O Grande Salão de Julgamentos estava lotado. O cheiro de incenso e cera de selar pairava no ar, enquanto os representantes do clero, enviados diretamente para avaliar a conduta do herdeiro de Aethelgard, ocupavam os assentos mais altos. O Duque de Valois, com o rosto ainda inchado e enfaixado, exibia suas feridas como troféus de uma suposta injustiça.

​O Rei Alexander e a Rainha Carolina assistiam do trono lateral, rostos pálidos de tensão. Mellyssa estava sentada na primeira fileira, as mãos entrelaçadas com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.

​O Cardeal de Roma, um homem de olhar severo, levantou-se:

— Príncipe Adrian Kane, você é acusado de violência bárbara contra um par do reino. O que vemos aqui não é a justiça de um nobre, mas a fúria de um homem que se suja e arrisca a diplomacia da Igreja por uma... viúva de reputação questionável. Vale a pena manchar seu sangue real por alguém que nem ao menos pertence à sua linhagem oficial?

​Adrian, que estava de pé no centro do salão, com a mão enfaixada escondida sob a túnica, soltou uma risada curta e anasalada. O som do deboche ecoou pelas paredes de pedra, fazendo o clero franzir o cenho.

​— Reputação questionável, Eminência? — Adrian começou, caminhando calmamente, como se estivesse em uma taverna e não em um julgamento. — É fascinante como os senhores, que vivem entre escrituras e silêncio, conseguem enxergar "manchas" na luz do dia. Estão preocupados com o meu sangue real? Meu sangue é feito de ferro e história, não de água benta que se dilui com o primeiro escândalo.

​Ele parou diante do Cardeal, o sorriso sumindo, substituído por um olhar que fez o clero recuar.

​— Os senhores dizem que eu me sujo por uma viúva — a voz de Adrian agora subia de tom, transformando-se no trovão que ninguém conseguia ignorar. — Eu digo que este salão é que está sujo pela presença de um homem que usa títulos para esconder a podridão de um abusador! O Duque de Valois não foi ferido por um príncipe "devasso". Ele foi punido pelo braço da justiça que este tribunal deveria representar, mas que estava ocupado demais contando moedas e favores!

​Adrian virou-se para a multidão, sua voz preenchendo cada canto do salão:

— Mellyssa Solomon é uma mulher deste reino. Viúva, baronesa ou camponesa, ela carrega a dignidade que o Duque tentou arrancar sob o manto da escuridão. Se defender a honra de uma mulher contra um animal é "se sujar", então eu peço que me cubram de lama todos os dias! Pois prefiro ser um príncipe banhado em sangue defendendo a virtude, do que um futuro rei sentado em um trono de ouro fechando os olhos para o crime de um covarde!

​O silêncio era absoluto. O Cardeal parecia de boca aberta, desarmado pela eloquência feroz.

​— Roma nos ensina sobre a proteção dos vulneráveis — continuou Adrian, agora com uma calma mortal. — Valois não é uma vítima. Ele é um câncer na nobreza. E se os senhores o inocentarem hoje, estarão dizendo a cada pai e irmão em Aethelgard que suas filhas e irmãs são propriedade de qualquer Duque bêbado. É esse o veredito que querem levar de volta ao Papa?

​O Cardeal olhou para os outros clérigos. O burburinho no salão era de apoio total ao príncipe. Alexander trocou um olhar de orgulho profundo com Carolina.

​— O tribunal ouviu o bastante — declarou o Cardeal, após uma breve conferência. — A queixa de Roma contra o Príncipe Adrian é retirada. Pelo contrário, diante do testemunho da Baronesa e da confissão implícita no silêncio do Duque, declaramos o Duque de Valois culpado de tentativa de violação e abuso de autoridade. Seus títulos serão revistos e ele será exilado para as terras do norte até que sua alma encontre a penitência. O Príncipe Adrian agiu em defesa da honra, um ato que a Igreja agora exalta.

​A multidão explodiu em aplausos. Adrian não comemorou. Seus olhos foram direto para Mellyssa. Ela estava de pé, os olhos transbordando lágrimas, vendo o homem que a chamara de "irrelevante" semanas atrás se tornar seu maior escudo diante de Deus e dos homens.

​Adrian passou por ela ao sair, sussurrando apenas para ela ouvir:

— Eu fiz o que a honra exigia. Agora, decida se o que você sente exige o mesmo.

​Ele saiu do salão com a cabeça erguida, deixando o reino — e Mellyssa — em completo choque com a grandeza do homem que ele acabara de provar ser.