O Poeta de Saint Clarice
6 De Luca - O velho
Notas iniciais
Um quarto com paredes verdes escuras e com algumas rachaduras ao lado da cama e perto criado mudo que eram todos os moveis no aposento. Suas roupas amassadas e mal cheirosas espalhavam-se em cima da cama desarrumada.
O velho não parava de murmurar palavras desencontras e falar uma língua particularíssima. Vincent e Oscar quando chegavam perto demais para escutar eram recebidos por um milhão de fragmentos do cuspe que jorrava a cada palavra, já se afastavam-se demais não conseguiam entender “bulhufas”.
- Excutien bien mulequies – tentava dizer De Luca por trás do cuspe – Voceisis vaum judar eu a trabaiar.
- É para isso que estamos aqui meu tio – falou Oscar com um belo sorriso fingido – diga o que faremos.
Vincent estava agachado do lado de fora limpando o rosto com um pote com água que De Luca pegara.
- Vuce – apontou pra Oscar – viem cum eu – olhou pra Vincent – O mininho piquenu vai judar eu cum as corda.
Oscar e De Luca saíram com passos apressados pelo corredor fazendo “toc toc” com os sapatos até não poderem mais ser ouvidos. Vincent pensou em deitar naquela cama, mas era deveras pútrida para um ser humano, encostou-se e dormiu.
Algum tempo depois acordou com o velho tio de Oscar o amaldiçoando e o chutando com chutes tão fracos que não machucaram uma senhora – Tu vem judar eu cum as corda.
O decadente Teatro Louise era bem maior do que o jovem poeta imaginara, tinha milhares de portas espalhadas em tantos corredores que poderia facilmente se perder sem De Luca.
Todo o teatro tinha paredes vermelhas com um carpete negro e alguns quadros envelhecidos de mulheres nuas e homens pintados em alguma acrobacia com o corpo. Os mais assustadores, porém eram aqueles quadros em que homem pintados de animais faziam acrobacias com o corpo das mulheres.
Parecia que aquela vontade insaciável de Oscar falar tinha uma fonte familiar, pois nem por um segundo o velho parou de falar. Não andava bem, não via bem, não escutava bem e muito menos falava bem, porém não desistia de falar.
Pouca coisa Vincent conseguiu entender, estava mais preocupado com o seu rosto inchado ainda do porrete que Adolfo lhe esbofeteou. O que pescou das palavras de De Luca foram algo sobre a época de ouro de Louise, das mulheres que passaram por sua vida e das “putas de hoje em dia”. Dizia ele que a culpa eram delas por o teatro andar esvaziando tanto.
Depois de andar, entrar, virar e subir chegaram ao ponto de chegada. Há tempos o velho era responsável por abrir as cortinas do teatro, além disso, era ele que puxava as cordas que faziam os cavalos andar, o mocinho subir ao céu e o sol da lugar a lua, além de varias outras engenhocas que faziam o mundo no palco mudar.
De Luca por causa dessas incumbências se orgulhava todo, não contava para ninguém, mas se considerava até um ator. E porque não? Fazia tão parte da peça quanto todos os outros. Ele não contava, no entanto com as doenças e principalmente com a idade. De uns anos para cá a idade tinha dificultado e muito sua coordenação motora e sua força. Ou então talvez as cordas com o tempo estivessem ficando mais pesadas.
Vincent não tinha noção do que encena-vão naquele teatro enegrecido pelo tempo.
Imaginou de um, tudo, só não conseguiu adivinhar o correto. Pensou em Cristine como um anjo que vem salvar o amor e o amado. Pensou nos passaros cantando e das outras garotas a olhando de longe com admiração e vontade de ascender aos céus para se tornarem parte de Cristine.
Pode ver por um fresta da cortina ainda fechada sobre o amplo palco de maneira polida as cadeiras vermelhas encardidas irem pouco a pouco se enchendo, completando-se aos poucos com senhores de bigode finos e bem “penteados”. Esses digníssimos senhores eram acompanhados por senhoras de busto avantajado e rosto pintado, com algumas exceções. Elas olhavam o tempo todo umas para as outras fazendo comentários baixinhos para seus acompanhantes que davam um pequena risadinha mal quista.
Outra espécime facilmente identificável eram as senhoras gorduchas com rostos roliços acompanhadas ou por outras senhoras roliças ou por jovens garbosos, todos muito sorridentes e bem afeiçoados.
Estas ultimas também olhavam para as damas de rostos pintados, porém evitavam fazer cochichos com seus companheiros, que nem sequer olhavam para as damas pintadas, no maximo uma olhadela acompanhada de um sutil e bem escondido piscar de olhos. Estas preferiam sempre comentar com as Senhoras também de sua classe que ao contrario dos homem de bigode lustrosos não riam, mas faziam um careta de descosto como se estivessem comendo algo muito amargo para seu paladar.
Quando ainda faltavam mais de metade das encardidas cadeiras serem ocupados por possíveis ocupantes, toda a gente parou de chegar.
Aos poucos o fluxo de gente foi parando de entrar e um burburinho nervoso se levantou da plateia que começava a se impacientar com a demora.
O Sr Malvin não entende – disse De Luca melancólico – Não importa o quanto ele demore a iniciar o espetáculo – suspirou – Ninguém mais virá.
O Senhor já viu este Teatro cheio? - perguntou Vincent e os olhos do velho brilharam.
O Teatro de Madame Louise já foi o maior da Europa, o maior – continuou mexendo bastante as mãos empolgado com as lembranças - Eu conheci pessoalmente a melhor atriz deste mais malogrado – disse – Ela era esplendorosa, acabou acostumando mal toda essa gente, essas ninfetinhas que temos hoje são todas ordinárias demais para impressionar alguém – sentou e terminou desanimado – a culpa é delas por não termos mais tantos admirados como a tempos atrás.
E como era o nome dela? - perguntou inocente Vincent.
Não importa, não importa mais – tristinho De Luca finalizou o assunto – É hora de trabalhar rapaz...
Do canto posterior ao seu Vincent viu todas as garotas daquele camarim se ajeitando e rindo sem parar com aquele gritinhos estridentes e estranhamente felizes. Elas vestiam um vestido de saia super babada vermelho e preto com meias calças e sapatos negros. Algumas tinha uma luva vermelha e outra preta em cada mão, mas a maioria não tinha nada além de braceletes no braço. Uma fitilha preta amarrada no pescoço dava um leve toque de submissão contida e perversão até certo ponto inocente.
Todas usando saltos altíssimos que fariam qualquer homem de desistir de andar por um bom tempo e corpetes que Vincent tinha certeza faziam com que as moças não respirassem, apesar da logica dizer o contrario.
Por pouco Vincent percebeu os homens sentados no fundo do palco na parte mais sombria. Eram homens de roupa totalmente preta segurando instrumentos na mão. Três deles tinha cornetas nas mãos e outros dois trombones ou talvez três. Dos lado tambores empilhados eram desempilhados e a cada movimento podia descobrir novos homens e outros instrumentos. Violinos, Violões Celos e outros tantos de nomes desconhecido.
Vai começar Jovem, vai começar.
As dançarinas incluindo Cristine fizeram uma vila indiana que tinha na frente a Loira de nome Marguerite. Era realmente bonita, mas lhe faltava algo, não brilhava era opaca. De longe tinha uma alegria corporal memorável, mas seus olhos eram tão...
As luzes diminuíram e as vozes foram sessando aos poucos. As garotas pararam de rir e ficaram um tanto tenso, enquanto os homens lá atras sussurravam como combinando algo de ultima hora.
Uma tensão perpassou pelos rostos de todos e então com um chute no traseiro De Luca apontou para um corda – Puxa, puxa puxa logo.
Porque?
- Apenas puxe, puxe rápido – Falou De Luca exasperado.
Aquele velho era um folgado e não tinha o minimo de respeito. Por isso e por tudo Vincent exigia uma resposta antes de fazer qualquer coisa, mas o velho não o respondia, só fazia o xingar.
Por um instante parou de prestar atenção no velho e prestou atenção no palco. Todos, todos mesmo sem exceção olhavam pra ele com um rosto de insatisfação. Tanto Marguerite com seu sorriso débil e falso quanto Cristine e os homens escondidos com olhares impacientes.
Em um estalo entendeu tudo e as pressas agarrou a corda e começou a puxa-lá com força. Era muito pesada, muitíssimo alias e teve tremenda dificuldades para tal.
Aos poucos e aos trancos a cortina ia abrindo e as luzes do palco apagadas Guardava o espetáculo.
De Luca estava velho, surdo, sujo, cego e morrendo. Com essas mínimas exceções estava completamente saudável e disposto a trabalhar. Vivia em um quartinho nos fundos, do fundo do teatro.
Um quarto com paredes verdes escuras e com algumas rachaduras ao lado da cama e perto criado mudo que eram todos os moveis no aposento. Suas roupas amassadas e mal cheirosas espalhavam-se em cima da cama desarrumada.
O velho não parava de murmurar palavras desencontras e falar uma língua particularíssima. Vincent e Oscar quando chegavam perto demais para escutar eram recebidos por um milhão de fragmentos do cuspe que jorrava a cada palavra, já se afastavam-se demais não conseguiam entender “bulhufas”.
— Excutien bien mulequies – tentava dizer De Luca por trás do cuspe – Voceisis vaum judar eu a trabaiar.
— É para isso que estamos aqui meu tio – falou Oscar com um belo sorriso fingido – diga o que faremos.
Vincent estava agachado do lado de fora limpando o rosto com um pote com água que De Luca pegara.
— Vuce – apontou pra Oscar – viem cum eu – olhou pra Vincent – O mininho piquenu vai judar eu cum as corda.
Oscar e De Luca saíram com passos apressados pelo corredor fazendo “toc toc” com os sapatos até não poderem mais ser ouvidos. Vincent pensou em deitar naquela cama, mas era deveras pútrida para um ser humano, encostou-se e dormiu.
Algum tempo depois acordou com o velho tio de Oscar o amaldiçoando e o chutando com chutes tão fracos que não machucaram uma senhora – Tu vem judar eu cum as corda.
O decadente Teatro Louise era bem maior do que o jovem poeta imaginara, tinha milhares de portas espalhadas em tantos corredores que poderia facilmente se perder sem De Luca.
Todo o teatro tinha paredes vermelhas com um carpete negro e alguns quadros envelhecidos de mulheres nuas e homens pintados em alguma acrobacia com o corpo. Os mais assustadores, porém eram aqueles quadros em que homem pintados de animais faziam acrobacias com o corpo das mulheres.
Parecia que aquela vontade insaciável de Oscar falar tinha uma fonte familiar, pois nem por um segundo o velho parou de falar. Não andava bem, não via bem, não escutava bem e muito menos falava bem, porém não desistia de falar.
Pouca coisa Vincent conseguiu entender, estava mais preocupado com o seu rosto inchado ainda do porrete que Adolfo lhe esbofeteou. O que pescou das palavras de De Luca foram algo sobre a época de ouro de Louise, das mulheres que passaram por sua vida e das “putas de hoje em dia”. Dizia ele que a culpa eram delas por o teatro andar esvaziando tanto.
Depois de andar, entrar, virar e subir chegaram ao ponto de chegada. Há tempos o velho era responsável por abrir as cortinas do teatro, além disso, era ele que puxava as cordas que faziam os cavalos andar, o mocinho subir ao céu e o sol da lugar a lua, além de varias outras engenhocas que faziam o mundo no palco mudar.
De Luca por causa dessas incumbências se orgulhava todo, não contava para ninguém, mas se considerava até um ator. E porque não? Fazia tão parte da peça quanto todos os outros. Ele não contava, no entanto com as doenças e principalmente com a idade. De uns anos para cá a idade tinha dificultado e muito sua coordenação motora e sua força. Ou então talvez as cordas com o tempo estivessem ficando mais pesadas.
Vincent não tinha noção do que encena-vão naquele teatro enegrecido pelo tempo.
Imaginou de um, tudo, só não conseguiu adivinhar o correto. Pensou em Cristine como um anjo que vem salvar o amor e o amado. Pensou nos passaros cantando e das outras garotas a olhando de longe com admiração e vontade de ascender aos céus para se tornarem parte de Cristine.
Pode ver por um fresta da cortina ainda fechada sobre o amplo palco de maneira polida as cadeiras vermelhas encardidas irem pouco a pouco se enchendo, completando-se aos poucos com senhores de bigode finos e bem “penteados”. Esses digníssimos senhores eram acompanhados por senhoras de busto avantajado e rosto pintado, com algumas exceções. Elas olhavam o tempo todo umas para as outras fazendo comentários baixinhos para seus acompanhantes que davam um pequena risadinha mal quista.
Outra espécime facilmente identificável eram as senhoras gorduchas com rostos roliços acompanhadas ou por outras senhoras roliças ou por jovens garbosos, todos muito sorridentes e bem afeiçoados.
Estas ultimas também olhavam para as damas de rostos pintados, porém evitavam fazer cochichos com seus companheiros, que nem sequer olhavam para as damas pintadas, no maximo uma olhadela acompanhada de um sutil e bem escondido piscar de olhos. Estas preferiam sempre comentar com as Senhoras também de sua classe que ao contrario dos homem de bigode lustrosos não riam, mas faziam um careta de descosto como se estivessem comendo algo muito amargo para seu paladar.
Quando ainda faltavam mais de metade das encardidas cadeiras serem ocupados por possíveis ocupantes, toda a gente parou de chegar.
Aos poucos o fluxo de gente foi parando de entrar e um burburinho nervoso se levantou da plateia que começava a se impacientar com a demora.
- O Sr Malvin não entende – disse De Luca melancólico – Não importa o quanto ele demore a iniciar o espetáculo – suspirou – Ninguém mais virá.
- O Senhor já viu este Teatro cheio? — perguntou Vincent e os olhos do velho brilharam.
- O Teatro de Madame Louise já foi o maior da Europa, o maior – continuou mexendo bastante as mãos empolgado com as lembranças — Eu conheci pessoalmente a melhor atriz deste mais malogrado – disse – Ela era esplendorosa, acabou acostumando mal toda essa gente, essas ninfetinhas que temos hoje são todas ordinárias demais para impressionar alguém – sentou e terminou desanimado – a culpa é delas por não termos mais tantos admirados como a tempos atrás.
- E como era o nome dela? — perguntou inocente Vincent.
- Não importa, não importa mais – tristinho De Luca finalizou o assunto – É hora de trabalhar rapaz...
Do canto posterior ao seu Vincent viu todas as garotas daquele camarim se ajeitando e rindo sem parar com aquele gritinhos estridentes e estranhamente felizes. Elas vestiam um vestido de saia super babada vermelho e preto com meias calças e sapatos negros. Algumas tinha uma luva vermelha e outra preta em cada mão, mas a maioria não tinha nada além de braceletes no braço. Uma fitilha preta amarrada no pescoço dava um leve toque de submissão contida e perversão até certo ponto inocente.
Todas usando saltos altíssimos que fariam qualquer homem de desistir de andar por um bom tempo e corpetes que Vincent tinha certeza faziam com que as moças não respirassem, apesar da logica dizer o contrario.
Por pouco Vincent percebeu os homens sentados no fundo do palco na parte mais sombria. Eram homens de roupa totalmente preta segurando instrumentos na mão. Três deles tinha cornetas nas mãos e outros dois trombones ou talvez três. Dos lado tambores empilhados eram desempilhados e a cada movimento podia descobrir novos homens e outros instrumentos. Violinos, Violões Celos e outros tantos de nomes desconhecido.
- Vai começar Jovem, vai começar.
As dançarinas incluindo Cristine fizeram uma vila indiana que tinha na frente a Loira de nome Marguerite. Era realmente bonita, mas lhe faltava algo, não brilhava era opaca. De longe tinha uma alegria corporal memorável, mas seus olhos eram tão...
As luzes diminuíram e as vozes foram sessando aos poucos. As garotas pararam de rir e ficaram um tanto tenso, enquanto os homens lá atras sussurravam como combinando algo de ultima hora.
Uma tensão perpassou pelos rostos de todos e então com um chute no traseiro De Luca apontou para um corda – Puxa, puxa puxa logo.
- Porque?
- Apenas puxe, puxe rápido – Falou De Luca exasperado.
Aquele velho era um folgado e não tinha o minimo de respeito. Por isso e por tudo Vincent exigia uma resposta antes de fazer qualquer coisa, mas o velho não o respondia, só fazia o xingar.
Por um instante parou de prestar atenção no velho e prestou atenção no palco. Todos, todos mesmo sem exceção olhavam pra ele com um rosto de insatisfação. Tanto Marguerite com seu sorriso débil e falso quanto Cristine e os homens escondidos com olhares impacientes.
Em um estalo entendeu tudo e as pressas agarrou a corda e começou a puxa-lá com força. Era muito pesada, muitíssimo alias e teve tremenda dificuldades para tal.
Aos poucos e aos trancos a cortina ia abrindo e as luzes do palco apagadas Guardava o espetáculo.
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