O Preço De Uma Mentira
9 Capítulo 9
Notas iniciais
O ar frio a surpreendeu e sentiu um calafrio. Jake, que a esperava de pé com as mãos nos bolsos, deu-se conta e abriu rapidamente a porta de passageiro. Tinha deixado o motor ligado e o carro estava quente quando iniciaram a viagem. O jipe subia pela ladeira nevada sem nenhuma dificuldade.
Quando chegaram ao mirante, pôde comprovar que a vista, tal e como Jake tinha prometido, era impressionante. Mas Gina, muito atenta ao homem que havia ao seu lado e sufocada de excitação, quase não pôde desfrutar dela.
Tomando seu tempo, seguiram pela estrada até chegar ao complexo do Sky Windows, situado em uma espécie de patamar. Além do restaurante giratório, contava com uma zona de butiques e bares e com um largo terraço, onde os veranistas podiam sentar-se ao sol e desfrutar de uma taça de vinho. Nesse momento o terraço estava deserto e coberto por um tapete de neve.
Quando saíram do carro, Gina notou que a luminosidade da manhã estava desaparecendo e que o céu começava a cobrir-se de nuvens pelo horizonte.
O restaurante circular parecia cheio, mas, depois de saudar Jake por seu nome, o chefe dos garçons os conduziu a uma mesa reservada, junto à janela.
— Quer um Martini seco? — ofereceu Jake.
Perguntando-se por que teria escolhido precisamente essa bebida, Gina esteve a ponto de decliná-la, mas pensou melhor. E se lhe estava estendendo uma armadilha?
— Eu adoraria — repôs com calma.
— Claro, que se preferir outra coisa... — Jake arqueou uma sobrancelha ligeiramente, como se tivesse notado que duvidava. — Uma vez conheci alguém que odiava o vermute.
— Não, não, eu adoro — assegurou ela, falsamente.
As bebidas chegaram rapidamente e, tentando não estremecer de asco, Gina deu uns goles à sua enquanto estudavam o menu e pediam a comida.
O tom de Jake ao dizer « Uma vez conheci alguém que odiava o vermute» a tinha intranquilizado ainda mais. Parecia que tentava lhe fazer morder o anzol. Tensa e preocupada, sentindo-se como se fosse uma peça de uma intensa partida de xadrez ou de uma batalha de inteligência, esperava que ele fizesse o seguinte movimento.
Enquanto comiam, Jake, como se notasse a ansiedade de sua acompanhante, manteve a conversa leve e impessoal, falando com conhecimento sobre o local e sua instável climatologia.
— Este local tem um clima muito distinto desta parte do país... — interrompeu-se e perguntou. — Não estou te aborrecendo?
Ela negou com a cabeça. Relaxada e feliz por poder escutar sua atraente voz e observar seu belo e anguloso rosto, teria seguido ali sentada toda uma vida.
— Por que este lugar em particular?
— Porque, como Buffalo, está perto de um lago. Às vezes sofremos tempestades de neve inesperadas; tormentas de neve que obstruem as estradas, isolam às pessoas em suas casas e paralisam tudo...
Inconscientemente, ficou rígida. Conhecia essas tormentas de neve. Uma delas tinha mudado sua vida por completo. Nesse momento chegou o café, e ela aproveitou a oportunidade para trocar de tema.
— Viveu sempre em São Francisco?
— Meu pai trabalhava no serviço diplomático e quando era pequeno viajávamos muito. Nasci em Carmel, eduquei-me em Oxford e morei na Suíça durante um tempo. Quando voltei para os Estados Unidos, descobri que eu gostava deste lugar. Agora, claro, venho com frequência. Trouxe a minha namorada várias vezes —acrescentou com despreocupação, — sobretudo no inverno. Sara é uma excelente esquiadora.
Falava como se Sara ainda fosse parte de sua vida. Gina, com a taça na mão, ficou paralisada. Estava trabalhando um mês para Jake e era a primeira vez que mencionava Sara.
— Por que essa cara de surpresa? — perguntou ele, com um brilho em seus olhos verdes.
— Não sabia que está comprometido — disse ela com dificuldade.
— Na primeira entrevista de trabalho que tivemos, deu-me a impressão de que contava com que fosse casado.
— Bom, eu... suponho que eu imaginei isso porque a senhora Amesbury me disse que era divorciado ou viúvo...
— Como já disse então, nem um nem outro. De fato, já nem sequer estou comprometido…
Gina sentiu um alívio doentio. Não estava segura de poder trabalhar para ele e vê-lo casado com outra mulher, nem sequer para estar com Suzannah.
— Tinha planos de me casar, mas minha namorada, quer dizer, minha ex-namorada, mudou de idéia umas semanas antes. Pode ser que uma das razões fosse que eu queria adotar Suzannah quando casássemos. Possivelmente, no último momento, Sara decidiu que não podia cuidar da filha de outra mulher.
— Não, impossível, não podia ter sido isso!
— Parece que não está de acordo. Não esqueça que nem todo mundo gosta de crianças tanto como você — disse, cáustico.
Gina, profundamente ferida, não interveio.
— É obvio, a avó de Suzannah a queria com loucura... — franziu o cenho. — Heather adorava o filho e quando ele morreu só ficou Suzannah, assim, em certo sentido, asfixiava a menina com seus cuidados. Inclusive depois de sofrer o primeiro enfarte, quando lhe recomendaram que tomasse as coisas com tranquilidade, negou-se a contratar uma babá e insistiu em ocupar-se ela sozinha de tudo.
— Suzannah deve sentir a falta dela — disse Gina com voz grave.
— As crianças têm muita capacidade de recuperação, graças ao Senhor, e Suzannah é bastante extrovertida e independente, mas acredito que já sofreu muitas mudanças — terminou a xícara de café antes de continuar. — Quando te perguntei o que considerava o mais importante na vida de uma criança, disse: «Segurança e carinho...». Estou de acordo contigo e, a partir de agora, custe o que custar — seu rosto se retorceu, — penso dar a ela toda a estabilidade que necessita...
— Querem mais café, senhores? — perguntou um garçom.
— Não obrigado — Gina negou com a cabeça.
— Não, a conta, por favor — Jake olhou seu relógio de pulso e em seguida a Gina. — É melhor irmos andando, ou não poderemos ver nada mais antes que escureça.
Enquanto conversavam o restaurante foi se esvaziando, e quando Jake pagou a conta eram quase os últimos.
Em contraste com a brilhante iluminação do edifício, o céu estava cinza e triste. Levantou-se vento, e uma rajada de neve lhes golpeou o rosto enquanto iam para o carro. Os poucos carros que saíam do estacionamento se dirigiam para baixo.
— Possivelmente seja melhor que voltemos já — sugeriu ela com apreensão.
— Acredito que temos tempo de chegar a Prospect Point. De lá se pode ver a cascata Bright Angel — disse ele, olhando o céu cinzento. Embora nervosa, ela se disse que seria uma tolice discutir; Jake conhecia bem o clima dali.
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