O sol da manhã entrava pelas frestas das cortinas de veludo, desenhando linhas de ouro sobre os lençóis de seda. Jasmine despertou devagar, sentindo o corpo leve e uma serenidade que nunca havia experimentado. Ao esticar o braço, porém, encontrou o lado da cama vazio e frio.

​Ela se sentou, o coração dando um pequeno salto de incerteza. Será que tudo foi um sonho? Ou pior, será que ele se arrependeu?

​Jasmine se levantou, vestiu um robe de seda bordada que Heitor havia deixado preparado e, após prender o cabelo de forma apressada, saiu do quarto. O castelo parecia imenso e silencioso, mas o perfume de sândalo e o som suave de penas arranhando papel a guiaram até uma porta entreaberta no fim do corredor.

​Era o escritório particular dele. Heitor estava sentado atrás de uma mesa maciça, com óculos de leitura na ponta do nariz, concentrado em uma pilha de mapas e registros de impostos.

​— Procurando por alguém, Duquesa? — ele perguntou, sem tirar os olhos do papel, mas com um sorriso de canto nos lábios.

​Jasmine parou na porta, sentindo um calor subir pelo rosto.

— Pensei que tivesse fugido para a guerra logo cedo.

​Heitor finalmente levantou o olhar. Ele retirou os óculos e recostou-se na cadeira, observando-a com uma ternura que desarmava qualquer insegurança dela.

— Eu jamais fugiria de um lugar onde acordar é o ponto alto do meu dia. Peço desculpas por ter saído sem avisar, mas os negócios do ducado não esperam o sono dos recém-casados.

​Jasmine caminhou até a mesa, observando os documentos.

— São contas da fazenda? — ela perguntou, reconhecendo alguns nomes da vila.

​— São ordens de sementes e novos equipamentos para o seu pai — ele explicou, segurando a mão dela e puxando-a gentilmente para mais perto. — Quero que, quando vocês voltarem lá para visitar, as terras já estejam prontas para o plantio.

​Jasmine sentiu os olhos marejarem. Ela se inclinou e sentou-se no braço da cadeira dele.

— Você não para de trabalhar por nós, não é? Mesmo depois de... ontem à noite.

​Heitor envolveu a cintura dela com o braço, escondendo o rosto na curva do ombro de Jasmine por um instante.

— Ontem à noite foi a minha recompensa por uma vida inteira de solidão, Jasmine. Agora, tudo o que eu faço tem um propósito maior. Eu não estou apenas cuidando de terras; estou cuidando do futuro da minha esposa.

​Jasmine sorriu, sentindo-se protegida.

— Sabe... Rebekah vai ficar insuportável quando souber que o senhor... ou melhor, que você já está comprando as sementes que ela tanto queria.

​Heitor riu, o som vibrando contra o corpo de Jasmine.

— Aquela pequena dama vai mandar neste castelo em menos de uma semana, eu já aceitei meu destino. Mas agora, diga-me... como se sente a nova Duquesa de Martinez em sua primeira manhã?

​Jasmine olhou para o escritório, para o homem à sua frente e para a vida que se abria.

— Sinto que a flor de ferro finalmente encontrou terra boa para crescer — ela sussurrou, antes de se inclinar para um beijo que selava não apenas um contrato, mas uma promessa de vida.

​Heitor fechou os livros de registros.

— Os impostos podem esperar. Vamos tomar café no jardim? Ouvi dizer que as rosas estão abrindo, mas duvido que alguma seja tão bela quanto a que está sentada no braço da minha cadeira.

​— O senhor é um bajulador, Duque — ela brincou, levantando-se.

​— Sou um homem apaixonado, Jasmine. Há uma grande diferença.