O Portal
16 Capítulo 16
Notas iniciais
Elizia deitou na borda perto do timão olhando as estrelas enquanto Key conduzia a caravela para o norte, pensativa.
– Essas estrelas são maravilhosas.
Key olhou para o céu.
– É, esse lugar trás muita tranqüilidade.
– Tranqüilidade, isso não existe no século XXI.
– Não vou mais voltar… Chega a ser meio triste.
– Valeu! Então estar comigo é triste?
Ela se apoiou nos cotovelos para olhá-lo, irritada e ele sorriu.
– Não foi isso que eu quis dizer, você é tudo que eu quero e mais que eu mereço, mas tem que admitir que nunca mais irá ter essa sensação completa de paz.
– É verdade, o futuro vai consumir toda a paz. Sentirei saudade.
– Não quer desistir não é?
– Não, quero voltar, gosto da vida moderna apesar da droga que é.
Eles acabaram rindo do comentário.
– Mas agora é sério — Elizia se sentou olhando-o, indagativa — Quanto tempo para chegarmos à ilha?
– Se continuarmos nesse ritmo durante a noite é bem capaz que amanhã de manhã já estejamos lá.
– Isso é bom — ela bocejou — Quer que eu faça algo?
– Não, vá dormir, é melhor você descansar.
– Nem pensar, não vou te deixar conduzir a essa hora sozinho.
– Lise relaxa — disse delicadamente — Eu vou ficar bem, você esta com sono e precisa descansar.
– Não tanto quanto você. Está com olheiras gigantes.
– Posso agüentar até de manhã, estou acostumado e você não, então descanse.
– Esquece — ela voltou a deitar na borda, emburrada — vou ficar acordada e se precisar de mim é só chamar.
– Certo então.
Depois de uma hora Key parou a caravela por um instante e pegou Elizia no colo, ela dormiu, e a levou para uma cabine e a deixou na cama para que dormisse melhor e voltou a conduzir.
Navegou a noite toda e quando o sol despontou no horizonte ele atracou na baia perto dos rochedos e se sentou encostado na madeira e adormeceu.
– x -
Elizia levantou uma hora depois e, ainda com o vestido do baile, subiu até onde Key estava dormindo, ela ajoelhou e o observou por alguns minutos. Em seguida passou as costas da mão levemente sobre sua face, ele continuou a dormir, ela se aproximou e tocou seus lábios no dele suavemente e repetiu o ato fazendo-o acordar.
– Bom dia — ela sorriu — Já pensou em dormir num lugar mais confortável? Acredite é melhor do que no chão.
Key se espreguiçou e sorriu.
– Bom dia e já pensei sim, mas estava muito longe e não me importa onde vou dormir desde que eu acorde com você.
– Que lindo! — ela se levantou e estendeu a mão — Não precisava dizer isso nem tenho tanto valor assim.
Ele segurou a mão dela e se levantou sem soltá-la e começou a roçar seu polegar de leve na pele dela o que a fez estremecer um pouco. O sorriso dele aumentou.
– Você é mais valiosa que isso para mim e sabe disso e é bom se acostumar porque enquanto estiver comigo vai estar cheia de elogios.
– Eu realmente espero, mas mudando de assunto já chegamos?
– Sim — ele a soltou — e no prazo final, hoje à noite voltamos.
– Que bom — ela se espreguiçou — Estou horrível e preciso de um banho bem longo.
– Não está ruim.
– Estou sim e acredite, nem você vai me fazer mudar de ideia quanto a isso, alias para de tentar me fazer sempre me sentir bem não quero acabar mimada demais. Vamos ir pra ilha?
– Vamos, mas vamos levar comida e alguma coisa pra esperarmos até a noite — ele a ergueu do chão e começou a rodar, ela soltou um gritinho assustado pelo movimento repentino — E vou sim te mimar o máximo que posso.
Key a colocou de volta no chão e ela o abraçou.
– Viu? Já começou a me mimar demais e eu estou adorando isso.
Eles se separam.
– Vamos logo para a ilha — ele tocou os lábios dela com os seus uma vez — Pode me ajudar a arrumar o que vamos levar?
– Claro.
Key começou a se dirigir para ao convés, Elizia segurou seu braço e o fez voltar.
– Vai mesmo sair sem um beijo de verdade?
Ela o desafiou, ele deu aquele sorriso único que a derretia inteira.
Key segurou rosto de Elizia entre as mãos e a beijou, mas deixou as mãos irem para a nuca e o cabelo dela e intensificou o beijo deixando-o mais ardente enquanto Elizia deixava-se conduzir pelo prazer suas mãos enrolavam-se no cabelo escuro de Key. E então se separaram em busca de ar.
– Podemos ir?
Pediu Key gentilmente.
– Agora podemos.
Key começou a descer a escada com Elizia logo atrás segurando o vestido para que não tocasse no chão. Ela foi para o porão enquanto ele arrumava o batel para irem à ilha.
Elizia pegou comida, bebida e algumas velas e depois subiu outra vez e entrou na cabine pegando alguns cobertores e jogou tudo para Key que esperava no batel, ele gritou:
– Pegou tudo? Não se esqueça de que vamos destruir a caravela.
– Vai atear fogo?
– Sim.
– Tem certeza de que vamos voltar? Preciso saber se vou levar roupa ou algo do tipo.
– Não precisa, pense como um piquenique numa ilha deserta enquanto esperamos o resgate.
Ela hesitou e depois foi à cozinha pegou uma panela e voltou à cabine pegando o que era pessoal inclusive às espadas depois ela voltou a jogar as coisas e ateou fogo a caravela e antes que fosse consumida por completa pelas chamas, Elizia desceu e adentrou ao batel.
– Tudo bem — ela se sentou — Agora nós podemos ir com certeza.
Key remou até a ilha e depois que atracaram o batel começaram a retirar as coisa e deixar na areia. Elizia parou e olhou para a floresta que se estendia a suas costas, alta e densa.
– Legal — disse por fim, maravilhada — Mas não acho que tem algo a ver com “Ilha da morte” é até bonita.
– Bom — ele parou atrás dela também olhando a floresta — Não disse que o nome tinha ver com a paisagem, afinal ela é maravilhosa.
– Então de onde veio esse nome?
Key deu de ombros.
– Não sei, é difícil desde que me lembro é esse o nome e não sei por quê.
– Deveria. Mas enfim, já tá tudo descarregado ou ainda falta alguma coisa?
– Não já terminei, mas pode arrumar? Eu vou pegar água.
– Certo. Aqui mesmo?
– Pode ser, é a melhor vista, só vamos ter que sair quando estiver perto da hora.
– Tudo bem então.
Elizia foi até as coisas que trouxeram e começou a organizá-las enquanto Key entrou na floresta e indo atrás de água.
Key voltou e viu Elizia sentada olhando as ondas quebrarem abraçada aos joelhos, ele foi até ela e colocou a jarra contendo a água que pegou na areia, sentou-se.
– Que tá fazendo?
Perguntou curioso vendo-a tão concentrada na caravela que ainda se consumia pelo fogo.
– Nada. Pra falar a verdade estou admirando o fogo e a água em perfeito equilíbrio, é lindo.
– Você é bem ligada nessas historias de elementos, natureza e coisas que brilham. Né?
– Sim — ela o olhou, curiosa — Em parte, como assim coisas que brilham?
– Você gosta de tudo que tem um brilho diferente. Você gosta de algumas jóias como todas as mulheres, mas você não vê o valor e sim o brilho, tanto que faz a mesma coisa com plantas molhadas do orvalho da manhã, você olha com o mesmo carinho e admiração.
– Me conhece tão bem assim?
– Não, apenas reparo em pequenos detalhes que te envolvem. Estou certo quanto ao brilho?
– Sim, sou ligada em coisas assim acho maravilhoso.
– Sabe outra coisa que também reparei?
– Hum?
– Que gosta de flores estranhas — ele pegou um buque que estava escondido atrás dele — Desde que sejam únicas.
Ela pegou o buque e o cheirou, sorrindo.
– Não são estranhas só diferentes assim como eu e é por isso que gosto tanto. Alias, obrigada.
– Você não é estranha e é mais que diferente é única.
– Isso foi um elogio?
– Pra você foi.
– Obrigada.
Key entrelaçou seus dedos nos dela, ele voltou a beijar as costas da mão de Elizia demorando mais para afastar os lábios de sua pele o que a fez estremecer um pouco, ele sorriu e a olhou.
– Nada mudou. Você ainda é e vai continuar sendo tudo, talvez a única coisa que tenha mudado é que a cada dia que passa, eu me vejo mais e mais apaixonado por você.
Elizia sorriu e colocou o buque, que segurava com a mão livre, na areia. Ela o tocou delicadamente. E se aproximou.
– Você é tudo pra mim – sussurrou — Eu te amo.
– Eu também te amo.
Key a beijou uma vez e se afastou. Elizia soltou a mão que estava entrelaçada com a dele e passou os braços ao redor de seu pescoço e o beijou com mais urgência, ele a puxou e a apertou contra seu peito. A respiração de ambos estava entrecortada e forçada, mas eles não queriam parar de nenhuma maneira.
Key baixou Elizia sobre o cobertor em que estavam sentados ficando debruçado por cima dela, eles se afastaram para respirar, ela segurou a colar que Key carregava.
– Adora isso, não?
Perguntou enquanto tentava respirar, sorrindo.
– Foi um presente, que me trouxe um melhor.
Key cobriu os lábios dela com o seu outra vez, desta vez mais delicadamente enquanto suas mãos percorriam a parte superior do corpo dela por cima do vestido rodado que era justo na cintura fina de Elizia enquanto as mãos dela passavam por entre os fios negros do cabelo dele.
O dia passou enquanto eles se amavam sem impedimento e conversavam sobre as mais diversas coisas, mas quando o sol começou a baixar rumo ao horizonte, Key disse enquanto acariciava a face de Elizia que olhava as nuvens alaranjadas.
– Precisamos ir.
Ela o olhou como uma criança.
– Para onde?
– Temos que chegar a pedra do diabo antes da lua tocá-la, senão não vamos voltar.
– Mas ainda o sol nem se pôs.
– Eu sei, mas é uma boa caminhada até lá.
– Certo… — ela se sentou e se espreguiçou- Mas não é muito longe, né? Andar no meio da floresta com esses sapatos é horrível.
– Vamos pela praia é mais fácil.
Key ficou de pé e estendeu a mão para Elizia se levantar, ela aceitou e já de pé disse:
– Bom, então vou descalça.
– Acho melhor não, tem muitas pedras, vai se machucar.
– Tudo bem então, não tenho mesmo opção. – ela deu de ombros, vencida — E as coisas?
– Só leve o que for mesmo importante o resto pode deixar.
Elizia pegou a presilha que ganhou de Caroline e as flores enquanto Key pegou uma bolsa com água e comida junto com as espadas e começaram a andar pela praia.
Andavam de mãos dadas rindo e vendo o pôr do sol e o mar que quebrava na praia, depois de um tempo quando já havia anoitecido passaram por rochedos que arranhavam as pernas de Elizia por causa do vestido longo que a atrapalhava e finalmente chegaram à Pedra do Diabo.
– Por que pedra?
Elizia estava confusa enquanto observava o lugar. A Pedra do Diabo era na verdade uma montanha cheia de perigos e rachaduras assustadoras.
– Olha... Não sei — Key também olhava para a montanha – Acho que o conhecimento sobre proporções é pequeno, sei lá.
– Talvez- ela o olhou vendo-o por entre as sombras — O que fazemos?
– Vamos entrar — ele apontou pra uma caverna — na verdade isso é meio que um vulcão adormecido.
– Putz! Agora que me diz isso? Realmente é super tranqüilizador.
– Relaxa, está mesmo adormecido.
– Vamos de uma vez. Revirou os olhos.
Eles entraram na caverna escura com apenas uma tocha que iluminava o caminho, andaram por alguns minutos até chegarem ao centro. Elizia estava maravilhada.
– Uau! — ela soltou a mão de Key — Esse lugar é magnífico!
Ela girou de braços abertos no centro da cratera do vulcão adormecido olhando para cima vendo do buraco da cratera um mar de estrelas.
– Achei que fosse gostar — ele apoiou na parede da caverna- as estrelas também são brilhantes e lindas para você.
Elizia parou para encará-lo, o verde de seus olhos brilhava intensamente.
– Obrigada. Nunca achei que um dia veria uma coisa dessas.
Key foi até ela devagar a luz das estrelas brincavam com as sombras da caverna pelo seu rosto.
– Que bom que gostou- ele olhou para a entrada da cratera — Já esta quase na hora.
– O que fazemos?
Ele alisou os braços nus dela e sorriu.
– Apenas esperamos.
Ela retribuiu o sorriso e segundos depois uma luz ofuscante entrou na cratera e ela fechou os olhos e tudo escureceu de repente. Nada mais se ouviu ou se sentiu.
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