O Poeta de Saint Clarice
4 Bem Vindo a Saint Clarice, bem vindo ao Louise!
— Você não devia ter iludido o pobre homem – comentou Vincent mal humorado.
— Oh Vincent você é surdo? – respondeu – Em que momento eu iludi Vasconcellos?
— Quando disse que ele tinha talento.
— Nunca disse que ele tinha talento – Apenas disse que músicos de talento vão para Paris – recolocou a cartola em cima dos cabelos loiros – Agora chega de conversa, vamos andando.
A medida que iam andando em direção ao centro de Saint Clarice as ruas iam se iluminando. Ruas não mais de terra batida, mas de pedras disformemente colocadas.
As musicas dos casebres e cabarés inundavam a noite com uma alegria instantânea e vigorosa. Alguns senhores com o rosto conveniente cobertos passavam rindo com senhoras de rostos pintados.
Nas vielas e becos por qual passavam ouviam sussurros roucos e inutilmente repreendidos. E em cada cantinho das ruas um delicioso pecado se estendia até as jovens almas amantes. A Luxuria, a Gula, a Ira, a Inveja, a Vaidade, a Avareza e Preguiça. Eram tão reais naquele lugar que se podia ver caminhar pelas ruas sombreadas.
Na casa das cortesãs mais “respeitáveis” de Saint Clarice era possível ouvir o grito da Luxuria rogando por seus amados. E nos grandes teatros é possível ver todas as noites a Srtª Vaidade sentada no seu camarote, ao lado da sua irmão mais nova, Srtª Inveja.
Um mundo completamente diferente do que Vincent estava acostumado se abria diante dos seus olhos. Um mundo de pecado e de a cima de tudo, prazer. De ascensão carnal e mental, e decadência espiritual e moral.
Lá adiante um Teatro de aspecto imponente, mas mal tratado erguia-se sob o céu apinhado de estrelas que insistiam em travar um duelo perdido com a lua, a fim de brilhar mais que a majestosa bola prateada que tomava conta do céu.
Os dois jovens esperaram alguns senhores saírem da frente do Teatro de “Louise” antes de fazer a primeira investida no local.
Oscar entrou com alguma relutância, parecia finalmente perceber como ficará ridículo com aquela cartola velha. Vincent o seguiu sem dizer uma palavra.
A senhora que os recebeu tratou logo de enxotá-los pra fora sem que tivessem chance de explicar qualquer coisa.
— Para o diabo com essa velha, para o diabo – resmungava Oscar sem parar.
Vincent sugeriu que dessem a volta no teatro e entrassem pelos fundos a procura do velho De Luca. Idéia prontamente rejeitada por Oscar que teve a mesma idéia alguns minutos depois e tratou logo de por em pratica.
Já acostumado com situações como aquela o pequeno poeta não fez objeções. Apenas seguiu o loiro por uma viela que contornava as paredes manchadas do Teatro.
Encontraram uma porta grossa em uma das laterais. Tiveram que emburrar os dois para que a porta se abrisse aos poucos com um rangido alto. Já dentro do Teatro ouviam vozes animadas vindo do coração do prédio. Procuraram seguir as vozes, mas andavam sem fazer barulho e com a respiração devidamente controlada.
À medida que os sons ficavam mais altos Vincent começava a identificar algumas vozes de mulheres. Passaram por uma sala em que se ouviam gemidos altos de mulher e uns guturais estremecimentos masculinos.
Diziam coisas estranhas, sórdidas e algumas coisas ditas Vincent não compreendera muito bem. Não sabia se estavam brigando ou não. Enquanto isso Oscar colava o ouvido na porta e parecia diverti-se com a cena.
Oscar chamou Vincent com sinais para que também escutasse de perto os barulhos estranhos que vinham do camarim de alguma atriz qualquer. Mas Vincent já se perdia em outros sons. Ali perto muitas mulheres conversavam e davam risadinhas agudas. Vincent fechou bem os olhos para prestar atenção no que diziam, mas só pode captar algumas palavras ao vento.
Falavam de uma outra mulher, quanto a isso não havia duvidas. Comentavam dos seus cabelos loiros e teciam elogios em um tom completamente irônico. Um rapaz mais experiente reconheceria a inveja facilmente na voz daquelas mulheres. Mas o jovem Vincent ainda era bobo o suficiente para não pensar no mal como primeira hipótese de tudo.
Pensou em se arriscar mais e dar uma olhadela para dentro da sala. A porta estava entreaberta e deixava espaço para uma sutil espiadela. Olhou com os olhinhos vidrados de excitação para as donas das vozes. Quando de fato “viu” a cena arfou fundo e segurou a respiração. Ficou por alguns segundos sem respirar devido a surpresa.
Várias mulheres em trajes mínimos se tocavam. Umas passavam uma tinta clara no rosto das outras, enquanto uma ruiva baixa amarrava algo nas costa de uma morena de olhos bem claros. A maioria não cobria o busto e desfilavam muito à vontade perante as amigas.
Não teve nem mesmo tempo de pensar sobre aquilo quando sentiu uma mão pesada o acertar bem em cheio. O torpor foi tão grande que ficou estirado ali no chão sem dizer nada. Não entendia o que estava acontecendo. Alguns instantes depois Oscar era arremessado ao lado do amigo poeta. Estava com um leve corte na sobrancelha, que escorria sangue até os olhos amedrontados.
— Seus moleques atrevidos, quantas vezes terei de por vocês pra fora? – gritava um homem muito forte – Mas isso não se repetira, vou arrancar os olhos de vocês seus malditos.
As meninas do quarto pareciam ter ouvido pois pararam de repente as risadinhas de deboche na sala ao lado.
O homem de cabelos bem grisalhos tinham na mão um porrete que enquanto esbravejava ameaças aos garotos, fingia acertar na cabeça de um dos dois a qualquer momento.
— Estou cansado de trombadinhas como vocês invadindo o Teatro para espionar as atrizes e roubar seus pertences.
— Mas senhor – tentou argumentar Vincent – Nós nunca viemos aqui antes, além do mais... – Foi interrompido por uma grande bofetada na boca.
Oscar pulou por cima do amigo como para proteger de eventuais golpes que não vieram. O homem continuava ameaçando os garotos e desferindo alguns chutes em Oscar que pendia sobre o corpo inerte de Vincent.
No quarto das meninas algumas se arriscavam a olhar pela porta entreaberta. Algumas gritavam mensagens de apoio ao violento senhor, enquanto outras mais misericordiosas pediam pelo fim da surra.
Uma garota de cabelo castanho escuro e busto grande abriu a porta como um furacão. Fitou por apenas alguns segundos a cena e se lançou contra o senhor que nada fez.
— Seu idiota, são apenas crianças – dizia aos berros – Quer matá-los? É isso que você quer?
— Mas Cristine – rebateu o homem como num suplicio – É por você que faço isso – abaixou o porrete – Você mesmo me disse que estava cansada desses trombadinhas por aqui.
— Pedi que espantasse e não que os matasse.
— O que está acontecendo aqui? – Disse um homem calvo e de bigode engordurado que saia do quarto onde se ouviu os gemidos.
— Esse idiota quase mata uns pobres garotos – respondeu Cristine furiosa.
— Isso é verdade Adolfo? – perguntou calmamente o calvo ainda sem fechar a porta do quarto. Vincent pode ver pernas muito brancas dentro da sala, mas foi tudo que pode distinguir antes da cabeça latejar com força.
— Eu os peguei espionando as garotas senhor Malvin – enfatizou bem a segunda parte –E também escutando por trás da porta da Srtª Marguerite.
O Senhor Malvin levantou uma das sobrancelhas e pareceu ponderar sobre o assunto. Olhou os meninos caídos, as varias dançarinas no corredor a beira da porta do camarim, o velho senhor mas ainda muito forte Adolfo. Antes de falar coçou o prodigioso bigode negro e sua voz saiu preguiçosamente.
— Parece que esses garotos são os mesmo que andam nos furtando – Não há outra opção a não ser entregá-los a policia – olhou para Cristine, mas ela não se opôs.
Adolfo resmungou de decepção – Ao menos amanhã a está hora, já estarão sem as mãos.
Oscar resolveu falar em defesa própria.
— Não somos ladrões, não somos trombadinhas e nada disso do que nos acusa – gritou com o fio de voz que ainda lhe sobrava – Nosso único crime foi o de apreciar a vista de tão belas senhoras – galante mesmo nervoso, seu elogio lhe rendeu risadinhas das dançarinas ao fundo – Mas quanto a isso que homem poderá nos julgar? Quem em sã consciência deixaria de olhar a imagem de anjos de candura em seu momento de mais pura inspiração?
— Você fala muito bem rapazinho – observou Sr. Malvin – Mas nenhum desses elogios explica o que fazem aqui.
— Pois bem, se me permitir um copo de água posso explicar tudo.
— Mas é claro que não lhe darei nada, ou conta agora ou vai com Adolfo, que tenho certeza ficaria muito satisfeito em dar uma volta com vocês.
— Tudo bem – concordou Oscar – Minha explicação é muito simples.
— Pois então fale logo – implicará nervoso o velho senhor com o porrete na mão.
— Creio que neste teatro trabalhe um velho senhor chamado De Luca não?
— Sim, e como sabe disso? – indagou Malvin.
— Pois ele é meu tio, e me convidou para ser seu assistente.
— Naturalmente esse outro rapaz também veio com está função?
— Sim.
— Eu sempre achei De Luca estava velho demais para ficar só disse Malvin parecendo mais refletir do que expressar sua opinião para os outros – Chamem De Luca, se for verdade decidiremos o que fazer com eles, senão irão com Adolfo.
Minutos depois um senhor velho e curvado apareceu no corredor carregando um esfregão e com o olhar perdido. De Luca quase cego mas pode reconhecer o sobrinho que o receberá com muita alegria para não dizer alivio.
Sr. Malvin já pensava em deixar o caso por encerrado quando Adolfo o relembrou das circunstancias.
— O senhor não pode deixar os dois sem punição, afinal eles estavam espionando a senhorita Marguerite.
Sempre que falavam na tal Marguerite o calmo Sr. Malvin tinha um estremecimento. Talvez por medo de decepcionar a tal Marguerite Malvin pensava se seria necessária a punição ou não.
De um lado Adolfo parecia sedento de vontade de castigar os atrevidos garotos, do outro Cristine insistirá que eram apenas crianças.
De dentro da sala onde Malvin estivera saiu uma mulher linda. Cabelos loiros, ou seriam dourados? Uma pele tão branca quanto a neve que cai no inverno do campo. Os olhos cor de mel atentos a tudo e as mãos finas e delicadas. Não era muito alto e nem muito magra, mas mantinha proporções perfeitamente atraentes e sensuais.
— Não faça nada a esses pobres garotos Malvin – parecia que estivera escutando toda a trama de dentro do aposento – Estamos todos errados, seja na vida continua como no momento presente – ajeitou uma luva branca em sua mão esquerda a foi puxando-a aos poucos até cobrir metade dos braços – Adolfo está completamente errado por surrar crianças – seu vestido era longo e azul e destacavam seus olhos brilhantes – As crianças erradas por se deixar levar pela curiosidade e espionarmos – no pescoço um colar de perolas lhe descia delicado nos seios fartos – De Luca por não avisar que convidará seu sobrinho a passar uma temporada conosco – brincos de brilhante pendiam nas orelhinhas brancas – E Cristine por defender tão avidamente desconhecidos contra seus próprios colegas de Teatro – E quando disse isso, até mesmo o bobo Vincent pode ver nos olhos das duas garotas a rivalidade existente entre elas – Portanto façamos de todos esses erros um acerto, vamos todos voltar a nossa vida normal, pois logo o espetáculo vai começar.
Se aquilo fosse uma ordem não poderia causar maior efeito em Malvin.
— A senhorita Marguerite está completamente certa – disse – Todos voltemos a nossa vida normal.
E assim foi feito.
As garotas voltaram para seu camarim coletivo, mas não antes de Cristine lançar um olhar mortal sobre Marguerite que nem sequer a percebeu voltando a seu camarim. Adolfo decepcionado foi para a frente do Teatro.
Oscar ajudou Vincent a levantar e seguiu seu velho tio pelo teatro escuro.
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