O Poeta de Saint Clarice
5 Imaculado Coração!
Andaram algum tempo na penumbra daqueles corredores encardidos. Apesar de todos os carpetes e aparência de abandono do teatro, ao menos do lado de fora, havia um cheiro bom no ar.
O cheiro ia diminuindo a medida que seguiam De Luca e Vincent percebeu que o cheiro adocicado eram das garotas que se trocavam e andavam nuas sem pudor pelo camarim grande porém lotado. Imaginava porém que o cheiro era apenas de Cristine.
Oscar murmurava algo sobre Marguerite, mas era Cristine que encantara o coração doido de Vincent. Não parava de suspirar e até sorriu enquanto manquitolava pelo corredor.
Ela tinha os olhos bem negros e uma pele suficientemente branca mas sem exageros. Um nariz reto e bem pronunciado e até empinado que lhe conferia um ar de desdém. Dentro do quarto com as meninas pode ver aquele sorriso largo e cativante com as mechas negras caindo do lado de seu rosto perfeitamente desenhado.
Podia jurar e jurou mais tarde pra si mesmo que era um anjo aquela menina, não! Menina não, aquela mulher.
— Vincent! Vincent! – exclamava Oscar – Acorde bom amigo, ou ao menos não morra, felizmente ainda precisamos de você.
— Estava sonhando Oscar, estava sonhando...
Deixaram De Luca caminhar um pouco na frente para que pudessem conversar a sós.
— Não me diga – ralhou – Já sei com o que sonhas, pois sonho com elas também.
— Não Oscar, não sonho com elas, sonho apenas com ela.
— Mas que tolo sem tamanho você vêem se revelando – disse – Com tantas mulheres para sonhar você me fala de uma única senhora – levantou o dedo fazendo um sinal de desaprovação – Tsic tsic.
— Não importa o que diga Oscar, o certo que fui completamente enfeitiçado por aquela senhora, me sinto como Armand.
— Então trate logo de a esquecer – Disse Oscar um pouco mais ríspido – O fim de Armand é trágico e assim é de todos os tolos pecadores.
— Mas nisso não há nada de pecado, há só o de belo e o amor mais virtuoso que se pode ter – disse feliz o manco Poeta – Um amor que não se preocupa com sigo mesmo, mas com a amada e com todos os sorrisos que ela pode dar em uma manhã de sol.
— Justo aí que mora o perigo e o pecado.
— Mas que pecado é este Oscar? Que pecado é este que me proíbe de amar, venerar, gritar, sentir, viver e sobreviver, olhar, desejar, iluminar, pensar, dançar, sentir, me encantar e cantar pela minha amada prometida?
— Posso enumerar milhares dele pequeno Vincent – fazendo uma das suas caras irônicas começou – Primeiro o Egoísmo – Vincent fez cara de não entender – Sim o egoísmo, não há nada de heróico em querer mais bem aos outros que a si mesmo – continuou – mas o pecado em desejar apenas aquela garota loira.
De Luca os enxotou a andar mais rápido mas Oscar continuou em tom de irritação.
— Há um egoísmo claro em você – disse – Com tantas garotas para serem desejadas, com tantas delas para serem amadas e cortejadas você resolve dedicar seu coração e muito provavelmente seus poemas apenas uma delas? – olhou para o tio que ia longe antes de terminar – Se o que sentes é mesmo tão puro, tão divino devia mesmo é amar todas elas, devia mesmo é por cada uma delas no colo a cada tarde quente de verão e acariciar seus cabelos até que elas se sentissem bem o suficiente para lhes dar tudo que podem dar a um homem.
— Mas como posso dar meu coração a todas se já está prometida a uma única mulher?
— Mas as leis do coração são diferentes das leis dos homens o trato que se fecha pela vida inteira hoje se desfaz amanhã sem maiores frustrações – falou mais calmo – desde que se dedique o coração sem egoísmo a todas mulheres que ele puder agüentar.
— Minha coração pensa, ou melhor, sente muito diferente do seu – deu um risinho antes de falar – Alias, a Loira nada me encantou, mas aquela morena de cabelos bem negros...essa sim merece a dedicação de minha vida inteira.
— Até quando comente um erro você consegue cometer dois – suspirou Oscar exaurido — Nenhuma mulher tem o direito de escravizar o coração de um homem, mas se uma daquelas tivesse com certeza seria a Srtª Marguerite.
— Nunca vi olhos tão lindos como o de Cristine.
— E eu tão pouco seios tão fartos como de Marguerite.
— Em Cristine há uma doçura gigantesca por trás de sua personalidade combativa, há alegria em seus movimentos e decisão e independência nas suas palavras.
— Já Marguerite tem senso de humor e de poder, além de uma sensualidade inigualável, nenhuma daquelas donzelas tem ciência do seu próprio corpo como Marguerite – pigarreou – Ela é encantadora e sabe disso e o melhor; Ela precisa mostra que assim o é.
Vincent ficou bem vermelho antes de falar
— Cris...Cristine – bufou e desabafou – Tem um corpo esculpido por aqueles todos da antiguidade mas que tinham a esculturas mais divinamente perfeitas que dos nossos mestres escultores de hoje e de amanhã – seus olhos brilhavam – Seu quadril é movido a canções de anjos quando anda.
— Marguerite está longe de ser um anjo – riu – Ela é um demoninho ou melhor, ela é o capeta em pessoa – um arrepio percorreu a espinha de Vincent enquanto Oscar falava empolgado – Ela tem os olhos mais maldosos e mais ambiciosos que já vi, não me surpreenderia se ela trocasse aquele homem polido por um velho rico.
— Isso não lhe assusta – perguntou Vincent – Esse materialismo dela não lhe assusta?
— Mas é claro que não – desta vez falou tão empolgado tão alto que De Luca os xingou e gritou para que andassem logo – É isto que mais me atrai, quando vai entender? A violência da paixão é boa o marasmo do amor não.
— Ainda assim Marguerite não tem o encanto de Cristine.
— Vou lhe dizer o que a morena não tem – falou fechando o punho perto do rosto de Vincent – E preste muita atenção – serrou os dentes e disse sem paciência – Cristine não tem noção do poder que tem e também não o sabe usar, ainda não sentiu o gostinho do poder, porque quando sentir fará de tudo para se tornar igual a cristine – Vincent em um impulso rebateu – não – Oscar ralhou alto – Sim! Sim mil vezes mais, é somente porque Marguerite é mais bonita e mais inteligente que Cristine ainda não é a puta mor deste lugar.
Depois disso nenhum dos garotos falou.
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