O Preço da Flor de Ferro

9 O Segredo Atrás da Porta de Carvalho


O mistério começa a rondar as paredes do castelo. Jasmine é curiosa e observadora, e aquele detalhe não passaria despercebido por ela.

​A tarde no castelo Martinez era silenciosa, quebrada apenas pelo som suave dos passos de Jasmine sobre os tapetes persas. Ela aproveitava a ausência de compromissos para conhecer seu novo lar. O castelo era um labirinto de opulência: quadros de ancestrais com olhares severos, vasos de porcelana e janelas que emolduravam as montanhas.

​No fim de um corredor na ala leste, Jasmine parou diante de uma porta de carvalho escuro, diferente das outras. Não havia adornos, apenas uma fechadura de ferro pesado. Ela girou a maçaneta. Trancada.

​Jasmine franziu a testa. Tentou mais uma vez, forçando o ombro de leve, mas a porta nem sequer rangeu. Por que, em uma casa agora sua, haveria um lugar proibido? O mistério ficou martelando em sua mente enquanto ela voltava para a ala principal.

​Um Jantar em Família

​Na sala de jantar, a atmosfera era muito mais leve. O cheiro de carne assada com ervas preenchia o ar. Heitor estava sentado à cabeceira, mas sua postura era relaxada, ouvindo atentamente as histórias de José sobre a ferraria.

​— Então eu disse ao mercador: "Se o senhor quer uma espada que não quebre, precisa pagar o preço do aço legítimo!" — contava José, rindo alto enquanto gesticulava com um pedaço de pão.

​— E ele pagou? — perguntou Heitor, divertido.

​— Pagou cada moeda de cobre, Vossa Graça! — respondeu José, corrigindo-se logo em seguida — Digo... Heitor. Ainda é difícil me acostumar.

​— Pois acostume-se, meu sogro. Aqui somos família — disse Heitor, voltando o olhar para Jasmine, que acabara de se sentar. — Você parece distraída, querida. O castelo é grande demais para uma tarde só?

​Jasmine forçou um sorriso, tentando afastar a imagem da porta trancada.

— É apenas... muita informação para processar. As alas são imensas.

​— O castelo tem esconderijos! — Rebekah exclamou, com o rosto levemente sujo de purê. — Eu achei um armário onde cabem dez pessoas! Jasmine, a gente pode brincar de esconde-esconde amanhã?

​— Talvez, pequena — respondeu Jasmine. — Mas tome cuidado para não se perder.

​— Eu não me perco! O senhor Duque disse que eu posso ir em qualquer lugar, não foi? — Rebekah olhou para Heitor com olhos pidões.

​Heitor hesitou por um milésimo de segundo, um brilho fugaz cruzando seus olhos antes de responder:

— Quase qualquer lugar, Rebekah. Há partes do castelo que são antigas e podem ser perigosas para uma menina curiosa.

​Jasmine captou o tom.

— Como a porta trancada no final do corredor leste? — perguntou ela, soando mais casual do que se sentia.

​O tilintar dos talheres pareceu soar mais alto por um instante. Heitor manteve o sorriso, mas sua voz baixou um tom.

— Aquela porta guarda apenas memórias e poeira, Jasmine. Coisas de um passado que não pertence a este novo tempo que estamos construindo.

​— Memórias de quem? — a pequena Rebekah insistiu, sem perceber o peso da pergunta.

​Açucena interveio rapidamente, percebendo a mudança na energia da mesa.

— Rebekah, deixe o Duque jantar em paz. Olhe, há torta de maçã vindo para a sobremesa.

​— Torta! — a menina comemorou, esquecendo o assunto imediatamente.

​O jantar continuou com risadas e conversas sobre as novas sementes e o futuro da fazenda, mas Jasmine notou que Heitor mudou de assunto com uma habilidade de mestre. Ele era atencioso, sim, e um marido impecável, mas aquela porta trancada agora tinha um nome para ela: O Passado.

​E Jasmine, que enfrentara o fogo para salvar sua família, sabia que não conseguiria descansar até descobrir o que Heitor Martinez tanto queria manter escondido sob sete chaves.