Jake.
— Perfeitamente — respondeu Gladys. — Quando a deitei me perguntou onde vocês estavam, mas se tranquilizou quando lhe assegurei que voltariam esta manhã...
Gina recordou sua suspeita de que Jake tivesse planejado essa noite juntos e lhe lançou uma rápida olhada, mas estava tranquilo, sem nenhum traço de remorso ou culpa.
— Disse-me que Gina sempre lhe conta a história de um sapo — continuou Gladys. — Mas como eu não sabia, conformou-se com as aventuras de um dragão chamado Donald...
— Vamo? — saltou Suzannah, lhe puxando pela saia.
— Está impaciente para reunir-se com as outras crianças — explicou Gladys. — Mas lhe disse que tínhamos que esperar até que voltassem.
— Posso, papai?
— Sim, podem ir — respondeu ele.
— Vem? — Suzannah agarrou a mão de Gina e a olhou.
— Sim...
— Não, hoje não — interrompeu Jake com firmeza. — Gina tem coisas a fazer — voltou-se para Gladys e perguntou. — Não há escassez de pessoal, verdade?
— Oh, não, há pessoal de sobra e temos o dia organizado — exclamou Gladys com entusiasmo — Todos adoram a aula de pintura, e preparamos as camas elásticas. Depois de comer, montaremos no trem de brinquedo e visitaremos a brinquedolândia, depois lancharemos com Papai Noel, e com seus duendes e suas renas...
— Tem sim papai — acrescentou Suzannah contente, enquanto colocavam os casacos.
— Vocês a colocaram para dormir esta noite? — inquiriu Gladys.
— Sim, claro — resmungou Gina, envergonhada por Gladys lhes tratava como se fossem um casal, em lugar de um chefe e sua empregada. Perguntou-se por que Jake não havia dito nada que corrigisse essa impressão.
— Então a trarei de volta às seis horas.
— Não é preciso — disse Jake. — Eu mesmo irei pegá-la.
— Então já vamos, anjo — disse Gladys. Depois de recolher a galinha Cocó, partiram de mãos dadas para o edifício central.
— Parece que sua creche é um grande êxito — comentou Gina, intranquila por ficar de novo a sós com Jake e não poder retomar a seu papel de babá.
— Como te disse, enquanto as crianças aprendem e se entretêm, os pais e as babás habituais podem desfrutar por sua conta... E o que gostaria agora mesmo é tomar uma ducha quente. O que você acha?
— Parece-me uma grande idéia.
— Depois, como estamos de férias, pensei que poderíamos sair.
— Sair? — repetiu ela.
— Suponho que não pensará em ficar em casa com um dia tão precioso.
— Não, mas... sou a babá de Suzannah, uma assalariada, e... — Gina calou.
— Depois de ontem à noite, não te parece um pouco tarde para preocupar-se por isso?
— Já sei que está arrependido, e estou de acordo com você em que não devia ter ocorrido, mas estou disposta a esquecer tudo se você... — Gina calou, sem saber como seguir.
— Pode esquecê-lo?
— Sim, claro que posso — mentiu dissimulada. — Acredito que o melhor séria que voltássemos a ser simplesmente...
— Patrão e empregada? — sugeriu ele, ao vê-la hesitar.
— Sim.
— Quer continuar trabalhando para mim? — Seus verdes olhos brilhavam zombadores. — Não tem planos de partir ?
Ela negou com a cabeça, incapaz de pronunciar uma palavra.
— Bom, se quer continuar trabalhando para mim, tem que recordar que te pago para que faça o que eu quiser. Dentro do razoável — acrescentou com ironia. — Quer dizer, se requisito sua presença como, digamos, acompanhante, espero consegui-la...
«Maldito seja!», pensou Gina, furiosa. Se não fosse por Suzannah, não suportaria sua arrogância um segundo mais.
— Está claro?
— Muito claro — respondeu secamente. Ele assentiu com a cabeça.
— Como não vamos fazer exercício, sugiro que se agasalhe bem... — o tom de sua voz era mais amável. — E deixe o cabelo solto — sorriu, como se soubesse exatamente o que ela pensava nesse momento e acrescentou. — Por favor.
Gina, com a cabeça confusa, tomou banho e trocou de roupa. Seguia convencida de que tivesse sido mais seguro voltar atrás na relação, mas não podia evitar sentir-se excitada. Uma excitação cheia de insegurança, apreensão e certa confusão e aborrecimento.
Se só desejava companhia, tinha que haver mulheres disponíveis em um complexo termal tão grande. Mulheres belas e sofisticadas que estariam encantadas de receber os olhares de um homem tão atraente como Jake. Por que teria insistido em que ela o acompanhasse, se nem sequer gostava dela? Fosse qual fosse o motivo, tinha deixado bem claro que estava no comando, e não tinha mais remédio que dançar ao som que ele tocasse.
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