O Preço da Volta
35 Capítulo 35 - O início do fim...
Notas iniciais
Naquela noite Quinn não conseguiu dormir.
Ao contrário de Rachel, que havia tomado um leve calmante, a loira não pôde fazer tal coisa devido aos efeitos que o medicamento poderia fazer se misturado aos seus remédios para dor.
Ela olhou a namorada ressonando tranquilamente sobre metade do seu corpo e delicadamente pôs a morena deitada totalmente na cama, conferindo se a mesma havia despertado, e levantando-se quando Rachel nem sequer se mexeu.
Calçou o par de sandálias e inclinou-se, beijando a testa da menor e saindo do quarto sem fazer barulho.
Quando seus pés tocaram a cozinha, seus olhos logo foram até porta aberta que levava à área dos fundos, e hesitante, moveu-se até lá, soltando um suspiro de alívio quando observou a figura sentada na borda da piscina, com as pernas submersas na água, segurando um objeto em mãos.
Quinn caminhou lentamente até parar ao lado da irmã, retirando as sandálias e sentando-se, pondo as pernas dentro da água. A noite não estava fria.
A temperatura era agradável e o céu estava totalmente iluminado pelas estrelas e pela lua que brilhava forte e glamourosa, mostrando todo o seu poder. As pequenas luzes que residiam no fundo da piscina mantinham-se ligadas, iluminando ainda mais aquela área.
Frannie moveu os olhos até encarar a caçula, sorrindo fracamente e entregando-lhe o álbum de fotos que segurava anteriormente.
A mais nova franziu o cenho assim que viu seu nome em letras douradas na capa preta do objeto. Rapidamente ela o abriu, sentindo seus olhos marejarem assim que os pousou sobre a primeira foto.
Era Judy...mas não apenas Judy. A mulher segurava um pacotinho em seus braços enquanto possuía os cabelos loiros desarrumados e o rosto totalmente suado, todavia, ela sorria. O sorriso mais sincero que Quinn nunca havia visto, e que com certeza nunca veria se não fosse através daquela imagem. Fora o único sorriso dado antes de descobrir que seu filho na verdade era uma filha intersexual.
A legenda abaixo da fotografia estava escrita em uma caligrafia forte e elegante.
23 de abril de 1994. A chegada de Lucy Quinn Fabray.
— Eu o achei dentro do cofre do escritório. — Frannie mantinha a voz suave. — Eu nunca havia aberto aquele cofre, mas hoje eu precisei procurar um lugar seguro para guardar alguns papéis da empresa e então eu o abri. — Sorriu docemente. — O álbum era a única coisa que estava lá dentro. Acho que era a coisa mais preciosa que o papai possuía. A única coisa que lembrava você. — Passou a mão nos cabelos da caçula.
Quinn não conseguiu falar nada. As palavras morreram na sua garganta um soluço escapou, denunciando o choro silencioso da mais nova, enquanto observava as outras fotografias.
Na próxima imagem Russel estava ao lado de Judy e do pacotinho envolto com a manta azul do hospital. O homem trajava a touca e a bata hospitalar e beijava o topo da cabeça da esposa, enquanto a mulher sorria.
E então na foto seguinte, apenas o pacotinho azul preenchia a fotografia. O rostinho do bebê era a única coisa visível. A pele era extremamente branca com os poucos fios loiros no topo da cabeça. Os olhos ainda estavam fechados.
A legenda com as letras imponentes também estava ali e Quinn sentiu o choro aumentar de intensidade quando a viu. Seus dedos passearam pelas duas palavras como se pudessem vivenciar o momento em que foram escritas.
Minha garotinha.
— Eu gostaria tanto que você o tivesse conhecido. — Frannie envolveu o corpo da irmã com um dos braços.
— Eu queria muito conhecê-lo. — Sua voz saiu extremamente rouca. — Ele parecia tão feliz.
— E ele estava feliz. — A mais velha assegurou. — Eu estava na recepção esperando com nossos avós e quando papai saiu para nos avisar que você havia nascido ele chorou de alegria enquanto abraçava o vovô Philip. E eu não quis sair do seu lado um minuto sequer quando pus meus olhos em você. — Sorriu.
— Eu queria tanto, tanto ter nascido normal. — Quinn enxugou as lágrimas lentamente.
— Você é normal. — Frannie segurou o queixo da mais nova, fazendo-a encarar-lhe. — Você é normal, ouviu bem? A única pessoa anormal é quem não aceitou você assim. — Beijou a testa da irmã. — Você é linda! Olhe para o seu rosto. — Segurou a face da irmã com as duas mãos. — Você é a garota mais linda que eu já vi em toda a minha vida e não é porque somos irmãs. É porque é a mais pura e simples verdade. — Sorriu amorosamente.
Quinn sorriu com os lábios trêmulos, sentindo as lágrimas escorrerem novamente, abraçando a mais velha em seguida.
Frannie sorriu mais largamente e beijou o topo da cabeça da caçula, aconchegando-a em seus braços como uma garotinha. Sua garotinha.
— Eu não vou deixar que nada e nem ninguém faça mal a você. Vou te proteger a todo custo, Lucy. Eu amo você. — Apertou a menor contra seus braços.
— Eu também amo você. — A voz saiu abafada, enquanto Quinn apreciava o calor do afeto da irmã, permitindo-se sentir a segurança que Frannie emanava em cada palavra dita.
O resto da noite passou sem que nenhuma das duas pudesse perceber.
Em meio a conversas, risos, choros e lembranças que ambas compartilhavam de suas infâncias totalmente opostas, as duas fortaleciam o elo que as ligava. Não somente de irmãs, mas de amigas também.
No fim das contas, tudo tendia a dar certo. Elas esperavam que sim.
...
Quinn batia o pé no chão incessantemente e vez ou outra roía uma das unhas em claro sinal de nervosismo e impaciência. Duas semanas se passaram e lá estavam elas na sala do doutor Clarck novamente.
— Dá pra você parar com isso?! — Rachel ralhou sentada ao seu lado. — Estou ficando mais nervosa ainda.
— Eu estou ansiosa. — Bufou, passando as mãos pelos cabelos. — Se tudo estiver certo, eu finalmente vou poder comer novamente.
— Você estava comendo, Quinnie. — Revirou os olhos.
— Aquelas coisas pastosas nojentas não eram comida. — Retorquiu. — Eu quero comer bacon. — Sentiu a boca salivar ao pronunciar o nome do alimento.
Rachel fez uma careta e bateu no ombro da namorada.
— Você deveria se envergonhar por comer bacon. Sabe quantos porquinhos morrem todos os dias para que pessoas carnívoras como você possam comer tal coisa? — Indagou raivosa.
O homem de meia-idade apenas observava as duas garotas com um sorriso calmo quando a porta fora aberta e a enfermeira adentrou a sala segurando a típica embalagem do exame em mãos. Doutor Clarck logo levantou-se e segurou o objeto, agradecendo logo em seguida e rasgando o papel, colocando o raio-x no negatoscópio.
Após alguns segundos analisando atentamente, o doutor sorriu largamente e virou-se, fitando as duas garotas que encaravam-lhe em expectativa.
— Consegue ver a diferença? — O homem apontou para a região do seu fígado. — Aqui está sua vesícula biliar. Esse órgão agora está totalmente formado e já pode transportar todos os alimentos porque está novamente ligado ao fígado através dos ductos.
Diferente da outra vez, Quinn não viu apenas uma mancha minúscula.
Agora ela via um pequeno órgão em formato de pera que estava totalmente ligado ao seu fígado. Aquilo que a impedia de comer normalmente podia passar quase despercebido no raio-x, mas era de suma importância no corpo humano. Quinn sabia disso mais do que ninguém.
— Então eu estou totalmente curada? — Indagou, sem esconder a animação.
— Em termos leigos, você está. — Assentiu. — Mas evite correr ou se esforçar demais. Os remédios não precisarão ser tomados todos os dias, apenas se houver o caso de sentir um pequeno latejar, porém isso só ocorrerá se houver um esforço descomunal.
Quinn ouvia tudo enquanto assentia, sentindo a alegria dominar-lhe gradativamente ao poder se alimentar de comidas sólidas novamente.
— Ah, e as relações íntimas podem ocorrer normalmente a partir de agora. Achei que gostariam de saber. — O homem finalizou sorrindo gentilmente.
Quinn tossiu sentindo o rosto corando de vergonha. Rachel não estava diferente.
...
Quando ambas saíram da sala do doutor Clarck, puderam observar a figura extremamente alta e robusta, trajando o terno preto, combinando com o par de óculos escuros, que dava-lhe um ar mais sério do que aparentava ser.
— Podemos ir, Dave. — Rachel sorriu gentilmente para o segurança.
— Sim, senhorita Berry. — O homem respondeu educado, caminhando para fora do hospital sempre à frente das garotas.
— Eu já falei que pode nos chamar pelos nossos nomes. — A morena retorquiu. — Não somos duas velhas.
Karofsky sorriu contidamente e assentiu logo em seguida.
— Tudo bem, Rachel.
— Bem melhor assim. — A baixinha sorriu, segurando a mão da namorada e saindo do hospital.
David Karofsky havia sido contratado por Frannie para acompanhar as garotas em qualquer lugar onde desejassem ir. O homem era o mais recomendado devido a sua experiência profissional e por mais que aparentasse ser sempre sério e duro, possuía seu lado divertido e logo conquistou a simpatia de todos, sendo profissional quando necessário e totalmente o oposto nas horas apropriadas.
Mesmo Quinn retorquindo, no fim das contas acabou aceitando. Afinal era pela sua segurança e a de Rachel também. Frannie não deixou escolhas. Ela realmente faria de tudo para proteger a caçula.
— Podemos ir almoçar em um restaurante? Eu estou morrendo para comer bacon. — Pediu com os olhos brilhando.
Rachel até pensou em protestar, mas quando observou a expressão da namorada acabou suspirando e assentiu resignada.
— Se você tiver pesadelos com porcos assassinos te perseguindo eu não vou cuidar de você. — Proferiu, adentrando o estacionamento.
Quinn soltou uma risada e beijou o topo da cabeça da namorada.
— Meu amor, você com certeza iria cuidar de mim. — Sorriu.
Rachel apenas bufou, sabendo que sim, ela cuidaria da namorada se isso realmente acontecesse.
...
— E então? — Frannie indagou, observando a mulher alta trajando o terno social feminino alinhado ao corpo.
— As informações que Hiram e Leroy Berry nos forneceu através do filho adotivo, Kurt, foi de extrema importância. — Retirou uma pasta amarela de sua maleta e entregou para Frannie. — Judy e Finn realmente alugaram um apartamento em Paris, todavia, desocuparam-no há uma semana.
Frannie folheava as páginas observando cada detalhe. As fotos de boa qualidade mostravam o edifício em Paris e o interior do apartamento totalmente vazio. Os olhos azuis novamente encararam a detetive com o semblante impassível.
— E ninguém sabe para onde ela possa ter ido? — Questionou.
— Infelizmente não. A corretora que foi responsável pela negociação informou que Judy pagou um valor extra pela quebra do contrato do aluguel e que ela parecia estar com pressa. Um valor bem alto, por sinal. — Explicou calmamente.
— Mas de onde ela retirou tanto dinheiro? — Indagou mais para si do que para a mulher mais velha na sua frente. — Ela não possui mais ações aqui e o valor que dei à ela já deveria ter acabado.
— Eu gostaria muito de saber isso também. — A detetive respondeu. — Eu contatei um amigo que trabalha na polícia e nada consta com o sobrenome Fabray nos registros dos aeroportos em Paris. Ela não deve ter saído de lá.
— Não. — Frannie maneou a cabeça. — Judy é mais esperta do que pensamos. — Largou a pasta sobre sua mesa. — Ela não deve estar em Paris. — Suspirou, fechando as mãos em punhos.
— De qualquer forma, eu não pararei por nada. Eu vou encontrá-los. — A mulher garantiu.
— Obrigada, Detetive Sylvester. — Apertou a mão da mulher.
Frannie observou a mais velha sair da sua sala e bateu com as mãos sobre a mesa.
— Onde você está, Judy? — Sussurrou para si mesma.
...
O carro preto estava bem estacionado em frente ao restaurante. Os quatro homens observavam atentamente pelo vidro fumê a movimentação daquele início de tarde. A atenção de todos fora diretamente para as três pessoas que saíam do local enquanto conversavam despreocupadamente.
— Isso vai ser fácil. — Um deles falou. — Um mísero segurança não vai nos parar. — Sorriu de lado.
Todos acompanharam o percurso das duas garotas e do homem até o veículo e quando o mesmo deu partida, tomando a estrada logo em seguida. O carro que residiam os quatro indivíduos logo fora ligado e passou a seguir o da frente, sempre mantendo uma certa distância para não ser percebido.
Um deles logo fisgou o celular e discou o primeiro número das últimas ligações feitas.
— Estamos seguindo o carro da sua filhinha. Logo logo iremos agir. Ela acabou de sair de um restaurante com um segurança e com namorada. — Informou.
— Ótimo. Peguem-na sem precisar machucá-la demais. Ela não servirá morta. E não toquem em Rachel. Ela será a esposa do meu filho. — Respondeu friamente.
— Sim, senhora Harper. Assim que a pegarmos, ligaremos novamente. — Desligou sem esperar uma resposta.
Judy ouviu o som da chamada finalizada e virou-se para encarar o homem que beirava os setenta anos, mas que mantinha toda a elegância nos cabelos brancos com poucos fios loiros bem cortados e no terno caro que trajava.
— É bom ser uma Harper novamente? — A voz firme do homem ecoou em seus ouvidos.
Judy sorriu friamente e aproximou-se do mais velho, abraçando-o.
— É maravilhoso, papai.
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