O Príncipe e o Mercenário - ZoSan
2 Dívida
― Passa tudo bem devagar. Se tentar correr, eu te furo. ― A voz baixa ressoou pelo beco. O homem segurava uma faca contra o pescoço do civil, azarado o suficiente para estar no lugar errado na hora errada.
Suas mãos trêmulas esvaziavam os bolsos, entregando seus pertences diante do contato da lâmina fria na sua pele. Assim que foi solto, cambaleou às pressas, correndo pela rua vazia, tentando se afastar antes que o ladrão mudasse de ideia.
O ladrão, por sua vez, contou o dinheiro. Seu sorriso ia de uma orelha a outra. Estava arrependido de não ter mudado sua área de trabalho para a periferia antes, podia ser uma zona mais pobre, mas a falta de guardas deixava o seu trabalho muito mais fácil.
― Hoje à noite vai ser boa ― riu, desejando ter aquela sorte todos os dias enquanto se virava para ir embora.
Mas antes que pudesse deixar o beco escuro, um ruído captou sua atenção.
Virou-se rapidamente. Cerrou os olhos, tentando distinguir de onde havia vindo o barulho e falhando consideravelmente. Agarrou o cabo da faca com força, adentrando mais no beco. Poderia ser só uma ratazana, no entanto também poderia ser alguém que estivesse atrás dele. Estava naquele ramo há tempo o suficiente para saber que as pessoas conseguiam ser muito rancorosas.
À medida que se aprofundava na escuridão, pôde distinguir uma respiração. Não estava sozinho. Com as costas contra a parede ― para evitar que fosse surpreendido ― deu mais alguns passos receosos. Conseguia escutar seu coração disparado.
Sentia o suor escorrendo pela sua testa quando chocou o pé contra alguma coisa, quase caindo de cara no chão.
Forçou a visão, percebendo que havia tropeçado em um corpo. Seus dedos relaxaram em volta do cabo da faca e ele respirou aliviado.
Era só um bêbado, pensou, tentando acalmar seu coração. Andava muito paranóico.
Encarou o homem caído por um tempo, sorrindo consigo mesmo. Não poderia desperdiçar aquela oportunidade.
― Ei. ― Cutucou o bêbado no chão. ― Acorda!
O homem abriu os olhos, piscando lentamente, tentando se adaptar à falta de luz.
― Levanta logo!
O ladrão deu outro chute, acertando a costela.
― Hã?! ― O bêbado se sentou lentamente, passando as mãos pelos cabelos verdes.
― Passa tudo o que você tem, idiot...
Antes que pudesse terminar de falar, o ladrão já estava caído com as costas no chão. Engoliu em seco, os olhos arregalados enquanto encarava a espada que apontava para seu pescoço.
― Dinheiro? Não tenho. ― O espadachim apoiou o coturno de couro desgastado sobre o peito do ladrão, com um sorriso arrogante. ― Por que você não me empresta um pouco?
⚔
Zoro caminhava tranquilamente pelas ruas, assobiando enquanto brincava com sua mais nova companheira noturna: uma bolsa cheia de moedas.
A pouca iluminação da área tornava o lugar mais perigoso, e Zoro até chegou a desejar que mais alguém tentasse assaltá-lo.
Estava com sorte. Quem diria que conseguiria dinheiro tão fácil.
Hoje à noite vai ser boa, pensou enquanto passava pelo batente de uma velha construção, onde uma placa caindo aos pedaços dizia: "O Javali Bêbado".
Alguns clientes olharam na sua direção enquanto caminhava até uma mesa mais afastada. Alguns rostos eram vagamente familiares, de outras vezes que esteve ali.
Largou o corpo em uma cadeira velha, que rangeu com o peso, levantando a mão para chamar o garçom.
― O que você quer? ― o homem de baixa estatura perguntou secamente, avaliando-o de cima a baixo.
― Uma cerveja.
Ao ver a dúvida no rosto do garçom, Zoro jogou a bolsa de moedas em cima da mesa e o tilintar preencheu o silêncio, fazendo o garçom sorrir enquanto passava a mão pela cabeça raspada.
― Como o senhor deseja.
Zoro observou o homem se afastar e voltar com uma garrafa de cerveja gelada na mão.
É disso que eu estou falando, pensou enquanto bebia diretamente da garrafa, sentindo a cerveja escorrer pelo canto dos lábios. Aquilo era o paraíso.
Estava terminando a quinta garrafa quando um ponto laranja chamou sua atenção para a entrada.
A mulher olhou em volta e, quando o avistou no canto do bar, caminhou até ele.
― Você já está bebendo de novo? ― Sentou-se de frente para Zoro, chamou o garçom e fez seu pedido. ― Você não sabe fazer outra coisa?
― Não enche ― resmungou, recostando-se na cadeira. ― Como está a missão?
― Até agora tudo bem. Mas vamos precisar ficar um tempo por aqui. O reino Germa 66 é bem mais protegido que os anteriores. ― Suspirou, completando: ― E bem mais difícil.
― Como assim?
Nami se aproximou mais da mesa, abaixando a voz antes de responder.
― A capital está bem protegida. Aqui é uma zona afastada e sem lei, mas quanto mais me aproximo do palácio, mais soldados aparecem.
Zoro deu um último gole na garrafa, aproveitando para pedir mais uma quando o garçom chegou com o pedido da Nami.
― Preciso fazer alguma coisa?
― Você só pioraria a situação. Continue quieto por aqui e não faça nada que eu não mandar. ― Apontou o dedo na direção de Zoro. ― A propósito, o que você anda fazendo?
― A mesma coisa que venho fazendo no último ano: esperando você mapear a região.
Nami largou a caneca na mesa, estreitando os olhos.
― Você tá me apressando?
Zoro deu de ombros. Já estava cansado daquela missão, só queria poder voltar para casa o mais rápido possível. Já se sentia enferrujado de tanto tempo que estava sem treinar.
― Escuta aqui, eu não posso fazer nada para acelerar as coisas. O meu trabalho leva tempo. Eu sou a melhor quando se trata de mapear, outra pessoa não seria tão rápida quanto eu.
― Eu não disse nada ― resmungou, desviando o olhar.
― Há! ― Nami soltou uma risada frustrada. ― É só isso que você faz mesmo: nada.
O comentário fez Zoro cerrar os dentes.
― Sua... É você que tá sempre me dizendo para não fazer nada!
― Eu não quero que você atrapalhe a minha missão. Nunca mandei você passar o dia todo dormindo e bebendo.
― Tsc! ― Cruzou os braços, fechando a cara.
― Isso não importa. Eu não vim aqui para discutir com você. Tenho algo mais importante.
Zoro desfez o bico, prestando atenção no que poderia ter feito Nami percorrer todo aquele caminho apenas para conversar com ele pessoalmente, sendo que eles tinham uma forma de se comunicar a distância.
― Você tem ideia de quanto dinheiro eu já gastei com você desde que iniciamos essa missão?
Os músculos de Zoro ficaram tensos. Seus instintos gritavam para que saísse dali o quanto antes.
― Não faço ideia. ― Fez menção de se levantar, sentando-se imediatamente ao ver a expressão de Nami.
― Então eu te ajudo a descobrir.
Nami tirou um papel dobrado do bolso, oferecendo-o para Zoro.
Por um momento, ficou receoso se deveria ou não pegar, mas sabia que não tinha escolha.
Lançou um último olhar para a porta do bar e voltou a encarar Nami. Não tinha escapatória, algo lhe dizia que sabia exatamente onde aquilo ia dar.
Soltou um suspiro pesado e desdobrou o papel, deparando-se com mais números do que seu cérebro era capaz de processar.
― Somos duas pessoas em uma longa viagem, é impossível gastar pouco.
― Você tem razão.
Nami sorriu, fazendo Zoro estremecer.
― Onde você quer chegar com isso?
― Essa é só a sua parte.
― O quê...?
Nami suspirou.
― Esse é exatamente o valor que você me deve.
― Eu só gasto com comida, até durmo na rua para não gastar com pousada. Como que isso tudo é só a minha parte?!
― Com comida e bebida, né. Não se esqueça que você passa o tempo todo bebendo.
― Mesmo assim, o valor é alto demais!
― Quando você me pediu dinheiro emprestado, eu disse que teria que me devolver o triplo, tá lembrado? ― Estendeu a mão aberta. ― Me paga.
― Isso é roubo! Como eu poderia te pagar agora?
― Caramba. ― Nami sorriu, ladina. ― Não consegue nem cumprir uma promessa.
Zoro travou o maxilar. Como ela podia manipulá-lo daquele jeito? Pegou a bolsa onde estava todo seu dinheiro e colocou na mão dela, contra a vontade.
Nami pegou o objeto, contando as moedas enquanto sorria como uma criança no Natal.
― Isso não paga nem a metade ― respondeu por fim, fechando a bolsa e guardando consigo.
― É o único dinheiro que tenho.
― Então arruma alguma coisa pra fazer. Porque eu não vou continuar bancando essa sua bebedeira até você me pagar.
Ela chamou o garçom e pagou a conta da mesa, depois levantou e deu um último olhar para Zoro antes de caminhar até a saída.
― Lembre-se, você precisa me pagar o quanto antes.
Zoro ficou observando ela se afastar, com os punhos cerrados.
― Bruxa maldita!
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