O Preço da Volta
23 Capítulo 23 - Me cativas...
Notas iniciais
O rapaz encarava a mulher andar imponentemente de um lado para o outro no quarto de tonalidade apática. As pequenas rugas ao redor dos olhos demonstravam a aflição que permanecia dentro de si.
Os olhos azuis de Judy encararam-lhe raivosos pela quarta vez naquele início de tarde.
— Nós combinamos que faríamos tudo com cuidado. — Passou as mãos pelo rosto. — Você sabe o que significa cuidado? Ou é idiota e eu me enganei ao seu respeito esse tempo todo?
— Pare de falar assim comigo. — Pediu raivoso, gemendo de dor em seguida ao sentir os hematomas cobertos por curativos. — Eu errei, eu agi sem pensar, e agora estou pagando.
— Isso não é nem o começo do que você vai pagar, Finn. — Ralhou. — Francine e aquela corja vão destruir você. — Respirou fundo. — O que você estava pensando quando resolveu esfaquear Lucy Quinn?
— Eu apenas queria me livrar dela o mais rápido possível, tudo bem? — Defendeu-se. — Eu não aguento saber que ela toca a Rach e a tem só para si.
— Espera. — A mulher parou de andar e lançou-lhe um olhar surpreso. — Você se apaixonou por Rachel? É isso? — Indagou.
— Não foi premeditado. — Passou a ponta dos dedos na barba por fazer. — Ela é linda e eu não me canso de observar cada curva daquele corpo. — Suspirou.
A mulher estava pronta para proferir alguma coisa, quando a porta fora aberta por Kurt.
— Você é maluco! — Apontou o dedo na face do rapaz. — Eu achei que não teria coragem de matar alguém.
— Eu agi por impulso. — Finn revirou os olhos. — Parem de brigar comigo. Meu rosto inteiro está doendo.
— Deveria estar muito mais. Lucy está em cirurgia agora e não sabemos o estado em que ela se encontra. — O rapaz de traços delicados esbravejou.
— E daí? Espero que ela morra e assim eu terei o caminho livre para conquistar a Rach. — Repousou a cabeça no travesseiro.
— Você acha mesmo que se Lucy morrer você vai conseguir conquistar Rachel? — Riu em desdém. — Ainda há cinco pessoas lá fora que impedirão que você aproxime-se dela. Seis se contar comigo.
— Do que está falando? — Judy questionou. — Vai ficar do lado da irmãzinha e da sua cunhada anormal?
— Por Deus! Ela é sua filha! Você deveria estar ao menos sentindo alguma coisa porque Lucy saiu de você. Finn é apenas adotado. Eu achei que seria certo fazer isso mas eu não consigo. — Maneou a cabeça em negação. — Eu quero casar, ter filhos e quero que eles se orgulhem de mim. Quero ser um ótimo pai e marido. Quero viver sem ter algum peso na consciência por ter feito mal para alguém que não merecia isso.
O quarto ficou em completo silêncio e segundos depois apenas o estalo de peles se chocando ecoou pelo local. O rosto extremamente delicado e branco de Kurt possuía a lateral esquerda avermelhada e era possível ver os cinco dedos de Judy em sua bochecha.
— Você é um fraco. — A mulher apontou o dedo na face do rapaz. — Um fraco insignificante e se não está do nosso lado, então está no nosso caminho, e eu não gostaria de estar no seu lugar agora. — O maxilar trincado e os olhos azuis gélidos quase fizeram Kurt recuar. Quase.
— Pois então passem por cima. — Rugiu com a mão sobre o rosto. — Vocês irão se afundar sozinhos. Eu ainda tenho esperança que pai e papai parem com essa maluquice.
— Hiram e Leroy estão até o pescoço conosco nessa, e se eu cair... — Sorriu friamente. — Eles cairão juntos. Agora saia daqui! — Apontou para a porta.
O rapaz suspirou e olhou para Finn, balançando a cabeça em negação e saindo em seguida, batendo a porta.
— Fraco. — Judy murmurou após a saída de Kurt. — Pessoas fracas só servem para serem destruídas.
— E nós iremos destruí-lo. — Finn atalhou.
— Agora vamos pensar em como tirar você dessa bagunça. — A mulher se sentou na ponta da cama.
...
— Exatamente — disse a raposa. — Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
— O que significa ''cativas''? — A morena interrompeu a leitura, indagando enquanto mantinha-se sentada com a cabeça repousando no ombro coberto pela blusa xadrez da loirinha.
Quinn olhou para a menor e pensou por alguns minutos. O rosto alvo e bem desenhado estava contorcido em concentração, enquanto os olhos castanhos ansiavam por uma resposta.
— Significa ser gentil com alguém. — A loira coçou a nuca. — E ser educada também.
— Como quando eu cheguei aqui na semana passada e você ficou com a minha mochila? — A morena indagou curiosa.
— Sim, eu acho que sim. — Assentiu um pouco incerta.
— Então você me cativou. — Sorriu largamente. — Isso significa que seremos únicas no mundo uma para a outra?
— Eu não sei. — Comprimiu os lábios. — Você quer isso?
— Você me cativou, então é sua obrigação, Quinnie. — Os lábios carnudos formaram um biquinho.
— Tudo bem. — Quinn largou o livro desgastado em seu colo. — Seremos únicas no mundo uma para a outra, tudo bem? — Estendeu o dedo mindinho.
— Promete? — A baixinha enlaçou seu próprio dedo no de Quinn.
— Prometo. — Assentiu, sorrindo em seguida.
Rachel retribuiu o sorriso lindamente e aconchegou-se novamente no ombro da maior, que logo voltou à leitura.
— Me cativas... — Rachel abriu um sorriso enquanto mantinha os olhos fechados, lembrando-se nitidamente daquele momento há seis anos.
— O que disse? — Shelby indagou ao seu lado, tirando-a se seus pensamentos.
— Nada. — Abriu os olhos, encarando a mais velha. — Estava lembrando de quando Quinn e eu lemos O Pequeno Príncipe pela primeira vez. — Respondeu, sorrindo tristemente.
— Eu adoro esse livro. — A mãe passou as mãos pelos cabelos castanhos bagunçados. — Suponho que você seja a raposa e Lucy o principezinho.
Rachel sorriu nostálgica e apoiou a cabeça no ombro da mãe, sentindo o braço da mais velha envolver-lhe.
— Sim, mas a Quinnie sempre será a minha princesa. — Suspirou. — É nosso livro favorito e eu gostaria muito de lê-lo novamente com ela para os nossos filhos no futuro.
— Vocês irão. — A mais velha beijou-lhe a cabeça. — Ela irá ficar bem, meu amor.
Rachel apenas assentiu suspirando, buscando forças para acreditar nas palavras da mãe.
Sua atenção fora desviada imediatamente para o corredor, onde um homem com a expressão cansada caminhava segurando uma prancheta e a touca cirúrgica ainda estava em sua cabeça, escondendo os poucos fios grisalhos. Rachel levantou-se em um sobressalto.
— Francine. — A voz firme do homem dirigiu-se à loira sentada ao lado da esposa. — Não nos vemos desde que Russel estivera aqui. — Suspirou.
— Doutor Clarck. — A Fabray levantou, cumprimentando o homem com um aperto de mão. — Eu realmente não fico feliz revê-lo nessas circunstâncias. Me diga como a Lucy está. — Pediu nervosa.
— Bom... — O homem limpou a garganta a observou todos ali, fitando por longos segundos a morena baixinha com o vestido e parte de sua pele sujos de sangue seco. — A facada atingiu o fígado de Lucy e ocasionou uma hemorragia classe quatro, nos causando algumas complicações. — Explicava calmamente, vez ou outra olhando os papéis presos no objeto em suas mãos. — Esse tipo de hemorragia causa principalmente a perda de mais de quarenta por cento do sangue. Nós conseguimos contê-la e usamos quase todo o nosso estoque sanguíneo, mas isso danificou um pouco seu órgão e consequentemente a bile, responsável pela digestão de alimentos.
— O que isso quer dizer? — Rachel questionou impaciente.
— Quer dizer que Lucy irá ser alimentada por um tubo enquanto permanecer aqui no hospital e quando obtiver alta, deverá se alimentar de alimentos pastosos até que a bile esteja capacitada para digerir alimentos sólidos novamente. E em hipótese alguma fazer esforço até que esteja recuperada.
— Então a Q está bem? — A latina se pronunciou antes de Rachel.
— Ela ficará quarenta e oito horas na UTI para o caso de aparecer alguma complicação inesperada. Eu não me agrado em dizer que ela está bem, pois podem ocorrer surpresas, entretanto, seu quadro não é grave. — Sorriu educado.
— Então Berry, nada de safadezas até a Fabray se recuperar totalmente. — Santana comentou quando o medo esvaiu-se de si, recebendo uma censura de Brittany em seguida.
— Tenha respeito. — Ralhou.
Rachel apenas ignorou o comentário enquanto sentia o corpo mais leve, aproximando-se a apertando a mão do homem.
— Muito obrigada. — Sorriu agradecida. — Eu posso vê-la?
— Sim, você pode. — O homem sorriu simpático. — Ela já foi levada para a UTI e as visitas são de quinze minutos com um visitante ao dia. Todavia, precisa se limpar antes de entrar.
Rachel se limitou a aquiescer e logo foi levada pelo doutor para o banheiro, onde pôde limpar o sangue da sua pele, e trocou a roupa pela vestimenta que Shelby trouxera. Após isso, fora guiada até a ala da Unidade de Tratamento Intensivo. Leitos individualizados preenchiam o local.
A baixinha respirou fundo quando o médico abriu a porta do quarto onde Quinn estava.
— Quinnie... — Sussurrou, sentindo os olhos encherem de lágrimas e ouvindo a porta fechar atrás de si.
A pele estava mais pálida que o normal, assim como os lábios secos e quase sem nenhuma tonalidade. A roupa branca hospitalar cobria o curativo no torso do corpo esguio, mas era possível observar o tubo transparente que levava nutrientes para o interior da loira. Rachel engoliu o nó na garganta e sentou-se na poltrona extremamente grande a acolchoada próxima à cama.
O monitor cardíaco fazia seu trabalho, emitindo os sons contínuos do coração de Quinn, que batia calmamente. A mão delicada passou delicadamente pelos fios loiros e repicados, fazendo o contorno das sobrancelhas finas e claras, até chegar à maçã do rosto, descendo lentamente pelo nariz bem desenhado e arrebitado, chegando aos lábios finos. Os dedos iam esquentando a pele fria à medida que o contato era prolongado.
Os olhos castanhos observaram o pescoço marmóreo com algumas marcas arroxeadas de dedos e Rachel fechou os olhos, respirando profundamente para engolir o ódio que sentia e passou a concentrar-se naquele momento. Na sua Quinn. Tantos aparelhos. Tantas máquinas diferentes monitorando-a.
A baixinha logo buscou a mão da namorada, onde era visível o oxímetro no dedo indicador, ligado ao monitor cardíaco, e plantou um beijo na pele fria.
— Meu Deus, Q! Eu quase morri sem você. — Suspirou. — Eu não sei como seria viver em um mundo onde você não estivesse nele. Onde o nosso amor não estivesse nele. — Sentia a dor na garganta enquanto tentava prender o choro. — Nosso amor é tão puro e tão sólido. Acho que se um dia eu passar a não ver mais o seu rosto eu morreria no mesmo segundo — Soluçou. — Eu preciso tanto de você. Preciso do seu olhar mágico, dos seus beijos incandescentes e das suas palavras que me atravessam como um raio em meio à chuva. Eu amo tanto você e só de cogitar a possibilidade de nunca mais sentir a sua pele, ou o seu cheiro, eu entro em desespero, e essa sensação...essa sensação é tão agonizante e tão dolorosa que eu não consigo descrever. Eu estou aqui e eu amo você. Vou cuidar de você e vamos permanecer sendo as únicas no mundo uma para a outra. Eu prometo, meu amor. — Beijou novamente a mão pálida.
A morena passou minutos apenas encarando o rosto sereno, pensando em como alguém poderia ser tão linda, e em como iria ser difícil dormir longe da namorada. Pensou também no futuro. Em como faltava pouco tempo para o aniversário de Quinn e em como logo depois fariam cinco anos de namoro. Sua mente vagou adiante, imaginando um casamento e filhos.
Rachel com toda a certeza gostaria de ter um filho com os olhos de Quinn.
Uma enfermeira apareceu minutos depois, avisando que a morena teria de se retirar.
Rachel apenas assentiu, e antes de se levantar aproximou o rosto da namorada.
— Se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo... — Sussurrou. A boca próxima à orelha da maior. — Eu amo você. — Se retirou em seguida.
A morena sentia o vazio de não estar mais com a loira enquanto caminhava até a sala de espera. Seu coração havia ficado na UTI e Rachel já contava os segundos para voltar lá.
— Como ela está? — Frannie indagou assim que avistou a cunhada.
— Ela está... — Respirou fundo. — Pálida, muito pálida, e parece tão sem vida. — As lágrimas voltaram a correr livremente.
Puck aproximou-se e abraçou a amiga. Santana e Brittany repetiram o gesto e logo os quatro abraçavam-se fortemente por longos minutos. Compartilhavam da mesma dor e ao mesmo tempo do alívio por saber que Quinn não iria deixá-los.
— Estrelinha. — Hiram aproximou-se após os amigos se separarem do afeto. — Você precisa descansar. Hoje não há como ver Lucy novamente. Vamos para casa. — Acariciou o rosto moreno.
— Nisso eu preciso concordar com Hiram. — Shelby disse. — Vamos embora.
Rachel apenas concordou com a cabeça e se dirigiu até a saída do hospital acompanhada de todos, todavia, antes que Santana e Puck pudessem sair, foram parados por Kurt.
— Será que eu posso falar com vocês um instante? — Pediu, parando em frente aos dois, observando as outras pessoas saírem pela porta principal.
— O que você quer? — A latina cruzou os braços.
— Nossa, isso está feio. O que houve aí? — Apontou para a bochecha do rapaz.
— Isso não vem ao caso. O que interessa é que Finn ainda está nesse hospital. Mais precisamente no quarto trezentos e seis.
— E por que está nos contando isso? — Santana indagou, arqueando as sobrancelhas.
— Porque talvez vocês queiram passar por lá. — Sugeriu simples.
— Eu sei bem o que você quer dizer com isso. — Puck respondeu. — Mas ele é seu amigo. Por que está fazendo isso?
— Porque ele deixou de ser meu amigo quando fez aquilo. A polícia foi comunicada, mas eu sei que ele sairá impune. — Cruzou os braços.
— Você é bem astuto. Ainda não confio em você, mas agradeço pela informação. — A latina maneou a cabeça em educação.
— Apenas façam o que acharem melhor. — Saiu sem esperar uma resposta.
— Então... — Puck virou-se para a amiga. — Quer ir lá?
— Vamos logo. — Saiu andando na frente, indo em direção aos quartos.
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