O Preço De Uma Mentira
26 Capítulo 26
Notas iniciais
O ruído de uma porta ao fechar-se devolveu Gina à realidade, Jake apareceu um momento depois.
— Sinto muito ter saído assim — desculpou-se —, mas parecia algo sério.
— Era?
— Poderia ter sido, mas tudo está sob controle. O fogo se extinguiu e um de meus melhores engenheiros está comprovando os danos e a causa do acidente — sentou-se junto a ela e apoiou o braço no respaldo do sofá. — O que pensava quando entrei? Parecia perdida e desolada — comentou, olhando-a.
— Não... não me lembro.
— Vamos, não quer me dizer isso — disse com ironia. — Sempre acreditei que uma esposa não deve ocultar nada de seu marido.
— Ainda não sou sua esposa — apontou ela, com o coração batendo rápido.
— Mas logo será, e quanto antes, melhor — passou-lhe um dedo brandamente pela bochecha, fazendo-a estremecer-se de prazer e, ao ver que não protestava, continuou falando pensativamente. — Não parece ter nenhuma objeção em se casar com um homem ao qual mal conhece.
— Deveria ter?
— Não tenho intenção de me tornar no Barba Azul — sorriu ele.
— Aceitarei sua palavra — disse ela, com rapidez.
— Embora não posso prometer que nunca te confunda com a outra Gina... — acrescentou como se fosse uma advertência. Ela sentiu um calafrio.
— Se sabendo disso, tem a coragem de seguir adiante, eu gostaria que nos casássemos o quanto antes possível. Está de acordo?
Ela assentiu com a cabeça.
— Então voltaremos para São Francisco amanhã e organizarei tudo. Imagino que, como já foi casada, não se importará que seja uma cerimônia discreta.
— Parece-me bem.
— E na última vez?
— A última vez? — repetiu ela alarmada.
— Celebraram um grande casamento?
— Não.
— Mas, foi de branco?
— Não.
— Onde se casaram? Na igreja?
— Foi uma cerimônia civil — replicou ela.
Ele assentiu, como se estivesse satisfeito, e deslizou os dedos sob seu cabelo, para lhe acariciar a nuca.
— Me diga Gina, como era seu marido?
Gina, desconcertada pela súbita pergunta, simplesmente o olhou. Ele arqueou uma sobrancelha.
— Não pode ter esquecido, não?
— Não, não me esqueci — disse com voz rouca. — Só tento não pensar muito no passado.
— Suponho que é natural, era tão jovem quando morreu... Disse-me que foi em um acidente de transito, como meu meio-irmão, não?
— Não. Disse que tinha um tipo de câncer pouco comum — corrigiu ela, e o olhou. Tinha o rosto sombrio e zangado. — Mas preferiria não falar dele, se não se incomodar. Ainda me dói.
— Depois de tanto tempo?
— Sim.
— Aquela noite, em casa, disse-me que lhe tinha tido «carinho». Suponho que ainda o tem, não?
— Sim — disse ela.
— Não sei por que, mas me parece difícil acreditar que o mero carinho possa provocar um sentimento tão forte — com um brilho de desprezo em seus olhos acrescentou. — Se tivesse sido o tipo de obsessão que eu sentia, que ainda sinto, por Gina... — estendeu a mão e começou a brincar com a gargantilha. — Quer que te fale de Gina?
— Já tinha feito isso — disse, gelada.
— Não é que haja muito que contar — prosseguiu ele como se não a tivesse ouvido. — Passamos muito pouco tempo juntos; na realidade só foi um dia e duas noites. Mesmo assim nunca me livrei dela. Não me deixa escapar...
— Não será você que não quer escapar? — Gina desejou ter mordido a língua.
— Não é fácil esquecer a alguém que se odeia. Odiou alguma vez?
— Não — murmurou ela.
— O ódio é uma emoção muito forte. A outra cara do amor.
— o que sei é que pode deformar e destruir a pessoa que o sente — assegurou ela.
— Então, acha que deveria tentar deixar de odiá-la? — inquiriu ele, irônico. Gina não respondeu. — Como me recomenda que consiga?
— Possivelmente não deveria culpá-la de tantas coisas — sugeriu ela com impotência.
— De quais?
— Bom... da morte de seu meio-irmão..., de abandonar Suzannah...
Ele baixou as pálpebras, e seus longos e espessos cílios ocultaram a expressão de seus olhos.
— O que te faz acreditar que a culpo dessas coisas? — perguntou com voz sedosa.
— Você disse — respondeu, sobressaltada.
— O que te faz acreditar que a esposa de Brady e Gina são a mesma mulher?
— Que...O que? — gaguejou ela, sentindo-se como se caísse por um precipício. Ele repetiu a pergunta com voz dura como o aço.
— Imaginei isso pelas coisas que dizia...
— Estou seguro de que não indiquei, em nenhum momento, que fossem a mesma mulher.
— Não sei por que me deu essa impressão... Sinto muito, devo te ter entendido mal. Foi uma estupidez.
— Ao contrário, demonstra que é muito perspicaz. Gina é, ou era minha cunhada. Possivelmente isso seja o que mais me dói. Embora tivesse se deitado comigo, preferiu o meu meio-irmão — seu rosto denotava amargura. — Não me resta dúvida de que, moralmente, era o justo; ao fim e ao cabo foi dele antes que fosse minha.
Gina ficou calada e Jake mudou de tema.
— Tudo isso forma parte do passado, não pode alterar-se. Temos todo o futuro pela frente — disse.
Que tipo de futuro podia ser esse, se casava com ela porque recordava a uma mulher que odiava?, perguntou-se Gina.
— Pode ser que nosso matrimônio não seja o ideal dos contos de fadas, mas com tal de que ambos consigamos o que esperamos... — disse Jake, lendo sua expressão.
— O que espera você deste matrimônio? — perguntou ela, preocupada.
— Uma amante apaixonada, uma esposa agradável, uma mãe para Suzannah e para meus próprios filhos... — replicou ele com afabilidade, embora seguisse zangado. — E você, Gina, que espera deste matrimônio?
— Um lar e uma família... — respondeu timidamente.
— Não menciono um marido.
— Isso se subentende.
— Se pudesse pedir uma bênção muito especial, qual seria?
«Pediria que me quisesse». Uma coisa muito simples, mas tão impossível que era como pedir a lua.
— Não sei. Possivelmente a capacidade de contentar-se com o que se tem — disse em voz alta.
— Já vejo que me caso com uma filósofa — declarou rudemente, observando seu perfil. — E uma muito bela — moveu a mão com a qual tinha acariciado sua nuca e, tomando-a pelo queixo, voltou seu rosto para ele.
Tudo em Jake era duro e atraente: a marcada estrutura óssea, o nariz reto, o queixo firme e os lábios finamente desenhados. Tinha a expressão de um caçador, alerta e desumana e, embora o ocultasse, ela percebeu sua ira.
Gina admitiu inconscientemente que tinha medo e se passou a língua pelos lábios. Ele seguiu o movimento com os olhos.
— Por favor, Jake... — murmurou. Estava física e emocionalmente esgotada, só desejava dormir. Ele ignorou sua súplica e inclinou a cabeça para ela.
Tomou seus lábios sem piedade, a ela lhe escapou um suave gemido, e arqueou o corpo como se estivesse a ponto de ser torturada.
Ele a beijou profundamente, explorando e aproveitando-se da doçura de sua boca. Era um beijo selvagem e punitivo; não havia rastro de ternura, só uma espécie de violência controlada, como se tivesse feito viciado em algo que no fundo desprezava.
Mas ela sabia que antes era um amante sensível e terno. Se agora era duro e cruel, ela era a causadora. Essa era uma culpa que devia assumir.
Pouco depois o beijo, ainda apaixonado, fez-se mais suave, procurando e exigindo uma resposta que não lhe pôde negar. Rodeou-lhe o pescoço com os braços e, com o coração transbordante de amor, beijou-o apaixonadamente, enquanto ele começava a acariciá-la.
Quase imediatamente, esqueceu-se de tudo menos do prazer de suas carícias. Já não sentia medo nem apreensão; já não havia nem passado nem futuro, só o presente.
— Pronta para ir para a cama? — sussurrou Jake em seu ouvido. Ela assentiu e se levantou. Jake foi ver se Suzannah estava bem e depois foi ao banheiro do quarto de hóspedes, enquanto Gina, no banheiro do dormitório, tomava banho e se preparava para deitar-se.
Ao olhar-se no espelho se deu conta de que ainda usava a gargantilha de ouro. Os traumáticos acontecimentos do dia se faziam sentir, e tinha o rosto tenso e pálido, os olhos imensamente grandes. Ver-se obrigada a usar a gargantilha a deixou fora do normal. Com ambas as mãos, percorreu cada elo para encontrar o fecho oculto. Não conseguiu.
Se fosse procurar Jake, demonstrar-lhe-ia quanto a incomodava. Decidiu esperar que voltasse e lhe pedir, com despreocupação, que o desabotoasse.
Alguém tinha guardado sua roupa na cômoda. Procurou a camisola mais bonita, a pôs e se meteu na cama para esperar Jake. Quando ele chegou, nu, e se deitou a seu lado, voltou-se para ele com desejo. Pegou uma sedosa mecha de cabelo do rosto e escrutinou seu rosto.
— Foi um dia muito comprido. Parece muito esgotada para fazer outra coisa que dormir em meus braços.
Possivelmente acreditou que seu leve suspiro era de alívio, porque a aproximou dele e fez que recostasse a cabeça sobre seu ombro, como se quisesse confortá-la.
— Jake... — Gina se mexeu inquieta.
— Humm? — olhou-a.
— A gargantilha...
— Disse que não incômodava.
— Não, mas...
— Então relaxe; fica muito bem em você — disse, e a beijou com suavidade.
Mas nem sequer esse gesto serviu para apagar a suspeita de Gina: que ele sabia exatamente que efeito estava tendo sobre ela, e que isso formava parte de seu plano.
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