O Preço da Liberdade
17 O Quarto do Herdeiro
O silêncio do quarto de Mellyssa era interrompido apenas pelo som rítmico de seus passos. Ela andava de um lado para o outro, as mãos inquietas apertando o tecido fino de seu robe.
— Ouro... — ela sussurrou para as paredes vazias. — Eu lutei tanto por essa independência. Mas de que vale um império se eu sou um deserto por dentro?
Ela fechou os olhos, revendo a imagem de Adrian nos jardins. Não o príncipe debochado, nem o amante cruel, mas o homem que destruiu as próprias mãos para garantir que ninguém a tocasse. A Rainha tinha razão: ele não amava pouco. Ele amava com uma violência que a assustava e a atraía na mesma medida.
Dominada por um impulso que não conseguia mais frear, ela saiu do quarto e atravessou os corredores escuros até a ala de Adrian.
A porta estava apenas encostada. Adrian estava deitado de costas, o peito nu subindo e descendo pesadamente. A mão direita, a que ele usara para esmagar o rosto do Duque, estava envolta em bandagens brancas, já manchadas levemente de sangue.
Mellyssa entrou como uma sombra. Ela subiu na cama com delicadeza, ajoelhando-se ao lado dele. Adrian abriu os olhos, mas não disse nada. Não havia escárnio, apenas uma exaustão profunda. Em silêncio, ela levou a mão ao rosto dele, alisando a linha do maxilar, descendo o polegar pelos lábios dele com uma ternura que ele não via há muito tempo.
Finalmente, a voz dela surgiu, baixa e embargada:
— Ninguém nunca me defendeu daquela forma, Adrian. Nem o Barão, nem meu pai... ninguém. Eu passei a vida sendo um trunfo político ou uma herdeira a ser cobiçada. Mas hoje, você me defendeu como se eu fosse... tudo. Por que, Adrian? Por que chegar a esse extremo por mim, depois de tudo o que eu disse?
Adrian sentiu o toque dela queimar, mas a lembrança da rejeição no almoço ainda era uma cicatriz aberta. Ele desviou o olhar, o maxilar travado. Com um movimento brusco, ele se sentou e se levantou da cama, afastando-se do toque dela.
Ele pegou uma calça de linho no pé da cama e a vestiu, mantendo as costas voltadas para ela.
— Eu fiz o que qualquer homem de honra faria por uma convidada da coroa — ele disse, a voz seca, tentando manter a distância emocional.
— Não minta para mim — Mellyssa disse, aproximando-se. — Você quase o matou. Seus olhos... eles não eram de um "homem de honra". Eram de alguém que estava perdendo a alma.
Adrian se virou, mas manteve-se a dois metros de distância. Ele não queria tocá-la. Ele sabia que, se a tocasse, a possuiria com a mesma brutalidade da última vez, e ele odiava o que aquela versão de si mesmo fazia com os dois.
— Você quer saber o porquê? — ele perguntou, com um sorriso triste e cansado. — Para que você possa colocar isso em uma planilha? "Valor do sacrifício do Príncipe: inestimável, mas não compensa a perda das terras do sul". Não, Mellyssa. Chega de jogos.
— Eu só quero entender o que somos — ela suplicou.
— Nós não somos nada — ele retrucou, a voz ganhando uma firmeza inabalável. — Você deixou claro que sua fortuna e seu título são sua prioridade. E eu não vou mais ser sua "distração noturna" ou o homem que você procura quando sente culpa.
Ele caminhou até a janela, olhando para o horizonte, onde o sol começava a querer nascer.
— Você só me terá de novo, Mellyssa... cada centímetro de mim, cada gota de lealdade... quando você me aceitar como seu marido perante este reino e perante Deus. Quando o seu "império" não for mais importante do que o que temos. Até lá, você é apenas uma Baronesa de passagem pelo meu palácio. E eu sou apenas o príncipe que te salvou de um bêbado.
O peso das palavras dele caiu sobre o quarto como chumbo. Mellyssa sentiu o abismo se abrir entre eles. Ele não estava sendo cruel; ele estava se protegendo. Ele estava exigindo o que ela mais temia dar: sua entrega total.
Ela se levantou da cama, ajeitando o robe com as mãos trêmulas. A distância entre eles naquele momento era maior do que os quilômetros que separavam o palácio das terras do sul.
— Entendo — ela sussurrou, a voz quase sumindo. — Boa noite, Adrian. Espero que sua mão melhore.
— Boa noite, Baronesa — ele respondeu, sem se virar.
Mellyssa saiu do quarto sentindo-se mais vazia do que nunca. Ela tinha o ouro, tinha as terras e tinha a liberdade. Mas, ao fechar a porta, ela percebeu que nunca estivera tão sozinha. Adrian tinha traçado a linha: ou tudo, ou nada. E ela ainda não sabia se tinha coragem para ser tudo.
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