O Preço do Pecado

25 A Caça e o Refúgio



​Chicago: O Rastro de Sangue

​A zona portuária de Chicago cheirava a fumaça, ferro e óleo diesel, mas para Heitor Laurentis, o único cheiro que importava era o do medo dos russos. Vestindo sua jaqueta de couro preta, com as mãos enfaixadas cobertas por luvas táticas e o olhar castanho completamente destituído de qualquer piedade, ele chutou a porta de ferro de um escritório clandestino nos fundos de um estaleiro.

​O baque ecoou no espaço escuro. Lá dentro, três homens de Viktor Petrov tentaram sacar suas armas, mas a escolta dos Laurentis foi mais rápida. Em segundos, dois russos estavam no chão, agonizando sobre poças de sangue. O terceiro, um homem gordo com tatuagens da máfia siberiana no pescoço, foi arrastado por Heitor pelos cabelos e jogado em cima de uma mesa de metal.

​— Onde está o Viktor? — Heitor rugiu, a voz grossa, ríspida, desferindo um soco brutal que quebrou os dentes do homem. A ignorância do Don estava em seu nível mais destrutivo. — Fala, seu bastardo! Eu estou virando essa cidade do avesso há três dias! Onde ele está se escondendo?

​— Eu não sei... eu juro por Deus, Laurentis! O Viktor mudou de galpão ontem à noite! — o homem cuspiu sangue, tremendo sob o peso do mafioso. — Ele sabe que você enlouqueceu! Ele sabe que você está caçando a gente como bicho!

​Heitor segurou o queixo do homem com uma força esmagadora, aproximando o rosto de demônio do dele. — Ele não viu nada ainda. Diz para o que restar do seu clã que eu não vou parar até ver a cabeça do Viktor num espeto.

​Com um movimento seco, Heitor bateu a cabeça do russo contra o metal da mesa, deixando-o inconsciente, e caminhou para fora do galpão, onde Romeu o esperava ao lado da Land Rover preta, digitando freneticamente no celular.

​— Mais um beco sem saída — Heitor sibilou, limpando o sangue dos nós dos dedos na própria calça. — O desgraçado do Viktor está correndo como um rato de esgoto. Ele sabe que a guarda dele caiu.

​Romeu guardou o aparelho e encarou o irmão mais velho com o semblante tenso. — Ele está recuando porque você destruiu três redes de distribuição dele em quarenta e oito horas, Heitor. Você está agindo feito um psicopata. Desse jeito, os chefes de Nova York vão começar a achar que perdemos o controle da cidade. Você precisa respirar, porra.

​— Eu só vou respirar quando o Viktor estiver debaixo da terra, Romeu! — Heitor esbravejou, batendo a mão no teto do carro, a fúria possessiva brilhando nos olhos. — Eu mandei a minha mulher embora. Eu tive que olhar nos olhos da Natasha, mentir na cara dela, dizer que não a amava e ver o coração dela quebrar por minha causa. Eu sinto o cheiro daquele perfume de tinta dela neste carro toda vez que entro! Eu estou vivendo no inferno, e a culpa é daquele russo. Eu vou caçar ele até o último bueiro de Chicago.

​Romeu colocou a mão no ombro do irmão, suavizando o tom. — Eu sei, Heitor. Eu sei o que você está passando. A Vanessa chora na mansão toda vez que lembra da Natasha. Mas pensa pelo lado positivo... a nossa prioridade era tirar o alvo das costas dela. E o Enzo me ligou há uma hora. Ela está segura no Brasil. Ninguém sabe onde ela está. Concentra esse ódio na mira da sua arma. Vamos pegar o Viktor pelo estômago, cortando o dinheiro dele.

​Heitor travou a mandíbula, subindo no banco do motorista. — Então vamos para o próximo galpão. Eu quero essa cidade limpa até o fim da semana.

​Brasil: O Horizonte Verde

​A milhares de quilômetros dali, o silêncio das montanhas do interior do Brasil era quebrado apenas pelo som ritmado dos cascos dos cavalos contra a terra batida e o canto dos pássaros tropicais.

​Maite — que ainda lutava para se acostumar com o próprio nome — cavalgava em uma égua marrom de passos mansos. Ela usava uma calça jeans, botas e uma camisa leve, tentando manter os olhos fixos na paisagem deslumbrante de vales verdejantes que se estendiam até onde a vista alcançava. Mas a sua mente era uma névoa de dor. Cada batida do seu coração parecia ecoar as palavras duras de Heitor: “Você foi um brinquedo divertido... Eu menti.” A queimação do ódio misturava-se com uma saudade sufocante que a fazia querer gritar.

​Ao seu lado, montado em um imponente cavalo negro, Gabriel Portela mantinha o passo alinhado ao dela. Ele a observava de lado, fascinado pela beleza melancólica da jovem sob a luz do sol da tarde.

​— Você está muito distante hoje, Maite — Gabriel quebrou o silêncio, a voz mansa, parando o cavalo no topo de uma colina que dava vista para um penhasco seguro. — Olhando para esse horizonte, parece que você está tentando enxergar algo do outro lado do oceano.

​Maite puxou as rédeas suavemente, parando a égua. Ela soltou uma lufada de ar, limpando uma mecha de cabelo castanho que insistia em cair sobre seus olhos verdes.

​— Às vezes as memórias pesam mais do que a gente gostaria, Gabriel — ela respondeu, o tom de voz mansa, mas distante. — Mas a paisagem aqui é realmente linda. Obrigada por me trazer. Eu precisava sair daquela casa.

​Gabriel sorriu, um sorriso charmoso e acolhedor. Ele desceu do cavalo com agilidade e caminhou até a égua dela, estendendo as mãos grandes e firmes para ajudá-la a descer. Maite hesitou por um segundo, mas aceitou, segurando nos ombros dele enquanto descia. Gabriel a segurou pela cintura com uma delicadeza intencional, mantendo-a por um breve segundo perto de seu peito antes de soltá-la.

​— Eu te prometi que ia cuidar de você, não prometi? — Gabriel disse, os olhos castanhos fixos nos dela com uma intensidade clara de conquista. — Eu sei que você passou por coisas terríveis com aqueles mafiosos em Chicago. O meu pai me contou o básico sobre o perigo de lá. Mas eu quero que você saiba que aqui o ritmo é outro. O homem que não soube te valorizar lá atrás é um idiota. Você merece ser tratada como a joia que é.

​Maite deu um passo para trás com polidez, encostando-se em uma cerca de madeira, olhando para o vale. — O homem de lá não tem coração, Gabriel. Ele só entende de posse, contratos e brutalidade. Mas eu não quero falar sobre ele. Eu preciso esquecer que aquela vida existiu.

​— Então me deixa te ajudar a esquecer — Gabriel deu um passo à frente, a voz mansa, estendendo a mão para acariciar suavemente o rosto dela. Natasha tencionou o corpo; o toque de Gabriel era gentil, mas não causava o choque elétrico, o fogo selvagem que a ignorância e as mãos calejadas de Heitor provocavam em sua pele. Mesmo odiando o marido, o corpo dela continuava pertencendo ao lobo. — Me deixa te mostrar que existe um amor calmo, sem armas, sem sangue. Um amor que constrói.

​— Gabriel... por favor, vai devagar — ela pediu, afastando o rosto com suavidade, forçando um sorriso amarelo. — Eu acabei de chegar. Minha cabeça está uma confusão.

​— Tudo bem — ele recolheu a mão, sem perder o charme. — Eu tenho todo o tempo do mundo, Maite. E eu sou um homem persistente.

​Os Olhos no Binóculo

​Escondidos a cerca de trezentos metros dali, camuflados entre a vegetação densa de uma mata fechada no topo da montanha vizinha, Enzo e Marco observavam toda a cena. Enzo segurava um binóculo de longo alcance, enquanto Marco anotava as coordenadas em um mapa tático.

​— Cara... o mauricinho da fazenda está atacando forte — Marco comentou, cuspindo o palito de dente. — Olha lá. Ele pegou ela pela cintura para descer do cavalo. Se o Don Heitor vê isso pelo visor, ele infarta de ódio.

​— Ele quase tocou no rosto dela agora — Enzo narrou, a expressão séria, ajustando o foco do binóculo. — A dona Natasha se afastou. Ela cortou as asas dele por enquanto. Mas o Gabriel está cercando o território como um cão de caça. Ele vai tentar de novo.

​— Nós temos que relatar isso na ligação de hoje? — Marco perguntou, preocupado. — O chefe já está queimando Chicago viva por causa do russo. Se contarmos que o filho do Portela está alisando a mulher dele nas montanhas, ele pega o primeiro voo e a nossa cobertura vai para o espaço.

​Enzo baixou o binóculo, suspirando pesado. — Nós temos que contar a verdade, Marco. Essa é a ordem. O Don prefere a ignorância da verdade do que o conforto de uma mentira. Mas vamos enfatizar que ela se afastou. O problema é que o Viktor Petrov continua vivo, e enquanto aquele desgraçado respirar, o chefe vai continuar com os nervos estourados. Vamos continuar vigiando. Se aquele Gabriel passar dos limites... a gente intervém antes do chefe mandar.

​Os dois capangas voltaram a se posicionar nas sombras da mata, enquanto ao longe, no topo da colina, Maite subia novamente em sua égua, cavalgando de volta para a fazenda ao lado de Gabriel, sem imaginar que os olhos do seu rústico e possessivo marido continuavam guardando seus passos, mesmo do outro lado do mundo.