O Preço da liberdade livro 2

16 O Julgamento do Coração


As masmorras de Aethelgard eram o oposto do salão de baile: úmidas, escuras e silenciosas, exceto pelo som das gotas de água que batiam no chão de pedra. Lucca — que o reino ainda conhecia como Marcos — estava sentado em um banco de madeira, com a cabeça baixa e as mãos acorrentadas. Ele não parecia um conde, nem um espião; parecia apenas um homem que havia perdido a própria alma.

​O som de botas pesadas ecoou no corredor. A grade de ferro rangeu, e a figura imponente de Adrian surgiu nas sombras, iluminada apenas por uma tocha carregada por um guarda, que se retirou a um sinal do Rei.


​Adrian permaneceu em silêncio por um longo tempo, observando o homem que chamara de genro. A fúria inicial dera lugar a uma frieza analítica, mas o perigo ainda emanava dele.

​— Por que, Lucca? — A voz de Adrian era um sussurro grave. — Eu te dei minha confiança. Eu te dei minha filha. Por que montar essa farsa nojenta dentro da minha casa?

​Lucca levantou o rosto. Seus olhos estavam vermelhos, mas ele não desviou o olhar do Rei.

​— Vingança, Majestade. Foi para isso que fui criado — respondeu ele, a voz rouca. — Giulia passou cada dia dos últimos oito anos me lembrando do frio e da humilhação daquela noite no baile. Ela me moldou para ser o veneno que mataria o seu reinado por dentro. O plano era casar, roubar o apoio do Norte e, então, destruir a paz de Aethelgard.

​Adrian apertou as mãos nas grades.

— E o que mudou? Por que não terminou o serviço?

​— Diana mudou tudo — Lucca disse, e um brilho de ternura desesperada surgiu em seus olhos. — No momento em que a vi naquela laranjeira, eu soube que não conseguiria. Eu tentei lutar contra isso, tentei odiá-la, mas ela é... ela é a luz que eu nunca tive. Eu propus à minha mãe que parássemos. Eu disse a ela que o ouro das rotas de café seria o preço da nossa liberdade, que eu cuidaria dela, mas que deixasse os Kane em paz.

​Lucca soltou um riso amargo.

— Eu achei que ela tinha aceitado. Achei que poderia viver a mentira de ser Marcos Delavga para sempre, só para poder acordar ao lado da Diana. Mas minha mãe não quer ouro, Majestade. Ela quer sangue. E quando percebeu que me perdeu para o amor, ela decidiu que se eu não podia ser o carrasco dela, eu seria a vítima.

​Adrian inclinou-se, estudando cada linha do rosto de Lucca. Ele vira muitos mentirosos em seu trono, mas via algo diferente ali.

​— O que você sente por ela? — perguntou Adrian, diretamente. — Responda como homem, não como um Lâfrer.

​Lucca levantou-se lentamente, as correntes tilintando.

— Eu sinto que prefiro apodrecer nesta masmorra por cem anos do que passar um único dia sabendo que a magoei. Eu a amo com um desespero que me assusta, Adrian. Ela foi a única coisa real em uma vida de sombras. Eu morreria por ela. Eu vou morrer por ela, se for esse o seu julgamento. Mas, por favor... não deixe que ela acredite que cada beijo foi uma mentira. Porque foram as únicas verdades que eu já disse.

​Adrian recuou um passo, surpreso. Ele reconhecia aquele olhar. Era o mesmo olhar que ele próprio tinha quando enfrentava o mundo para proteger Mellyssa. Havia uma verdade crua e devastadora nas palavras de Lucca.

​O Rei soltou um suspiro pesado. Ele vira que havia amor, um amor genuíno e trágico, mas o peso da traição ainda era um abismo entre eles.

​— O amor não apaga o que você fez, Lucca — Adrian disse, sua voz perdendo um pouco da rigidez, mas mantendo a autoridade. — Você traiu o reino e o coração da minha filha. Mas agora vejo que você também é uma vítima daquela mulher.

​Adrian virou-se para sair, mas parou antes de desaparecer na escuridão.

— Eu não vou te matar hoje. Mas não espere que Diana te perdoe. Algumas feridas são profundas demais para que apenas a verdade as cure.

​Lucca voltou a sentar-se na escuridão, sabendo que Adrian agora entendia sua dor, mas que o perdão da mulher que realmente importava — Diana — estava mais longe do que as estrelas no céu de inverno.