Sabe como é difícil se sentir bem quando tudo parece estar contra você? Acordar com a esperança de que hoje vai ser diferente. Vai? Provavelmente não. Provavelmente eu só vou acordar, ir ao colégio e depois trabalhar de garçonete na lanchonete do meu pai. Todos os dias são assim. Já estou acostumada. Já nem consigo me lembrar das histórias que minha mãe me contava antes de dormir. Cinderela? Branca de Neve? Lembro que eu ficava me perguntando se elas realmente existiam e se havia possibilidade de um dia eu me tornar uma princesa, mas hoje eu sei a resposta. Não! Não existe nada além da realidade imposta pela sociedade. Nada além das horas de sofrimento pelas quais todos passamos e pequenos momentos de alegria que se parecem com o salário do mês, aparecem e somem sem nem dizer tchau.

Levantei, tomei banho e me vesti tudo em 20 minutos. Só restavam 15 para estar no colégio. Desci as escadas correndo, peguei uma maçã na geladeira e sai pela porta comendo. E correndo. Cinco minutos de atraso, pelo menos pude entrar na sala – apesar de preferir ficar fora dela. Sentei na mesma cadeira de sempre. A penúltima da fileira encostada na parede esquerda.

- Ei. – escutei um sussurro. – Sofia.

- Fala Angela. – respondi me virando para trás.

- Você já viu a professora nova?

- Não! Professora de que?

- Redação eu acho.

- O que aconteceu com o professor Alex?

- Eu não sei. – ela respondeu. – o professor olhou pra cá.

Virei rapidamente evitando levar uma bronca do professor de matemática.

Recreio, mais quatro horários chatos e finalmente a hora de ir pra casa. No meu caso, a hora de trabalhar. Meu pai acha que eu tenho que aprender a ter responsabilidades desde cedo e que um emprego ajuda nisso. Tudo bem.

Quatro horas. Ainda faltam duas para meu expediente acabar. Nem consegui digerir o almoço direito.

- Sofia! – meu pai chamou abrindo a porta.

- Oi pai!

- Hoje você sai mais cedo. Tenho algo para lhe contar.

- Tudo bem!

Lógico que eu queria saber o que era, mas normalmente eu não fazia muitas perguntas nem conversava muito com meu pai. Ele é mais sinônimo de amor e carinho do que conselhos e conversas. Ao chegar em casa levei um susto. A mesa de jantar estava tão bonita. Tudo em seu devido lugar e a comida estava em cima. Não vou ter que cozinhar – pensei. Mas quem fez isso tudo?

- Pode sentar filha.

Sentei em uma das cadeiras e esperei curiosa.

Meu pai surgiu de dentro da cozinha segurando as mãos de uma linda mulher alta, de pele clara, cabelos escuros – preto eu acho – e olhos verdes.

- Essa é a Carla filha.

- A sua namorada?

- Agora mais do que isso. Nós vamos nos casar e ela vai morar conosco a partir de hoje.

- Que legal! – tentei parecer entusiasmada.

O que deu nele? Conhece uma mulher a oito meses, não me apresenta e vai se casar com ela? Eu sei o quanto ele quer uma família de novo, mas trazer uma desconhecida pra casa é estranho. Mas como sempre, logicamente que eu não direi nada. Após o jantar subi para meu quarto.

Garçonete, madrasta e pior... a ausência da mãe. É uma perfeita história de princesas (risos). Que besteira! Quem sabe? Uma linda princesa de All Star. Eu preciso dormir antes que eu fique mais louca do que estou – pensei.

Tombei na cama e praticamente desmaiei de tanto sono.

Notas finais
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