O Poeta de Saint Clarice

3 O Srº Vasconcellos a Caminho da Santa


Notas iniciais
Esse foi betado pelo Pallas.
Tem muito mais pronto, só não sei quando vou postar.

De longe pode ver a cabeça cheia de fios loiros escapando por debaixo de uma velha cartola. Mesmo com apenas um fiozinho de luz do dia, Oscar era inconfundível. Seu jeito “malandro” de caminhar proporcionava um charme vulgar e engraçado.

Apesar de muito magro era saudável e forte. Era tão pobre quanto Vincent, mas amarrava todas suas esperanças de riqueza à parte da família que morava na cidade de fato. Família essa que em alguns anos se reduziu a apenas o velho primo De Luca. Velho e ranzinza segundo contava Oscar.

Estava longe de estar bem vestido, mas era evidente que tentara. Uma calça com finas listras verticais e brancas não cobriam nem a canela cinza de Oscar. Por cima de sua já surrada camisa azul um suéter desbotado.

Vincent teve a impressão que o amigo ficava melhor nas suas habituais roupas. Parecia muito mais velho que era. Ninguém daria por aquele esfarrapo humano dezenove anos.

— Pois bem, já podemos ir – disse Oscar quando chegou perto de Vincent – Meu Deus, mas que roupa ridícula amigo.

— O que devo dizer de seus trajes?

— Não me bajule Vincent sabe que não gosto disso e menos ainda de criticas.

— E como faremos pra chegar à cidade? – havia esquecido de perguntar naquela manhã – Afinal é um longo caminho até os bairros urbanos mais próximos de nós.

— Por Deus Vincent. Quantas pernas você tem?

— Se minhas contas estiverem certas duas – resmungou – Mas se caminhar toda está distancia no fim da noite não terei nenhuma.

— Como você é mal agradecido, estou lhe fazendo um favor – não deixou Vincent protestar – Não, não tente se desculpar pequeno poeta, vamos andando que a estrada é longa e o Srº Vasconcellos nos espera.

— Senhor Vasconcellos?

— Sim sim, um musico de excelentíssima qualidade e de uma carroça velha mas resistente – Piscou para Vincent – Afinal de contas o que pensastes? Que eu iria caminhar até a cidade? Tolo poeta, tolo.

***

Vasconcellos era um velho surdo que tocava uma flauta doce pra lá de amarga. Vivia a alguns minutos da casa de Vincent e com certeza tinha sido ludibriado por Oscar a levá-los até a cidade.

Durante todo o trajeto pelo caminho que ia se alargando, Oscar falava das possibilidades de um musico de talento na cidade. Tinha certeza que foi assim que Oscar convenceu Vasconcellos a ir até a cidade numa noite tão fria.

— Mas é claro, é perfeitamente razoavel – respondia com ênfase – Um musico de talento pode muito bem tocar em qualquer lugar.

— Porém é muito complicado para um velho como eu – respondeu o Sr. Vasconcellos com sua voz grave quase gutural.

— Oh, não diga coisas tão tolas – disse Oscar – Quando chegarmos a Saint Clarice o senhor vai poder rejuvenescer, diga a ele Vincent, diga a ele.

Vincent permaneceu imóvel e sem falar uma silaba sequer.

— Aquela cidade é mágica Sr. Vasconcellos, a ruas tem tanta luzes que a noite é mais clara que o dia – As pessoas são tão gentis que depois de conhecê-las estranhamos até nossos parentes mais próximos.

Vasconcellos parecia não respirar ouvindo o jovem.

— Há tantos teatros, espetáculos, bares, músicos e meretrizes que não falta jamais uma rapariga de corpo quente a um homem e um copo de absinto a um artista – disse dando um olhar de desdém a Vincent.

— Ah! Como tu és sonhador Oscar, é deveras tolo tentando me iludir, mas eu sou pior de permitir que me iluda.

— Posso jurar agora mesmo pela alma de sua mãe se quiser Senhor.

— É de certo que não quero, deixe minha pobre mãe fora disso – deu uma pesarosa risada.

— Eu juraria pela minha, mas todos sabem que não a tenho em amores – deu de ombros – Mas o senhor vai ver! Uma noite em Saint Clarice é como voltar a adolescência para um velho e a maturidade para uma criança.

— Afinal de contas quem é o poeta aqui Oscar? Você está me saindo um filosofo de primeira.

— Não sou nem um nem outro, são ambos “profissões” de tolos – disse – A única coisa que vale realmente a pena ser nesta vida é rico.

A carroça passou por um buraco que quase fez cair todos e o cavalo vacilou antes de continuar seu trajeto a duras penas. Não tinha nem mais forças para protestar. Suas costelas em destaque sobre o corpo sem músculos.

O Sr Vasconcellos um pouco pelo costume e um pouco pela indiferença que toda conta dos homens velhos não ligava e continuava a chicotear a velho animal.

— Tenho certeza que chegará a Londres – falou Oscar se segurando para não cair – Não, Londres me parece uma cidade muito cinza, ainda mais com aquela rainha Vitória de olho em tudo e todos.

— E para onde irei com todo o talento que diz que tenho?

— Não é obvio? Os homens de talento vão para Paris é claro – respondeu empolgado – É com certeza uma cidade colorida – Vai ser bom para o senhor rever o rosado do corpo das francesas e o azul escuro do céu nas ruas iluminadas por um branco luar.

— E como sabe de tanta coisa de um lugar onde não foi?

— Ainda não fui, ainda.

— Tudo bem, de um lugar aonde ainda não foi.

— Meu primo De Luca, ele me contou mais de mil vezes suas aventuras quando foi a Paris – Contou-me de mulheres com cabelos cor de fogo, homens tão duros como aço e outros tão mole quanto apaixonados – Contou-me até mesmo de fadas verdes aprisionadas em garrafas – Falou-me de poetas e de atrizes, de miséria e de poder, creio que foi justamente essas historias que semearam em meu coração minha gana pelo “bem maior”.

— Bem maior?

— O dinheiro senhor Vasconcellos, o dinheiro – suspirou – Com ele posso ter o que quiser.

— Nem tudo Oscar, nem tudo.

-Tudo! Tudo!

— Não se pode comprar amigos de verdade Oscar – disse em um tom sério enquanto chicoteava o cavalo.

— Isso depende pelo o que entende por verdade.

— Não sei o que é a verdade, mas sei muito bem o que é a mentira – falou o velho em tom seco – E esses falsos amigos todos se vão quando acaba o dinheiro.

— Pois digo que isso é perfeito – retrucou – Me diga qual é o amigo que nunca vai embora? Nenhum – E, portanto como pode julgar meus amigos de riqueza menos reais que os seus de pobreza? – Para mim amigos interesseiros são os mais sinceros que se pode ter – Sabemos muito bem quando irão nos abandonar e quando irão nos apoiar.

— Você é irremediável Oscar.

— Não me preocupo com os maus Sr. Vasconcellos, pois desses sei o que posso esperar – Me preocupo com os bons, pois estes sim podem me surpreender e nem sempre de boa maneira.

Vasconcellos parecia enraivecido e incomodado com o rapaz de visão tão peculiar da vida. E sentiu-se extremamente aliviado quando o rapaz anunciou que ia descer com seu amigo mudo.

Os dois rapazolas desceram justamente quando iam entrando na cidade de Saint Clarice. Segundo Oscar não era de bom grato as pessoas os verem em uma carroça tão velha.

Além disso, Vasconcellos ia para um bairro de músicos enquanto os jovens iam para o decadente teatro de “Louise”.

Notas finais
Capitulo muito falado e até certo ponto Filosofico.