O Preço da Flor de Ferro
12 A Queda da Flor de Ferro
O ar no corredor leste estava denso, quase impossível de respirar. O som dos passos pesados de Heitor ecoava atrás de Jasmine, como um trovão que precede a tempestade.
Jasmine corria, a saia de seda chicoteando contra as suas pernas, as lágrimas embaçando sua visão. Ela não queria mais explicações; ela queria a prova da sua humilhação. Mas, antes que pudesse alcançar a maçaneta da porta de carvalho, a mão de Heitor fechou-se em torno de seu pulso com uma força que ela nunca tinha sentido.
— PARE! — o rugido dele sacudiu as paredes. — Você não vai entrar lá!
— Me solte! — Jasmine lutou, tentando se desvencilhar, seu rosto a centímetros do dele. — Você é um mentiroso, Heitor! Você me comprou para ser um fantasma!
— Eu te dei tudo! — ele gritou de volta, o rosto transformado por uma agonia que parecia loucura. — Eu reconstruí sua vida! Por que você não pode simplesmente me deixar em paz com o meu passado?
— Porque eu sou sua esposa, não sua propriedade! — Jasmine deu um solavanco violento.
No meio do caos, da respiração ofegante e do movimento brusco de ambos, Heitor, em um ímpeto cego de impedir que ela avançasse, tentou empurrá-la de volta para o centro do corredor. Mas a força foi desproporcional. Jasmine, pega de surpresa, perdeu o equilíbrio.
O tempo pareceu congelar por um segundo. O corpo dela foi arremessado para trás, e o som que se seguiu foi seco e aterrorizante: o impacto da cabeça de Jasmine contra o rodapé de mármore de uma das pilastras.
O silêncio que caiu sobre o corredor foi imediato e mortal.
Jasmine ficou estática no chão. Por um momento, o mundo girou em tons de cinza. A dor latejante na nuca era como um prego sendo martelado. Heitor, os olhos arregalados e as mãos ainda estendidas no ar, empalideceu.
— Jasmine? — a voz dele saiu como um suspiro quebrado. — Jasmine, meu Deus... eu não...
Ele se jogou de joelhos ao lado dela, as mãos trêmulas tentando tocá-la, mas parando no ar, temendo ter causado um dano irreversível.
— Jasmine, me perdoe... eu não queria... por favor, fale comigo!
Jasmine abriu os olhos devagar. O toque dele, que antes lhe trazia conforto, agora parecia o toque de uma serpente. Ela sentiu o líquido quente escorrendo por trás da orelha — sangue. A dor física era imensa, mas a dor de perceber com quem ela havia se casado era devastadora.
— Não toque em mim — ela sussurrou, a voz carregada de um veneno que Heitor nunca ouvira.
— Jasmine, deixe-me ver a ferida, eu vou chamar o médico...
— NÃO TOQUE EM MIM! — ela gritou, reunindo forças que não tinha para se levantar, apoiando-se na parede. O mundo oscilou, mas ela não permitiu que ele a segurasse.
Ela olhou para Heitor, e o olhar dela não era mais de raiva. Era de horror puro.
— Meu pai tinha razão... o ferro quebra sob muito peso. Mas o senhor... o senhor não é o ferro, Heitor. O senhor é a ferrugem. O senhor é exatamente o monstro que eu temia que fosse.
Heitor estava paralisado no chão, as lágrimas escorrendo por seu rosto sujo de desespero.
— Jasmine, por favor... foi um acidente... eu nunca...
— Acidentes não acontecem quando há respeito — ela disse, limpando o sangue do rosto com a manga do vestido branco, agora manchado de escarlate. — Você me comprou, e agora acha que tem o direito de me quebrar.
Jasmine deu as costas a ele, cambaleando. Cada passo era uma agonia, mas a vontade de estar longe dele era maior. Ela arrastou-se até o quarto de hóspedes que vinha usando desde a primeira briga, entrou e girou a chave.
O som da tranca ecoou pelo castelo.
Do lado de fora, Heitor caiu com a testa contra o chão frio do corredor, soluçando como um homem que acabara de perder a alma. Dentro do quarto, Jasmine se encolheu no chão, encostada na porta, sentindo o latejar da ferida e o frio da solidão. Ela não era mais a noiva encantada, nem a filha esperançosa. Ela era uma prisioneira em um castelo de mármore, casada com um homem que, em um acesso de fúria, revelara as sombras que tentava esconder.
A porta trancada agora não era a de Katherine. Era a dela. E, desta vez, ela não pretendia abrir para ninguém.
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