Notas iniciais
Olá meninas como vão? Aqui vai mais um capítulo que vai contar um pouco do passado de Gina, espero que gostem. Obrigada pelos recadinhos e por acompanharem a fic, bjs

Aquela época foi terrível. Sob pressão e uma grande tensão emocional, muito doente para pensar com claridade, fizera o que considerou melhor: para a menina, para a mãe de Brady, que estava desolada pela morte de seu filho, e para Jake e a mulher com quem pensava casar-se. Sempre se arrependeu de sua decisão, e tinha vivido com a esperança de que algum dia, de algum jeito, as coisas mudariam...

Ainda recordava o trauma que lhe produziu despertar no hospital sem saber quem era ou como tinha chegado ali, que a cuidassem médicos e enfermeiras que falavam e a tratavam como se fosse um objeto inanimado, mais que uma pessoa. Depois, quando seu cérebro começou a clarear, começou a recordar algumas coisas, como peças soltas de um quebra-cabeça... Brady, desolado depois de sua visita ao hospital... Uma festa de Natal... Subir ao carro... Conduzir, apesar de que estivesse grávida, porque Brady tinha bebido... Grávida... Sob os lençóis brancos, suas mãos se deslizaram pelo estômago plano. Com um ataque de pânico começou a gritar roucamente.

— Enfermeira... enfermeira...

— Que bom que por fim está completamente consciente — disse a enfermeira, inclinando-se para ela.

— Meu bebê — soluçou —, o que aconteceu ao meu bebê?

— Não se preocupe, sua filha nasceu no hospital. Pesa três quilos e meio e é perfeita.

Chorou de alívio, as lágrimas sulcaram as bochechas de um rosto que percebia rígido e estranho. Brady estaria encantado. .. Ele queria uma menina...

— Onde está? Posso vê-la?

— Não estava em condições de se ocupar dela, assim sua sogra a levou a casa.

— Que ocorreu? — perguntou Gina. Ao passar a mão pelo rosto para limpar as lágrimas, tinha notado que suas feições eram diferentes, e tinha nódulos de cicatrizes...

— Sofreu um acidente de carro, mas não há nada que não possa arrumar-se com um pouco de cirurgia plástica, assim que esteja mais forte.

— Brady... meu marido... Onde está? Está bem?

— Sinto muito — disse a enfermeira, movendo a cabeça de lado a lado.

— Quer dizer que morreu?

— Sinto muito — repetiu a enfermeira. — O carro patinou e se estrelou contra um dos pilares da ponte. Morreu instantaneamente...

Então nunca tinha chegado a ver o bebê que tinha aceitado como dele... Pobre Brady... E pobre Heather...

— Sua mãe... como o recebeu a notícia ? — inquiriu Gina, começando a chorar de novo.

— A princípio a senhora Arkeman passou muito mal, mas já teve tempo para aceitá-lo e as coisas melhoraram um pouco. E, é obvio, o bebê deve ser um grande consolo para ela.

«Já teve tempo para aceitá-lo...»

— Quanto tempo estou inconsciente? — perguntou Gina, levando uma mão à cabeça.

— Teve uma fratura de crânio, esteve em coma quase cinco meses...

— Cinco meses!

— Tem sorte de estar viva — disse a enfermeira sobriamente. — Depois de chocar-se contra a ponte, o carro deu um cambalhota e ficou esmagado ao rodar por uma ladeira. Ficou presa em seu interior. Quando lhe tiraram, deram-lhe por morta. Felizmente, trouxeram-lhe para o hospital rapidamente para tentar salvar ao bebê.

Ou seja, que sua menina, que nunca tinha visto, tinha cinco meses...

— Falarei com a senhora Arkeman que recuperou a consciência. Será um grande alívio para ela; embora não pôde vir para vê-la, telefonou quase todos os dias para perguntar se havia alguma novidade — com certo acanhamento a enfermeira prosseguiu. — Suponho que não tinha mais familiares. Além de seu cunhado, claro...

— Ele há...?

— Bom, não... tenho entendido que esteve muito ocupado — depois acrescentou, mais alegre. — Mas é quem paga sua estadia em uma das melhores suítes, e todos os gastos médicos...

Desagradou-a pensar que não era mais que uma carga financeira para um homem que a odiava tanto que nem sequer tinha ido visitá-la no hospital.

Heather chegou umas duas horas mais tarde e Gina se impressionou quão terrível estava à aparência dela. Tinha passado de ser esbelta, elegante e juvenil, para parecer encolhida, velha e enfraquecida.

— Querida, que posso dizer? Além da menina, tudo foi como um pesadelo — murmurou, tomando a mão de Gina entre as suas. Sem lhe dar tempo a formular a pergunta acrescentou. — Não a trouxe... A pobrezinha está gripada e não me pareceu boa ideia tirá-la de casa — continuou precipitadamente. — O médico me disse que agora que recuperou a consciência poderá voltar para casa muito em breve.

— O apartamento segue...?

— Devolvi — Heather negou com a cabeça e se ruborizou brandamente. — Estava tão grave que não parecia ter nenhum sentido. Mas agora que ocorreu o milagre... Tem idéia do que vai fazer quando sair do hospital? — perguntou temerosa.

— Não tive oportunidade de pensar ainda.

— Por favor, Gina, veem viver conosco.

— Sinto muito, mas não posso viver na casa de Jake.

— Mas Sara e Jake...

— Sara?

— A noiva de Jake. Vão casar-se no fim de julho. Sei que os dois estariam encantados de que viesse a... — Heather, vendo que Gina iniciava um gesto negativo, continuou com desespero. — Precisa de um lugar onde viver, e não tem meios para manter um bebê... Poderiam passar meses antes que se recupere o suficiente para trabalhar, inclusive para se ocupar dela... Por favor, não a leve. Não sabe quanto desejei ter um neto... — Heather começou a soluçar. — Ela é tudo o que me resta agora que Brady...

— Tem Jake — disse Gina, com voz quebrada.

— Não é o mesmo. Nunca foi meu.

— Mas quando Sara e ele se casarem, sem dúvida haverá mais netos.

— Não, não os haverá... — Heather inspirou profundamente e limpou o rosto com um lenço. — Sara não pode ter filhos. Quando era muito jovem e atordoada, teve um aborto que foi mal... Mas tanto Jake como ela querem um filho e, se algo tivesse ocorrido, pensavam adotar à menina... — Heather viu a expressão de sua nora e ficou pálida. — Oh, não, querida, não pense nem por um momento que desejamos... rezamos por sua recuperação.

Duas semanas depois, depois de dias e noites de angustiantes pensamentos, que lhe provocavam uma febre muito alta, Gina colocou o folgado vestido de gestante e o puído casaco, que tinham lavado e guardado em um armário junto a sua cama, e aproveitou uma mudança do turno de enfermeiras, para sair do hospital.

Caminhava cega e automaticamente, sem saber onde ir; só queria afastar-se o mais possível daquela luxuosa suíte que havia se convertido em uma prisão.

Era uma tarde de maio, fresca e nublada; faiscava brandamente e as gotas brilhavam sobre a calçada. Como sempre, havia bastante trânsito, mas, há essa hora, as pessoas já tinham voltado para casa depois do trabalho e ainda não era hora de jantar, assim não havia muito pedestres nas ruas. Pouco depois começou a chover com força, empapando os ombros de seu fino casaco. Embora seguisse em estado de choque, com um pouco de juízo compreendeu que tinha que encontrar um lugar onde passar a noite.

Não tinha dinheiro na bolsa, só seus cartões de crédito, mas não serviam para nada se depois não podia pagar a dívida. Pensou em procurar um hotel barato para uma ou duas noites, enquanto tentava encontrar um trabalho. Mas soube imediatamente que seria inútil. Não tinha bagagem e sua roupa estava em mal estado. Não a aceitariam em nenhum hotel.

Tinha percorrido algo mais de um quilômetro, por ruas desconhecidas, quando a fadiga a obrigou a parar e apoiar-se em uma parede. A suas costas havia algo que parecia uma capela, e um pôster preto com letras douradas que dizia «Missão de São Salvador. Morningside Heights. Se tiver fome ou não tem lar, entre». Parecia a resposta a sua preces...