O Preço da Volta
17 Capítulo 17 - Flashback: Sensações...
Notas iniciais
O céu estava em uma coloração cinza naquela manhã de segunda-feira.
Não nevava e o sol resolveu aparecer, porém fazia frio, e as folhas possuíam gotas de orvalho sobre sua superfície.
A garotinha de dez anos passou as mãos na blusa branca de mangas longas com listras pretas em horizontal, arrumando-a dentro do macacão jeans, afivelando-o em seguida. Sentou-se em sua cama e calçou o velho par de tênis, lembrando mentalmente da técnica do coelho, segurando os lados do cadarço já dobrados como duas orelhas e passando o de cima sobre o de baixo e os puxando em seguida, formando um laço.
Sorriu com o feito e levantou-se, olhando seu rosto delicado e pálido no pequeno espelho preso no armário de madeira. Os cabelos dourados e macios batiam em seus ombros e como de costume não estavam penteados. A pequena Quinn odiava os pentear.
A porta do quarto foi aberta e mais duas garotinhas entraram.
A morena de traços latinos possuía cabelos negros, assim como os olhos e trajava um par de tênis parecido com o de Quinn, todavia de outra tonalidade e um vestido floral sob uma jaqueta jeans. A outra, um pouco maior e de longos cabelos loiros mais claros, calçava um par de sapatilhas cor de rosa e um vestido de mangas longas e com estampas de animais. Olhava para Quinn com os grandes olhos azuis inocentes e brilhantes, combinando com o sorriso que sempre carregava.
— Bom dia, little lamb. — A loirinha aproximou-se, abraçando Quinn fortemente.
— Bom dia, Britt. — Respondeu, sorrindo timidamente.
— Bom dia. — A pequena latina curvou os lábios grossos em um sorriso, aproximando-se. — Soube da notícia?
— Não. — Negou com a cabeça franzindo as sobrancelhas. — Qual?
— Hoje chegarão os novos órfãos por causa do excesso de gente no outro orfanato. — Explicou calmamente. — Puck estava ouvindo a conversa da Madre Abbigail no telefone e parece que virão muitas crianças. Teremos novos colegas de quarto.
— Espero que sejam legais pelo menos. — Suspirou.
— Eu também. — A latina assentiu. — Vamos tomar café antes que aquela bruxa apareça aqui. — Fez uma careta.
Quinn apenas assentiu e saiu junto com as amigas do pequeno quarto, passando pelo corredor extenso com diversas portas em suas laterais, descendo as escadas e indo para o refeitório.
O lugar era espaçoso e as mesas retangulares eram brancas e compridas. Crianças de todas as idades estavam espalhadas pelo local e logo as garotinhas avistaram o garoto alto e esguio com o cabelo estranho sentado mais afastado.
As três logo acomodaram-se junto à ele depois de estarem com as bandejas do café da manhã em mãos. Quinn sentou-se ao lado do amigo, de frente para Brittany e Santana.
— Então, cabelo de guaxinim, mais alguma novidade sobre os novatos que irão chegar? — A latina indagou, mastigando os ovos mexidos.
— Apenas as de hoje mais cedo, Satã. — Respondeu bebendo do suco amarelo. — Ei, está vendo aquela menina ali? — Puck cutucou Quinn, apontando para uma garota com cabelos ruivos e pele pálida que conversava com uma morena de cabelos lisos. Aparentava ter a mesma idade do garoto.
— Sim. O que tem ela? — Olhou para o amigo confusa.
— Ela não é bonita? — Suspirou sorrindo. — Seu nome é Alice.
— Eu não sei. — Coçou a nuca encabulada. — Ela é normal. — Deu de ombros.
— Sempre esqueço que você só tem dez anos. — Revirou os olhos.
— Como se você fosse muito mais velho. — A latina intrometeu-se. — E garotas não são bonitas.
— Você é uma garota. — Quinn respondeu revirando os olhos.
— Mesmo assim. Não acho as outras garotas bonitas. — Deu de ombros.
— Eu não sou bonita, Sant? — Brittany olhou para a amiga com a expressão triste.
— BrittBritt, você é um unicórnio, lembra? — Santana sorriu docemente. — E unicórnios são especiais e mais bonitos que os humanos comuns.
— Então quer dizer que sou bonita? — A loirinha sorriu largamente.
— Muito bonita, Britt. — Assentiu convicta.
Brittany sorria lindamente. A loirinha inclinou-se e depositou um longo beijo na bochecha da latina, que corou no mesmo segundo. Puck soltou uma risadinha e Quinn fez uma careta de nojo.
— Isso é nojento. — Quinn comentou, desviando seus olhos para seu prato.
— Quando você sentir isso, irá saber que não é nojento. — Puck murmurou, atraindo a atenção da amiga e piscando o olho.
Quinn negou a cabeça, perdida em pensamentos, imaginando como seria a sensação que Santana estava sentindo enquanto observava o rosto avermelhado da amiga.
A garotinha dispersou tais pensamentos quando deu-se conta do quão diferente das outras ela era. E do quão a Madre Abbigail disse-lhe que era anormal. Definitivamente não sentiria tais sensações.
Definitivamente Quinn estava enganada.
...
O burburinho de conversas não cessavam um segundo sequer. Todos pararam de brincar no jardim quando observaram o ônibus adentrar os portões de ferro do Strawberry Field e fazer caminho até a entrada do enorme prédio.
Logo as portas do veículo foram abertas e diversas crianças saíram para fora. Algumas altas, outras baixas, de diferentes formas físicas e idades.
Quinn observava atenta cada rosto novo, até que a última criança saiu.
Era uma garotinha morena, com longos cabelos pretos lisos e extremamente baixinha. Segurava firmemente um urso de pelúcia gasto contra o peito e encarava o chão enquanto andava.
Santana acompanhou o olhar da amiga e inclinou-se, sussurrando em seu ouvido:
— Lembra dos livros que ganhamos de doação no natal passado? — Perguntou, fazendo Quinn assentir confusa. — Lembra também do Bilbo Bolseiro, nosso personagem favorito, que era um hobbit? — Quinn assentiu novamente. — Acho que essa espécie realmente existe, acabei de ver um. — Apontou para a garota baixinha, fazendo Quinn revirar os olhos.
— Você não é tão alta, Santana. — Quinn bufou.
— Mas essa garota não tem nem um metro de altura, Q. — Revirou os olhos.
— Pare com isso, Sant. — Brittany ralhou. — Ela parece ser legal.
— Você nem a conhece. — Puck manifestou-se.
— Mas ela parece. — Retrucou, dando de ombros e indo até a baixinha desconhecida.
Santana chamou a amiga, mas foi em vão. A latina segurou no braço de Quinn e saiu puxando a loira, que segurou Puck pela manga da camisa e também arrastou o garoto indo na direção de Brittany.
Quando alcançaram a amiga, esta já abraçava a morena baixinha após o que Quinn deduziu ser uma apresentação.
Brittany virou-se sorrindo e apontou para Puck.
— Esse é Noah Puckerman, mas todos os chamam de Puck. — O rapaz sorriu sem jeito, aproximando-se e abraçando a morena, que retribuiu.
— Essa é Santana Lopez. E não ligue para essa careta, ela só quer te colocar medo. Não ligue. — Fez um gesto com a mão, arrancando um riso de Quinn.
— Oras! Eu posso fazer muita coisa. Meus pais eram latinos e normalmente somos intimidadores. — Cruzou os braços.
— Eles talvez fossem, mas você não é. — Quinn retrucou, levando um empurrão da amiga, fazendo a baixinha rir enquanto observava o rosto alvo.
— Pare de falar mentiras. — A latina virou-se para a garota. — É um prazer conhecer você, hobbit. — Sorriu.
— Hobbit? — A morena franziu o cenho.
— É. — Revirou os olhos. — São seres antigos que não passam de um metro de altura.
— Está me chamando de baixinha? — A garotinha cruzou os braços com a expressão irada.
— Alta você não é. — Santana respondeu com desdém.
— Não sou, mas posso bater melhor que muita gente com o dobro do meu tamanho. — Aproximou-se.
Quinn observava a garota com a expressão raivosa, de braços cruzados, com o ursinho preso no meio deles e achou a coisa mais adorável que já vira na vida.
— Você está desafiando Satã Lopez. — Puck olhava tudo incrédulo. — Eu não acredito nisso. — Levantou os braços em comemoração.
— Eu não tenho medo dela. — A baixinha respondeu.
— Deveria ter. — Santana retrucou.
— Tudo bem, já chega! — Brittany interferiu séria. — Santana, pare de tentar intimidar a garota. Ela está em um lugar novo, com pessoas novas e não precisa desse tipo de pressão. — Ralhou, fazendo a amiga descruzar os braços contrariada.
— Britt manda em você. — Quinn sussurrou zombeteira, fazendo Puck ouvir e rir.
— Britt manda em você. — O garoto repetiu, rindo com Quinn e observando a latina ficar irada.
— Britt manda em você. — Ambos disseram juntos, rindo como se não houvesse amanhã.
Santana bufou e empurrou os dois para longe de si, que ainda riam.
— Britt não manda em mim! — A latina bateu o pé raivosa.
— Manda sim. — Puck retrucou.
— Não manda não.
— Manda sim. — Quinn intrometeu-se.
— Parem com isso! — Brittany ralhou novamente, negando com a cabeça. — Parem de irritar a Sant. — Pediu contrariada, virando novamente para a baixinha. — Essa é Quinn. — Apontou para a loira mais baixa. — Só Quinn. E pessoal, esta é Rachel. Só Rachel.
— Você não tem sobrenome? — Rachel perguntou curiosa.
— Não. Eu nunca conheci meus pais. — Respondeu coçando a nuca.
— Nem eu. — Aproximou-se. — É um prazer, Quinn. — Passou os braços em volta do pescoço da maior, abraçando-a fortemente.
Quinn sentiu o corpo pequeno encaixado-se ao seu e por um momento permaneceu estática, saindo de seu torpor segundos depois e rodeando a cintura da baixinha com os braços.
O abraço durou mais do que o normal, enquanto a morena mantinha a cabeça em seu ombro. A loira observava o quão pequena e frágil Rachel era, e de como deveria protegê-la ali. Ela definitivamente o faria. Seriam boas amigas.
O abraço foi quebrado e Rachel sorriu genuinamente para Quinn, que retribuiu no mesmo segundo.
— Pessoal! — A senhora vestindo seu típico hábito apareceu com um sorriso simpático. — Peguem suas coisas e vamos conhecer todo o orfanato. Venham comigo. — Chamou.
— Madre Aurora deve ser a única que não é uma bruxa disfarçada em um hábito. — Santana murmurou, fazendo Puck assentir.
— Nos vemos depois? — Rachel indagou.
— Claro! Espero que fique no nosso quarto. — Brittany respondeu sorrindo.
Rachel sorriu novamente e caminhou até o ônibus, pegando uma mochila que era a metade do seu tamanho.
— Você quer ajuda? — Quinn perguntou. — Eu posso ficar com ela enquanto você conhece o local e depois eu devolvo. Parece pesada. — Coçou a nuca.
Rachel sorriu pelo gesto gentil e em como Quinn coçava a nuca quando estava sem jeito.
— Você não se importa? — Indagou.
— Claro que não. — Respondeu rapidamente.
— Tudo bem, eu vou aceitar. — Entregou a mochila para a maior, que segurou com facilidade.
Quinn possuía mais força e até para si o objeto estava pesado. Rachel com certeza iria sofrer com aquilo nas costas.
— Obrigada. — A menor agradeceu.
— Não precisa agradecer, Rach. — Respondeu, corando pelo apelido dado.
Rachel sorriu mais largamente e ficou na ponta dos pés, beijando-lhe a bochecha demoradamente.
— Até mais, Quinnie. — Saiu correndo atrás das outras crianças.
Quinn manteve-se parada no mesmo lugar. Sua bochecha estava formigando e a loira sentia o rosto pegando fogo. Sorriu timidamente para si mesma e tocou com a ponta dos dedos sua face esquerda. Ela definitivamente entendia a sensação que Santana sentiu mais cedo.
— Ainda acha isso nojento? — Puck aproximou-se com um sorriso, fazendo a amiga corar mais ainda.
— Não é nojento. — Confessou timidamente.
— Você está gostando dela? — Santana aproximou-se.
— Sim, ela será uma boa amiga. — Respondeu.
— Não gostar assim. — A latina revirou os olhos. — Gostar, gostar... entendeu? — Perguntou dando ênfase na palavra.
— O que? — Quinn abriu a boca e fechou algumas vezes, ainda surpresa com a pergunta. — Como eu vou saber? — Deu de ombros.
— Você sabe, todos dizem sobre borboletas no estômago e outras sensações estranhadas. — Santana respondeu.
— Tipo namorar? — Quinn franziu o cenho pensativa.
— Exatamente. — A latina assentiu.
— Não. — Negou com a cabeça. — Isso é nojento. E a Rach não sabe que sou anormal.
— Você não é anormal. — Puck respondeu de imediato.
— Pare de falar isso antes que eu empurre você nessa grama. — Santana completou.
— E eu ajudo. — Brittany cruzou os braços.
— Mas eu não sei se ela vai querer continuar sendo minha amiga depois que eu contar. — Abaixou a cabeça suspirando.
— Ela é legal, little lamb. — Brittany aproximou-se. — Você é normal e ela não vai se importar com isso. — Assegurou, abraçando a amiga.
— Obrigada, Britt. — Sorriu, retribuindo o afeto, sentindo logo em seguida mais braços rodeando-lhe em um abraço grupal.
...
Quinn olhava as outras crianças brincando, rindo esporadicamente quando Santana empurrava algum garoto nas brincadeiras. A mochila de Rachel estava ao seu lado no banco de madeira ao lado dos balanços e logo sentiu um par de mãos em seus olhos, tampando-lhe a visão.
Um cheiro de baunilha invadiu seu olfato, e a loirinha pôs as mãos sobre as que estavam em seus olhos.
— Quem é? — Sorriu timidamente.
— Uma amiga. — A voz fina e alegre respondeu.
— Uma amiga? Então é a Brooke? Não! Talvez a Mary ou a Beatrice? Não sei. — Deu um suspiro de falsa tristeza.
— É a Rachel, idiota. — A morena retirou as mãos de seus olhos.
Quinn piscou algumas vezes para tornar a visão nítida e acostumar-se com a claridade e focou seus olhos na figura baixinha com os braços cruzados na sua frente.
— Conhece tanta gente assim? — Indagou encabulada.
— Não. — Maneou a cabeça. — Eu sabia que era você. Estava apenas brincando.
— Se não soubesse, você iria levar uns bons tapas. — Proferiu. — Eu vim pegar minha mochila para levar ao meu novo quarto.
— Oh, sim. — Levantou. — Eu vou com você. — Segurou a alça do objeto, pondo-a sobre o ombro direito.
Rachel assentiu e abriu um sorriso, adentrando o prédio com a loira, subindo as escadas e andando pelo corredor, parando na penúltima porta da lateral esquerda.
— A Madre Aurora disse que era aqui. — Sorriu.
— Aqui também é meu quarto. — Quinn comentou sorrindo alegremente.
A baixinha não pôde evitar ficar feliz e adentrou o local com a maior atrás de si.
O quarto era pequeno, mas as camas de solteiro eram bem posicionadas e o armário velho e grande de madeira cobria metade da parede ao lado da porta.
Havia cinco camas e três delas possuíam alguns animais de pelúcia sobre as mesmas.
— Qual você quer? — Questionou.
— Qual é a sua? — Rachel perguntou curiosa.
— Aquela. — Apontou para a cama coberta por um lençol cinza com estampa xadrez.
— Então vou querer essa. — Sentou-se na cama ao lado da de Quinn.
A loirinha sorriu timidamente e colocou a mochila sobre a cama.
— Tem lençóis no armário. Você pode escolher o que quiser. — Sentou-se na sua cama, de frente para Rachel.
— Obrigada Quinnie. — Sorriu, abaixando a cabeça.
Quinn sentiu o rosto corar e repetiu o gesto da morena, brincando com os próprios dedos.
— Você quer ser minha amiga? — Quinn indagou timidamente ainda olhando para baixo.
Segundos de silêncio passaram-se e a maior sentiu o colchão ao seu lado afundar. Levantou a cabeça e encarou o rosto moreno com o nariz um pouco grande e os olhos castanhos doces.
— Eu já sou sua amiga. — Sorriu largamente. — Mesmo eu estando aqui há poucas horas, acho que seremos amigas para sempre.
— Para sempre? — Quinn sorriu esperançosa.
— Sim, Quinnie. Para sempre. — Rachel sorriu corada, não muito diferente da loira, que possuía as bochechas vermelhas.
A morena inclinou-se e beijou-lhe a bochecha.
Quinn novamente sentiu as mesmas sensações. E ela definitivamente poderia passar o resto de sua vida sentindo-as.
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