O Príncipe e o Mercenário - ZoSan
3 Vinsmoke
Os passos apressados de Sanji ecoavam pelos corredores do palácio principal. As mãos inquietas nos bolsos da calça social tentavam distrair sua mente da conversa que teve anteriormente.
― Um mercenário? ― Sanji franziu as sobrancelhas.
― Foi o que eu disse.
Vinsmoke Judge respondeu, sem tirar os olhos dos papéis de sua mesa.
― Mas... Vossa Majestade, eu não preciso de um guarda privado.
Muito menos um mercenário, pensou, tentando não se importar com a forma em que estava sendo tratado.
― A tentativa de assassinato diz o contrário.
Assim como todas as outras que você ignorou, se conteve para não falar em voz alta.
― Vossa Majes...
― Essa conversa já acabou. ― Judge finalmente olhou em sua direção e Sanji se encolheu involuntariamente, como se aqueles olhos pudessem perfurá-lo. ― Amanhã um grupo se reunirá no campo de treinamento e seu guarda pessoal será escolhido.
A frieza naquele olhar o fazia se sentir insignificante, como um maldito inseto.
Era sempre assim: nunca ia até o palácio principal, e quando o chamavam era unicamente para mostrar o quanto o desprezavam.
Ainda conseguia sentir seus músculos tensos.
― Tudo culpa daquele inútil. ― A voz de Niji veio de um dos corredores, tirando Sanji de seus pensamentos.
Que ótimo!, pensou, ouvindo os passos se aproximarem cada vez mais.
Olhou em volta, procurando por um lugar para se esconder. O que menos precisava agora era topar com seus irmãos.
Antes que fosse visto, tentou abrir a porta mais próxima: trancada.
― Do que você está falando? ― Agora era a voz de Ichiji.
― Você não soube? ― Yonji perguntou, com tom de divertimento. ― Niji mandou alguém para dar um jeito no fracote do Sanji e o pai descobriu.
Correu para outra porta, as vozes cada vez mais perto. Com o coração acelerado, girou a maçaneta: trancada.
Droga!
― "Se vai mandar matar alguém, tenha certeza de não ser pego." ― Niji imitou a voz do pai.
A risada de Yonji ecoou pelo lugar. Eles estavam cada vez mais próximos de onde Sanji desesperadamente tentava abrir mais uma porta.
Abriu!, comemorou, entrando rapidamente e fechando a porta atrás dele enquanto ouvia a voz de Ichiji do outro lado.
― E o assassino?
― Preso no calabouço.
Sanji segurou a respiração. As mãos trêmulas apoiadas na porta, se aferrando a ela como se seu único ponto de apoio pudesse desaparecer.
― Vou ensiná-lo a não abrir a boca ― continuou Niji.
― Você vai matar ele. ― Yonji retrucou, divertindo-se com a ideia.
― Só depois que ele aprender a lição. ― Niji assumiu e os dois caíram na gargalhada.
Sanji só se permitiu respirar quando teve certeza de que estava só.
Essa foi por pouco, pensou, soltando o peso dos ombros. Levou a mão trêmula ao rosto, fechou os olhos e tentou tranquilizar seu coração.
Se acalma, repetia em seus pensamentos.
Quando sentiu que podia confiar em suas pernas, Sanji decidiu que já estava na hora de voltar.
Mas antes de abrir a porta, correu os olhos pelo cômodo minimamente decorado, sentindo seu estômago embrulhar.
As paredes de pedra cinzenta ostentavam armas da nova tecnologia militar. No meio da sala, um tapete circular carmesim com bordas pretas estampava em seu centro a numeração pela qual seu pai era tão obcecado: 66.
No fundo da sala, duas faixas verticais estreitas de um tecido grosso da cor azul marinho desciam do teto até o chão de pedra. A numeração 66 estava gravada em um branco puro, criando um contraste agressivo capaz de captar a atenção de qualquer um que entrasse ali.
Entre as duas faixas havia uma enorme tapeçaria vertical, que parecia ser feita de um tecido sintético pesado com "Vinsmoke" escrito em dourado.
O rei Vinsmoke Judge estava parado no centro, com os braços cruzados, como um Deus militar. Já na linha de frente estavam, perfeitamente alinhados em ordem de nascimento: Reiju, Ichiji, Niji e Yonji.
Sanji retrocedeu um passo, colando as costas na porta fria de metal. Sentia como se as pessoas naquele retrato o encarassem, desprezando-o.
Eu odeio esse lugar!
๑
Foi apenas quando já estava distante o suficiente do palácio principal que Sanji se permitiu relaxar.
Sempre que era convocado pelo rei, Sanji ansiava por ir embora o quanto antes; quando finalmente conseguia escapar, desejava nunca mais ter que voltar.
Apressou o passo. Queria voltar logo para sua casa ― para sua cozinha.
Em dias ruins como aquele, cozinhar era a única coisa capaz de fazê-lo esquecer tudo o que aconteceu. Quando o cheiro das especiarias preenchia o ambiente, era como se sua mente ficasse em branco ― sem preocupações.
Paralisou por um segundo quando viu uma mulher de cabelo rosa parada na entrada do antigo palácio da rainha.
Aquele dia ruim parecia estar longe de acabar.
― Você demorou. ― Reiju abriu espaço para que ele entrasse.
Sanji soltou um suspiro pesado, voltando a caminhar.
― O que você está fazendo aqui?
Passou por ela, indo diretamente para a cozinha.
Por mais que não estivesse acostumado a receber visitas, com Reiju era diferente. Sempre o visitava depois que algo ruim acontecia.
Às vezes Sanji queria acreditar que ela se importava com ele. Mas ela era uma Vinsmoke, e ele aprendeu a nunca confiar em um Vinsmoke.
― Como você está? ― ela perguntou, seguindo-o palácio adentro.
― Do mesmo jeito que sempre.
― Fiquei sabendo do que o Niji fez.
― Não é a primeira vez, e nem será a última.
Na cozinha, Reiju se sentou próxima à mesa, enquanto Sanji colocou o avental, pegando alguns ingredientes para fazer uma massa de biscoito.
― Por que você não o matou?
A pergunta fez com que ele interrompesse o que estava fazendo.
― E depois o quê? ― Olhou para a irmã. ― Matar todos os próximos? Ou quem sabe o próprio Niji?
Reiju suspirou.
― Você sabe como o pai é. "Não há lugar..."
― "Não há lugar para fracotes na família Vinsmoke" ― Sanji repetiu a frase que escutou do pai durante toda a vida. ― É, eu sei. Já cansei de ouvir isso.
Desviou o olhar, voltando a atenção para a massa, já quase homogênea.
― Eu não digo para você fazer tudo o que ele quer. Mas talvez as coisas melhorem se você se esforçar um pouco mais.
― Talvez eu deva tentar matar ele e me tornar rei! Quem sabe assim ele fique satisfeito! ― Sua voz saiu mais alta do que esperava, ecoando pelo palácio.
Sanji respirou fundo e começou a moldar os biscoitos, tentando deixá-los uniformes. Mas suas mãos trêmulas atrapalhavam seu trabalho.
Merda!
Deixou a massa de lado e apoiou as mãos na bancada, de costas para a irmã, respirando fundo, uma vez após a outra.
O que menos desejava era demonstrar fraqueza na frente da irmã. Não precisava de mais um Vinsmoke o incomodando com isso.
Percebendo a situação, Reiju se levantou, deixando uma bolsa com dinheiro em cima da mesa.
― Você tem razão. Não vai ser a última ― afirmou, olhando para ele uma última vez. ― Tome cuidado.
Sanji manteve os olhos fixados na massa de biscoito. Não queria ver a pena nos olhos da irmã.
Já se sentia miserável o suficiente.
Depois que Reiju deixou o palácio, as pernas de Sanji finalmente cederam e ele deslizou até o chão.
Levou a mão trêmula até o rosto em uma tentativa de esconder as lágrimas que insistiam em cair.
Eu já estou cansado dessa vida!
Estava cansado de ser menosprezado pelo pai.
Cansado de ser o brinquedo dos irmãos.
Cansado de as visitas de Reiju sempre terminarem com uma discussão.
Cansado de sempre acabar chorando na cozinha, com biscoitos que nunca tinha com quem dividir.
Abraçou os próprios joelhos, pensando no único lugar onde um dia se sentiu amado, lembrando de uma época em que não estava sozinho.
Mãe...
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