O jardim, que antes parecia um refúgio, agora era o único lugar onde Jasmine conseguia respirar sem sentir o peso das paredes do castelo. Ela estava sentada em um banco de pedra, com um curativo discreto escondido sob o cabelo, observando as flores que Heitor prometera que seriam dela.

​O silêncio foi quebrado pelo som de passos sobre o cascalho. Maurício Martinez aproximou-se com seu habitual sorriso enviesado, carregando uma maçã e um canivete de prata.

​— Uma cena adorável — disse Maurício, sentando-se ao lado dela sem pedir licença. — A Duquesa ferida em seu jardim de vidro. Soube do seu... "incidente" no corredor. Heitor sempre teve mãos pesadas quando contrariado.

​Jasmine não desviou o olhar das rosas.

— O que você quer, Maurício? Veio conferir o estrago ou apenas destilar mais veneno?

​Maurício descascou uma fatia da maçã com precisão cirúrgica.

— Vim lhe oferecer companhia. Sei como é solitário viver com um homem que habita o passado. Katherine também odiava o silêncio deste lugar. Ela costumava dizer que este castelo devorava a vida das pessoas.

​Jasmine virou-se para ele, a curiosidade lutando contra o orgulho.

— Você fala dela como se a conhecesse melhor do que o próprio marido.

​— Talvez eu conhecesse. — Maurício deu uma mordida na fruta, mastigando devagar. — Heitor a amava como um colecionador ama uma peça rara. Ele a queria trancada, protegida, intocada. Mas Katherine... ah, Katherine tinha fogo no sangue. Ela não era uma "flor de ferro" como você, Jasmine. Ela era um incêndio indomável.

​— E o que aconteceu com esse incêndio? — Jasmine perguntou, a voz quase um sussurro. — Por que ele se tornou esse segredo trancado a sete chaves?

​Maurício inclinou-se para mais perto, o olhar subitamente sombrio.

— Digamos que nem todo incêndio é causado por um acidente, cunhada. Na noite em que ela se foi, os gritos que vinham daquele quarto...

​Ele parou abruptamente, o canivete parando no meio do movimento. Jasmine prendeu a respiração, o coração batendo na garganta.

​— Que gritos, Maurício? O que Heitor fez?

​Maurício olhou para a entrada do castelo e fechou o canivete com um estalo seco. O sorriso de deboche voltou ao seu rosto como uma máscara.

​— Melhor não. Eu já falei demais por hoje, e meu irmão tem ouvidos em todos os lugares. — Ele se levantou, limpando as mãos no lenço de seda. — Só lhe darei um conselho, Jasmine: não procure a verdade se você não estiver pronta para o que vai encontrar nas cinzas. Katherine descobriu que o amor de Heitor pode ser mais sufocante do que o próprio ódio.

​— Maurício, espere! — ela chamou, mas ele já se afastava, assobiando uma melodia fúnebre.

​Jasmine ficou sozinha, a mão tremendo sobre o colo. As palavras dele ecoavam em sua mente: nem todo incêndio é causado por um acidente. O mistério daquela porta trancada agora ganhava contornos mais sinistros. Ela olhou para as próprias mãos, as mesmas mãos que Heitor beijara com tanta devoção, e sentiu um calafrio.

​Seria possível que o homem que a salvara da miséria fosse o mesmo que apagara a vida de Katherine? A dúvida, agora plantada, crescia mais rápido que qualquer rosa naquele jardim.