O Preço do Pecado
24 Terra Estrangeira
O jato executivo pousou na pista particular de uma fazenda no interior do Brasil sob a luz forte do meio-dia. Quando as portas se abriram, o ar quente e tropical atingiu o rosto de Maite, um contraste violento com o clima gélido de Chicago que ela havia deixado para trás. Carregando sua mala e o peso de um coração completamente despedaçado, ela desceu as escadas de alumínio.
À beira da pista, uma caminhonete de luxo blindada a aguardava. Ao lado do veículo, um homem de meia-idade, semblante forte e postura imponente, vestindo trajes finos de linho, deu um passo à frente com um sorriso acolhedor. Era Otávio Portela, o patriarca da família aliada dos Laurentis na América do Sul, um homem influente que devia a própria vida e os negócios de exportação à proteção que o clã de Chicago lhe estendera no passado.
— Seja muito bem-vinda, Maite — Otávio disse, a voz mansa e firme, usando o novo nome dela com naturalidade. Ele estendeu a mão, pegando a mala dela com cavalheirismo. — O Heitor e o Romeu me deram instruções claras. Nesta casa, você está segura. Você agora é parte da nossa família.
— Obrigada, senhor Portela — Maite respondeu, a voz distante, o olhar verde ainda opaco pela dor e pelo cansaço de uma noite inteira de choro.
A viagem até a imensa propriedade dos Portela foi feita em silêncio. A fazenda era uma fortaleza disfarçada de paraíso: cercada por muros altos, câmeras de última geração e seguranças discretos que patrulhavam as plantações. Ao estacionarem diante da imensa casa colonial de dois andares, cercada por varandas e coqueiros, a família já a esperava nos degraus da entrada.
Helena Portela, a esposa de Otávio, uma mulher elegante, de traços suaves e olhar maternal, deu um passo à frente e quebrou todo o protocolo, puxando Maite para um abraço apertado e caloroso.
— Ah, minha querida... que bom que você chegou sã e salva. Esqueça os problemas daquele lugar de neve. Aqui você vai ter paz.
Logo atrás dela, uma garotinha de cerca de seis anos, de cachos dourados e olhos curiosos, puxou a barra do vestido de Helena. Era Aninha, a filha caçula do casal.
— Mamãe, ela é a moça que vai morar no quarto grande? Ela parece uma princesa de história triste.
Maite sentiu um nó na garganta com a inocência da menina. Ela se ajoelhou na altura de Aninha, forçando um sorriso genuíno pela primeira vez em horas. — Oi, Aninha. Sim, sou eu. E prometo não ficar triste por muito tempo.
Foi nesse momento que o último membro da família se aproximou. Gabriel Portela, o filho mais velho de Otávio, de trinta anos. Alto, de ombros largos, cabelos levemente ondulados e olhos castanhos expressivos, ele exalava o charme rústico de quem cuidava dos negócios da fazenda, mas possuía a postura de um homem educado na Europa. Ele estendeu a mão para Maite, um brilho de admiração imediata surgindo em seus olhos ao notar a beleza singular da jovem, mesmo envolta em trajes simples e com o semblante cansado.
— É um prazer conhecê-la, Maite — Gabriel disse, a voz grave, segurando a mão dela por um segundo a mais do que o necessário, dando um sorriso de canto que tentava transmitir segurança. — Se precisar de qualquer coisa nesta fazenda, desde um cavalo para correr até alguém para te mostrar as cachoeiras, eu estou às suas ordens.
— Obrigada, Gabriel — ela respondeu, retirando a mão com polidez, sentindo o peso daquela recepção calorosa, mas com a mente ainda presa na imagem de Heitor a expulsando do quarto em Chicago.
O Jantar de Boas-Vindas
À noite, a imensa sala de jantar da fazenda Portela estava deslumbrante. Helena havia mandado preparar um banquete com o melhor da culinária local: carnes nobres, risotos e frutas tropicais, tudo regado a um bom vinho tinto. A conversa corria leve entre os donos da casa, que faziam de tudo para que Maite se sentisse integrada.
— O Otávio me disse que você entende tudo de arte e restauração, Maite — Gabriel comentou, inclinando-se na direção dela na mesa, servindo mais uma dose de vinho na taça da jovem. O rapaz de trinta anos estava nitidamente fascinado por ela, fazendo questão de direcionar toda a sua atenção à nova hóspede. — Nós temos algumas telas antigas na biblioteca da família que estão precisando de um olhar profissional. Seria uma honra se você aceitasse dar uma olhada nelas comigo amanhã.
— Claro, Gabriel. Vai ser um prazer — Maite respondeu, dando um gole sutil no vinho. — O trabalho é a única coisa que me mantém sã hoje em dia.
— Pois aqui você vai ter todo o tempo e espaço do mundo — Gabriel continuou, o olhar demorado sobre o decote discreto do vestido dela, o sorriso charmoso desenhando-se em seus lábios. — E eu farei questão de ser o seu assistente, se você me permitir. Prometo ser um bom aluno.
Maite sorriu de lado, agradecendo mentalmente pela gentileza dele, mas por dentro, as palavras de Gabriel acionaram um gatilho doloroso. “Assistente...” A palavra a levou direto para a oficina de Chicago, onde Heitor, com suas mãos enormes cheias de anéis e sua ignorância mafiosa, resmungava enquanto limpava a bancada de mármore para ela. A queimação do ódio e da saudade apertou seu peito, fazendo-a disfarçar o olhar para o prato.
Ao final do jantar, após Aninha ir para o quarto e Helena recolher-se, Gabriel insistiu em acompanhar Maite até a porta da suíte de hóspedes no segundo andar.
— Durma bem, Maite — Gabriel disse, parando no corredor iluminado por arandelas coloniais, aproximando-se um pouco mais, exalando um perfume amadeirado caro. Ele segurou o olhar verde dela com intensidade. — O que quer que tenha acontecido em Chicago, ficou no passado. O Don Laurentis pode ser o homem mais poderoso de lá, mas aqui... nós cuidamos dos nossos. E eu vou cuidar de você.
— Boa noite, Gabriel — Maite respondeu com um tom firme, mas polido, abrindo a porta do quarto e entrando, fechando-a em seguida. Ela encostou as costas na madeira, soltando uma lufada de ar. Gabriel era atraente, gentil e claramente queria conquistar seu coração, mas Maite sentia-se morta por dentro. O lobo de Chicago havia levado toda a sua capacidade de amar com ele.
Olhos na Escuridão
Enquanto a fazenda Portela adormecia na calmaria do interior, a poucos quilômetros dali, no alto de uma colina que contornava as cercas da propriedade, uma picape escura estava estacionada com as luzes apagadas sob a copa de uma árvore.
Dentro do veículo, Enzo segurava um binóculo de visão noturna de alta precisão, observando a janela iluminada do quarto de Maite. Ao seu lado, Marco mastigava um palito de dente, com um fuzil tático apoiado entre os joelhos. Heitor havia sido categórico: eles deveriam vigiar cada passo dela, garantir que nenhum russo cruzasse o oceano, mas Maite jamais poderia saber que os homens do marido continuavam em sua sombra.
O telefone por satélite no painel da picape começou a vibrar, a tela brilhando com o nome do Don. Enzo atendeu no primeiro toque.
— Don Laurentis — Enzo atendeu, a voz baixa e profissional.
Do outro lado da linha, em Chicago, a voz de Heitor veio como um trovão rouco, ríspido e quebrado pela ansiedade. Ele estava trancado em seu escritório escuro, cercado por garrafas de uísque vazias e relatórios de guerra contra Viktor Petrov. Ele não dormia há quase quarenta e oito horas.
— Fala, Enzo. Ela chegou? Como ela está? — Heitor exigiu saber, a ignorância e o desespero lutando em seu tom de voz. — Os Portela a receberam bem?
— Sim, chefe. O pouso foi tranquilo e o Otávio a recolheu na pista — Enzo relatou, olhando pelo binóculo. — Ela foi recebida com muita atenção. Teve um jantar de boas-vindas agora há pouco. A dona Helena e a menina menor parecem ter gostado muito dela. Ela está instalada na suíte principal da ala leste.
Heitor soltou uma lufada de ar pesada pelo telefone, um som sôfrego de alívio que ele jamais demonstraria na frente de seus soldados. — E ela? Ela chorou? Falou alguma coisa de mim na viagem?
Enzo hesitou por um breve segundo, medindo as palavras. — Ela chorou a viagem inteira no jato, Don Heitor. Mas agora, no jantar, ela estava mantendo a postura. Mas... tem um detalhe que o senhor precisa saber.
A mandíbula de Heitor travou do outro lado da linha, o tom gélido retornando instantaneamente. — Que detalhe, Enzo? Não gagueja na porra do telefone. Fala de uma vez.
— O filho mais velho do Otávio, o Gabriel — Enzo explicou, limpando a lente do binóculo. — Ele tem trinta anos, está solteiro e passou o jantar inteiro colado nela. Eu vi pelo vidro da varanda. Ele serviu o vinho dela, ficou rindo e, agora há pouco, acompanhou a dona Natasha... digo, a dona Maite, até a porta do quarto. Ele está claramente tentando cercar o território, chefe. O cara olhava para ela como se tivesse encontrado um tesouro.
Um estrondo seco ecoou pelo telefone em Chicago. Heitor havia socado a mesa de mogno com tanta força que o som pareceu um tiro de calibre .38. O ciúme possessivo e doentio do mafioso Laurentis estalou na linha, misturado com o ódio de estar longe.
— Se aquele bastardo encostar uma única mão nela... se ele tentar forçar qualquer coisa, Enzo, eu juro por Deus que eu pego o meu jato, vou até o Brasil e quebro as duas pernas dele antes de queimar aquela fazenda! — Heitor rugiu, a voz grossa de pura fúria. — Ela é a minha mulher! Minha! Aquilo tudo é um maldito teatro para proteger a vida dela!
— Eu sei, chefe. Eu sei — Enzo acalmou o Don rápido. — Nós estamos de olho. O Gabriel apenas tentou ser charmoso, mas ela entrou no quarto sozinha e fechou a porta na cara dele. Ela não deu abertura. A dona Maite continua sendo sua, Don. Só sua.
Heitor respirou fundo, tentando controlar o batimento cardíaco acelerado. Ele passou a mão enfaixada pelo rosto suado na escuridão de seu escritório. A dor de saber que outro homem tentava cortejar sua boneca era quase pior do que as ameaças de Viktor Petrov.
— Continuem na sombra, Enzo. Não pisquem — Heitor ordenou, a voz voltando a ser ríspida e autoritária. — Se o Viktor mandar alguém para esse país, matem antes que chegue perto da cerca. E me liguem todos os dias nesse mesmo horário. Eu preciso saber se ela está respirando.
— Sim, Don. Consideração total — Enzo respondeu.
Heitor desligou o telefone e o jogou na mesa. Ele pegou o copo de uísque, virando o líquido amargo de uma vez na garganta, enquanto olhava para a parede onde a foto de Viktor Petrov estava cravada pela faca. O lobo de Chicago agora tinha mais um motivo para encerrar aquela guerra com a maior contagem de corpos possível: ele precisava exterminar os russos o mais rápido que a pólvora permitisse, para poder cruzar o oceano e buscar de volta a mulher que era dona do seu destino, antes que o ódio dela se tornasse permanente.
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