O clima de euforia da manhã dissipou-se como fumaça quando a família se reuniu para o almoço. O Rei Alexander, que não era cego para as trocas de olhares e para o fato de Adrian ter descido as escadas com um sorriso que não cabia no rosto, resolveu colocar as cartas na mesa.


​O Rei limpou a garganta, o som ecoando pela mesa silenciosa.

​— Baronesa, meu filho parece um homem transformado. E como este reino precisa de estabilidade, pergunto abertamente: devemos começar a planejar um casamento real para selar essa união entre os Kane e os Solomon?

​Adrian olhou para Mellyssa, os olhos brilhando de expectativa. Depois do que viveram no quarto, ele sentia que a resposta era óbvia. Mas Mellyssa, recuperando sua máscara de porcelana, soltou uma risadinha seca, cortante como vidro.

​— Majestade, o Príncipe é... encantador em certas áreas — ela disse, sem olhar para Adrian. — Mas um casamento está fora de questão. O testamento do Barão Rossi é claro: se eu me casar novamente, perco o controle de todas as terras, títulos e a fortuna que administro. E eu não pretendo trocar meu império por uma aliança de ouro e o temperamento de um príncipe volúvel.

​O sorriso de Adrian desapareceu instantaneamente. O sangue subiu pelo seu pescoço, tingindo sua pele de um vermelho perigoso.

​— Você está brincando, não é? — Adrian perguntou, a voz baixa e vibrante de fúria. — Depois de hoje cedo, depois de tudo o que você disse e fez... você está me dizendo que eu valho menos que um punhado de moedas e umas terras no sul?

​— Estou dizendo que sou pragmática, Adrian — Mellyssa respondeu, finalmente encarando-o com uma frieza que o atingiu como um tapa. — Eu lutei muito para não ser apenas "a esposa de alguém". Não vou entregar meu poder para me tornar "a esposa do herdeiro".

​— Poder?! — Adrian levantou-se bruscamente, derrubando a taça de vinho, que manchou a toalha branca como sangue. — Eu achei que estávamos construindo algo real! Eu mudei minha vida por você, eu parei de ser quem eu era porque achei que você via o homem que eu posso ser! Mas para você, eu sou apenas um passatempo luxuoso entre uma colheita e outra!

​— Adrian, acalme-se — pediu a Rainha Carolina, assustada com a intensidade do filho.

​— Me acalmar? — Adrian riu, um som amargo e sem alegria. Ele olhou para Mellyssa com um desprezo que ela nunca tinha visto nele. — Você fala de liberdade, Baronesa, mas é a mulher mais escrava que já conheci. Escrava de cofres cheios e de um marido morto que ainda dita as regras da sua cama.

​Mellyssa empalideceu, mas manteve o queixo erguido. — É melhor ser escrava da minha fortuna do que ser escrava dos caprichos de um menino que acha que um beijo no jardim apaga as leis de um império.

​— Ótimo — sibilou Adrian. — Fique com seu ouro. Espero que ele te aqueça à noite, porque a minha porta está trancada para você.

​Ele se virou e saiu do salão a passos pesados. O estrondo das portas duplas batendo ecoou por todo o palácio.

​A Solidão dos Arquivos

​Adrian não foi para a taverna. Ele não queria bebida, queria silêncio. Ele se trancou na Sala de Arquivos, mas não para trabalhar. Ele chutou uma pilha de pergaminhos e jogou um tinteiro contra a parede, vendo a tinta negra escorrer como o ódio que sentia agora.

​— Idiota... — ele murmurou, sentando-se no chão frio, cercado por papéis que agora pareciam inúteis. — Você achou que ela era diferente.

​Ele ficou ali, no escuro, enquanto a fúria se transformava em uma dor surda. Pela primeira vez na vida, Adrian Kane não estava com raiva por não ter o que queria; ele estava com o coração partido por ter descoberto que, para a única mulher que ele amou, ele não passava de um custo-benefício ruim.