O Portal
15 Capítulo 15
Notas iniciais
O resto do dia passou e quando o sol se pôs, eles atacaram. Foram pela floresta até a cidade pegando todos de surpresa e os roubando sem dificuldades. Roubaram prata e ouro e uma caravela e desapareceram na noite sem deixar rastros.
O mar estava calmo o suficiente para a caravela ir atrelada ao navio sem atrapalhar, navegaram a noite toda com revezamento entre os tripulantes e finalmente chegaram a Londres e atracaram longe do porto, escondendo o navio por entre as montanhas para que em fim pudessem dormir um pouco e foi o que fizeram, ao bater meia noite todos estavam dormindo.
Hoje, apesar de o sol estar alto e brilhante, o convés estava vazio, ninguém acordou ainda, estavam exaustos e mereciam o descanso.
Elizia foi a primeira a acordar. Ela se levantou e se preparou para sair, mas se conteve ao ver Key dormir tranquilamente, um sorriso formou-se em sua face.
“já deve ser tarde”, pensou ela, “ele está tão lindo assim…”, ela o olhou mais intensamente, “mas precisamos todos acordar.”.
Elizia saiu da cabine e olhou o convés vazio.
– cara, isso é estranho… -disse a si mesma.
Ela voltou à cabine e foi ao piano e ao sentar-se começou a tocar uma melodia linda e impactante enchendo todo o convés, o que ela pretendia era acordar todos de um modo diferente. E conseguiu.
Aos poucos os outros tripulantes iam acordando embalados pela doce melodia que ouviam. Key foi o primeiro a despertar pela melodia, mas ao ver quem a tocava permaneceu deitado para não interromper a melodia de Elizia enquanto os outros levantavam e curtindo a musica começavam a trabalhar.
Elizia tocou a ultima nota.
– você toca bem.
Ela se assustou levemente ao ouvir a voz, mas logo relaxou ao ver quem era depois que se virou. Key já estava de pé atrás dela. Elizia abriu um grande sorriso.
– bom dia.
– bom dia — ele retribuiu com o mesmo sorriso — dormiu bem?
– sim e obrigada por achar que toco bem.
– você é ótima e nunca te vi tocar. Por quê?
– ainda tem coisas que não sabe sobre mim, mas logo vai descobrir. Capitão esta tarde não vai trabalhar?
Key suspirou pesado.
– infelizmente.
Elizia se levantou e passou a mão carinhosamente pelo rosto de Key.
– relaxa, vou estar com você.
Ele sorriu e a puxou, enlaçando-a em seus braços e beijando-a. ela se afastou delicadamente e sorriu.
– adoro quando faz isso.
– eu também — Key a soltou — mas preciso mesmo trabalhar.
– então vamos.
Eles saíram da cabine e para a surpresa de ambos, todos já estavam em seus postos e estavam felizes.
– uau…- os olhos de Elizia estavam arregalados — galera dedicada — ela se virou para Key — vou a cidade.
– fazer o que?
– quero ver como estão às coisas, mas não passe o posto sem mim.
– não vou passar, mas Elizia é perigoso, você esta sendo procurada esqueceu? Vou com você.
– não, não vai afinal você está bem mais marcado que eu assim que colocar o pé na cidade será preso, de qualquer maneira vou meio que disfarçada e eu sei me cuidar, vou tomar cuidado, prometo.
– não pode ir sozinha se alguém te reconhecer os guardas vão te caçar, não vou deixar que você fique em perigo assim.
– Key, eu posso me cuidar, não vou chamar a atenção, sério. Alias esta se esquecendo de que agora você tem uma tripulação inteira pra cuidar.
– sempre vai me lembrar disso? — ela deu um pequeno riso, ele suspirou -tudo bem- Key pediu para prepararem um batel — o navio continuará aqui, tente não ser reconhecida — eles foram até a borda onde um batel já a esperava na água — tome cuidado.
Ela tocou os lábios dele com os dela rapidamente.
– eu vou. E trarei algo bom pra comer.
Elizia começou a descer as escadas e entrou no batel remando até a praia olhando de vez em quando para trás e vendo Key a observando sorrindo. Ela escondeu o pequeno barco com um sorriso fraco e foi andando pela costa até a cidade com um vestido surrado e uma capa comprida que cobria todo seu cabelo, escondendo um pouco o rosto. Chegou à cidade e começou a andar sem um rumo procurando algo que lhe interessasse.
Ninguém a notou, para todos eles ela não passou de uma viajante. Elizia se aproveitou disso evitando chamar a atenção andou por entre pessoas que faziam compras, até parar em frente a uma barraca de frutas. Começou a escolher algumas frutas vistosas e coloridas extremamente apetitosas, mas se conteve quando viu, pelo canto do olho, duas mulheres chegarem.
As mulheres estavam bem vestidas e tinham um ar de arrogância, olharam para Elizia mesmo que não vissem seu rosto elas a repugnavam.
– hoje em dia qualquer uma pode andar livremente.
Comentou a mulher com lindos cachos dourados.
– é verdade, mas pelo menos não podem ir a qualquer lugar — disse a outra com um chapéu enorme na cabeça- falando em lugares que realmente são bons, ficou sabendo do baile Jolie?
Elizia mexeu nas frutas como se as escolhesse, mas não viu o que pegava nas mãos afinal estava ocupada demais escutando a conversa. Depois de um tempo Jolie respondeu.
– o baile que o barão esta preparando? Aquele das mascaras?
– sim.
– ah! Ouvi falar, estão dizendo que será maravilhoso! Minha família toda vai e a sua?
– é claro que vamos, já até comprei um novo vestido e uma nova mascara só para a ocasião.
– a casa do barão é muito elegante, todos vão estar lá e bem vestidos, preciso de um novo vestido. Pode me ajudar a escolher?
– claro! E olhe pelo lado bom, não terá pessoas repugnantes.
– é tem toda razão.
As duas começaram a rir e foram embora. Elizia terminou de pegar as frutas e depois de pagá-las saiu.
– baile? — disse a si, baixo — todos? Isso quer dizer que Caroline estará lá e posso me despedir, só tenho que saber mais sobre isso.
Ela continuou a caminhar, comprando outras coisas e sempre que podia conseguia saber mais sobre o baile.
O sol ia começar a se pôr e Elizia decidiu voltar, foi pelo mesmo caminho até chegar ao batel, jogou o que comprou dentro e o pôs na água remando de volta ao navio.
Ao chegar ela subiu e pediu para que retirassem o que tinha comprado enquanto alguns faziam isso ela foi até Key.
– tenho uma noticia — ela estava radiante — vai me ouvir?
– estou ouvindo — ele carregava um barril para perto do porão — mas desculpe se não posso parar.
– porque não manda outro fazer?
– porque estão descarregando o que você pediu.
– ah, desculpa — ela olhou para trás, o ultimo pacote foi descarregado por Jack — Jack! Vem aqui! – pediu — por favor, pode continuar o que fazia? Preciso falar com o capitão.
Jack assentiu e foi pegar os barris livrando Key.
Key passou as costas da mão na testa.
– o que houve?
– vamos sair daqui antes?
– tudo bem.
Eles seguiram para a cabine e assim que a porta se fechou ele perguntou outra vez.
– o que houve?
– vamos ao baile?
– o que?!
Ela sorriu.
– descobri que o barão vai dar um baile de mascaras e que todos os nobres vão estar lá, isso quer dizer que Caroline também estará lá.
– esta brincando, nós não podemos ir a um baile!
– por quê?
– porque seremos reconhecidos.
– Key é um baile de mascaras! Ninguém vai nos reconhecer.
Key passou a mão na nuca.
– Elizia nós não podemos ir, é arriscado demais.
– eu sei, mas é a chance perfeita!
– e a tripulação?
– não disse que ia passar o posto? Então faça, a não ser que desistiu e quer ficar. Preciso voltar e isso talvez signifique um adeus…
– não fale bobagens! Jamais te deixarei e não mudei de idéia, mas isso é complicado. O baile é esta noite não?
– é.
– não acho uma boa idéia…
Elizia se aproximou o empurrando levemente para sentar na cama, ela se sentou sobre suas pernas com os braços em volta de seu pescoço e o beijou devagar, mas não menos sedutor. Ele a olhou estupefato, ela sorriu e sussurrou.
– pense no caso.
Elizia se virou e saiu da cabine. Ele não a seguiu, precisava mesmo pensar sozinho por um instante, enquanto sentia o calor dela o abandonar. Ela foi ao mastro principal e subiu na vigia, queria pensar.
Uma hora depois Key saiu da cabine e chamou a todos.
– em ordem agora! — todos obedeceram, menos Elizia que observava da vigia — tenho um comunicado, nosso capitão morreu e eu tomei o seu lugar, mas não sou bom em dar ordens assim então vou passar meu posto!
Murmúrios e cochichos encheram o convés.
– calados! — fez-se silencio — senhor Carlo venha cá!
Carlo adiantou-se a foi até ele hesitante e ficou ao lado de Key olhando a tripulação.
– conversei com muitos de vocês e vocês mesmos me disseram que um bom homem para me substituir era ele, pois é o que dou a vocês! De agora em diante Carlo será seu novo capitão e eu estou fora da tripulação.
Carlo estava surpreso, mas aceitou assim como todo o resto. Jack perguntou.
– o que quer dizer com fora da tripulação?
– quero uma nova vida em outro lugar e por isso não continuarei na tripulação.
– não há motivo para tristeza- eles ouviram um baque surdo e Elizia veio andando por entre eles, sorrindo — vão se virar sem nós.
– nós?
Jack estava confuso. Elizia pegou a mão de Key.
– é “nós”. Eu e Key estamos fora, mas de qualquer maneira agradeço tudo que fizeram por mim.
Todos ficaram ao mesmo tempo tristes e confusos enquanto se prolongava o silencio. Jack o quebrou.
– bom então já que vamos ter que perder nossos melhores líderes que seja com uma festa de despedida.
Todos gritaram aceitando e ao cair da noite uma grande festa de despedida agitava o navio.
Musica, bebida e comida a vontade onde todos se divertiam. Key foi até Elizia que conversava com Carlo.
Ele pousou a mão em seu ombro.
– precisamos ir.
Ela o encarou com aqueles olhos esmeralda confusos.
– pra onde?
Ele sorriu.
– temos um baile ainda hoje.
Um grande sorriso se fez na face de Elizia, ela se levantou e abraçou forte Key.
– nós vamos!
– é, então é bom se arrumar.
– claro!
Elizia saiu correndo saltitante pelo convés até a cabine para se arrumar.
– ela ainda é uma menina… — comentou Carlo — presa num corpo de mulher.
– não- contrapôs Key — ela é uma mulher com a felicidade de uma menina.
Carlo sorriu.
– é você tem toda razão.
Depois de algum tempo Elizia saiu da cabine e todos pararam ao vê-la, ela ficou corada. Key foi até ela já vestido.
–você esta linda.
– obrigada — ela olhou para os outros que a olhavam — gente sei que é difícil de acreditar, mas sei ser feminina.
Todos começaram a rir. Key sussurrou.
– precisamos ir.
Ela assentiu.
– agora sério, nós temos que ir.
– porque não esperar até o amanhecer?
Carlo ficou a frente de todos.
– me arrumei pra nada? Temos um baile pra penetrar ainda.
– bom, então espero que eu esteja falando por todos aqui, espero que sejam muito felizes — ele olhou para Key — senhor, espero que saiba que sempre foi um amigo para todos e que sempre será o garotinho encrenqueiro do navio mesmo que tenha crescido.
Key sorriu.
– obrigado.
Neste momento toda a tripulação fez uma reverencia e Key e Elizia agradeceram e se despediram e entraram na caravela e navegaram até o porto, onde atracaram e desceram.
A noite estava limpa, eles andavam pelas ruas sem chamar atenção, Key usava um chapéu que escondia seu rosto enquanto Elizia apesar de nada usar estava muito diferente da traidora que era procurada, ela passou o braço sob o de Key, assim passaram despercebidos como um casal britânico comum.
– certo o que pensa em fazer pra entrar?
Perguntou Key com suavidade depois que se distanciaram do centro.
– a casa vai estar com guardas, mas eles vão se concentrar mais na entrada.
– vai pular o muro?
– se for seguro e depois entrar por uma das janelas, depois que estivermos dentro vai ser difícil nos reconhecerem.
– ainda é bem perigoso.
– esta com medo?
Ela o desafiou.
– não, normalmente perigo é sinônimo de aventura.
– tem toda razão.
Continuaram a caminhar até o muro da casa do barão que estava apinhada de gente. Eles pularam o muro e entraram sem dificuldades, as mascaras que usavam deixaram-nos idênticos aos convidados.
– viu? Nem foi difícil- Elizia olhou pelo jardim lotado- preciso encontrar Caroline e me despedir. Vamos curtir o baile?
– é melhor irmos o mais rápido possível, estamos em meio aos inimigos.
– tudo bem, então eu vou encontrá-la e depois vamos embora.
– certo. Vamos nos encontrar na mesa do Buffet.
Ela assentiu. Eles se separam.
Elizia andou em meio aos convidados pedindo licença e olhando procurando por Caroline até finalmente avistá-la. Foi até ela rápido e assim que ficou sozinha se aproximou por trás.
– se alguma coisa der errado, a culpa é sua.
Caroline virou-se assustada e ao reconhecer a voz relaxou.
– oh! Elizia!
Ela a abraçou.
– não grita Caroline — sussurrou Elizia e sorriu — também é bom te ver de novo.
– me desculpe, pensei que não te veria mais.
– basicamente estou me arriscando pra me despedir direito.
– vai embora?
– sim e é pra nunca mais voltar -Caroline entristeceu e ela percebeu — me prometa uma coisa?
–claro. O que?
– não me esqueça, está bem?
– como pode dizer isso? Não vou te esquecer de você é minha melhor amiga.
Elizia sorriu.
– obrigada, é muito bom ouvir isso.
– já vai? Não vai se divertir um pouco?
– não preciso mesmo ir, Key está me esperando.
– ele está aqui?
– está e já está tudo muito arriscado.
– então adeus minha amiga.
Os olhos de Caroline estavam marejados.
– por favor, Caroline não chore, eu não quero chorar — elas se abraçaram — um simples tchau dói menos.
– então tchau.
– tchau.
Elas se separaram ainda de mãos dadas, Caroline enxugou as lágrimas. Um homem bêbado veio até elas.
– olá senhoritas — elas soltaram as mãos — querem dançar?
– não obrigada.
Disse Elizia na defensiva, o homem pegou seu braço.
– vamos dançar.
– me solta — ela se libertou da mão do homem — não quero dançar.
O homem foi tentar segurá-la outra vez, mas Key apareceu e o impediu.
– não entendeu que a moça quer que vá embora?
– me solta.
O homem se libertou e quase perdeu o equilíbrio, Elizia corrue para o lado de Key.
– estou acompanhada imbecil.
O homem não entendeu muito bem por causa da bebida, mas conseguiu fixar o olhar no rosto de Key e começou a gritar.
– é ele! O pirata! Um assassino!
Os guardas viraram e também o reconheceram e começaram a correr de encontro a eles. Key e Elizia se olharam.
– ferrou! Vamos sair daqui!
Ele pegou a mão de Elizia e começaram a correr pela multidão que se afastava. Uma perseguição deu início.
Key e Elizia estavam bem na frente, mas logo seriam alcançados então tinham que ganhar tempo.
– é bom que eles não tenham armas de fogo — disse Key ofegante — que tal um joguinho?
Ela sorriu.
– o barão não gosta de armas de fogo — ela também lutava para respirar — o que tem em mente?
– que tal boliche?
–claro, vamos ver o que pode fazer.
Eles correram para trás de uma estatua de um homem e param.
– Elizia quebra pra mim?
– claro!- ela deu um golpe na jugular da estatua, deixando a cabeça cair- pronto.
Foi o momento certo. Dez guardas estavam perto, com espadas em punho, Key pegou a cabeça, se preparou e jogou fazendo-a rolar pelo campo e derrubar todos os guardas em um emaranhado de corpos e membros devido ao susto.
– strike!
–muito bom.
– obrigado, afinal existem coisas que ainda não sabe sobre mim.
– mas logo vou descobrir.
Eles começaram a rir e voltaram a correr, estava tudo indo bem até que foram cercados perto do muro.
– droga.
Key empurrou Elizia para trás de si.
Trinta homens armados os cercaram e tudo parecia estar acabado, mas antes que qualquer um atacasse algo chamou a atenção de todos. Uma carruagem desgovernada que bateu e jogou pra longe muitos guardas e Phil saltou dela antes da batida parando na frente de Key e Elizia.
– Phil! — disse Elizia aliviada — que bom que está aqui!
– é bom te ver senhorita — ele olhou para os guardas que se levantavam- vocês têm que ir.
– mas…
– eu seguro eles — ele pegou a espada — vão!
– vem Elizia – Key a puxou — obrigado capitão.
Phil assentiu e eles voltaram a correr, pularam o muro, roubaram um cavalo e cavalgaram até o porto onde entraram na caravela e zarparam desaparecendo na escuridão da noite sem lua.
A marinha britânica procurava pela caravela por toda a extensão do território sem nada encontrar. Eles já estavam muito longe.
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