O Poeta

25 Silêncio


Notas iniciais
Oi meus queridos e queridas, aqui está o capítulo como prometido. Acabei de entrar de férias e por isso só pude postar hoje. Mas aqui está e aproveitem!

Assim que ouviu o "corta" do diretor do programa Itachi atravessou a distância da platéia e o cenário da entrevista sem nem ao menos demonstrar nervosismo, logicamente saberia lidar com aquilo. Sasuke estava apenas blefando. Apenas blefando, tinha que estar não é mesmo?

Itachi ajeitou o elástico que prendia os longos cabelos negros e seguiu em direção ao irmão que permanecia sentado no sofá do talk show.

Aquela expressão cínica de quem estava tramando alguma coisa sempre o deixava pra morrer, parecia que era algum tipo de competição entre os dois. Na verdade, Sasuke sempre foi o problemático da família e o queridinho dos pais, se arrumava problema na escola era sempre protegido, não importava o quão errado estivesse.

E era naquilo que uma criação cheia de mimo havia resultado.

― E então? Eu tive um retorno bem dramático, não acha? ― Sasuke sabia que havia pisado no calo do irmão, podia enxergar a raiva por trás da postura inabalável.

― Por que não conversamos nos bastidores? Seria mais apropriado. ― Itachi procurou sorrir e acenar para a apresentadora do outro lado do estúdio.

Era o mínimo que deveria fazer naquela situação em que estava envolto de câmeras e pessoas curiosas, bastava um deslize e viraria manchete nos principais jornais do país.

― Que seja.

Os dois irmãos caminharam até uma sala vazia que normalmente era usada para fazer o cabelo e a maquiagem dos convidados para o programa. Claro que a tensão em cada passo não os deixou reparar nas inúmeras fotos de celebridades japonesas e internacionais que por ali já haviam passado.

Ainda que o ar condicionado central estivesse ligado, o suor escorria pelas costas de Itachi e assim que cruzaram o extenso corredor, ele certificou-se de que não haveria ninguém para escutar a pequena conversa que teria com seu irmão mais novo.

― O que foi aquilo sobre esse tal livro? Por acaso você chegou aqui chapado? ― Perguntou ainda incrédulo com tudo aquilo porque afinal de contas o havia tirado daquele inferno de clínica de reabilitação até mesmo antes do que planejara.

O escritor apoiou-se na parede ao mesmo tempo em que olhava fixamente para Itachi, podia analisar cada contração involuntária de seu rosto que até então não pensou ser tão engraçado, quer dizer, seu irmão mais velho sempre condenou qualquer atitude que demonstrasse fraqueza e agora estava ali brincando com a sua fiel moeda por entre os dedos e de testa franzida.

― Ficar sem fazer nada o dia todo é um tanto tedioso e também o psiquiatra me recomendou escrever sobre tudo aquilo que eu conhecia e bem... ― O sorriso foi se abrindo aos poucos enquanto procurava palavras para encaixar em seu repertório. ― ... Eu conheço você, conheço aquela conta no exterior e eu nunca tinha escrito sobre esse tipo de coisa.

― Sabe o que você é, Sasuke? Uma merdinha traiçoeira. Isso é o que resume você de verdade. ― Itachi sentou-se no divã ainda chocado com o que acabara de ouvir de seu próprio irmão. ― Ao menos tem idéia do que está prestes a fazer? Acho que a heroína destruiu os seus neurônios.

Sasuke parecia não ligar, mas sentia-se um pouco acanhado quando citavam o seu envolvimento com a heroína, era como se estivesse voltando aos tempos de infância em que era apontado como o coitado que perdera os pais.

Pena era o tipo de sentimento que ele mais detestava. Não, não, não... Sasuke simplesmente odiava.

E aqueles segundos de viagem no interior de sua mente tinham aberto uma brecha para que seu irmão pudesse tomar o rumo daquela conversa inútil:

― Veja bem meu querido irmão, você não será louvado por essa gente pela sua honestidade e muito menos agradecido pela sua cidadania inquestionável. Sabe o que vai acontecer? A nossa empresa vai ruir porque ninguém mais vai confiar nos Uchiha, quero dizer, quem é que vai confiar suas ações nas mãos de um corrupto e de outro que entrega a cabeça do próprio irmão?!

Mas Sasuke não pôde conter o riso diante de todas aquelas palavras, não era possível que Itachi fosse tão ignorante a ponto de se entregar tão facilmente.

Ele coçou o queixo pontudo e encarou novamente o irmão mais velho que ainda o olhava sem entender o motivo do riso; aquela expressão era hilária.

Hilária.

― Eu disse algo engraçado?

― Disse. Eu sequer comentei sobre você lá no palco. ― E caminhou até a porta da saleta para verificar se não haveria alguém se esgueirando pelos cantos, talvez fosse uma desconfiança boba, mas era um elemento que sempre aparecia em filmes ou em livros: Alguém sempre escutava atrás da porta. ― Você que entregou toda a merda que faz com o cofre público, a culpa é tanta que a carapuça te vestiu por inteiro e não foi só você, porque acha que a transmissão foi cortada na hora? Hein?

O silêncio predominou por alguns minutos porque pensando bem, Sasuke tinha razão, em nenhum momento tinha dito sobre qual personalidade pública estava envolvida diretamente com o seu futuro lançamento sobre corrupção, ele apenas tinha dito que comentaria mais afundo sobre esse tema em seu próximo livro e que exploraria um pouco mais essa área.

É. Talvez a culpa o fizera se entregar facilmente.

O escritor ainda acompanhou o seu silêncio por algum tempo, mas de nada adiantaria ficar ali olhando para a expressão pensativa do irmão, ele não falaria nada e foi por isso que decidiu deixá-lo sozinho com seus pensamentos, em algum momento alguém entraria na saleta e Itachi sairia de sua reflexão.

Por questão de costume, Sasuke vasculhou no bolso de sua calça a procura de um maço de cigarros, no entanto não encontrou nada além de sua carteira com alguns ienes fajutos que só seriam o suficiente para comprar um vinho barato. Sabe qual? Aqueles que deixam um gosto ruim na boca logo depois de bebê-lo.

Merda! Ele deveria ter sacado dinheiro logo que saiu de casa.

***

As luzes de neon já se faziam presente no cruzamento mais famoso da Ásia e era lá que Sakura se perdia procurando por babujarias em algumas lojas, por exemplo: Um de seus hobbys era colecionar gatinhos de porcelana de todos os tipos e alguns deles até mexiam a patinha de forma contínua.

Mas apesar de estar com duas sacolas cheias de quinquilharias, ainda não tirava de sua cabeça o fato da transmissão ter sido cortada bem no momento em que Sasuke falaria algo importante, era como se o que fosse dito a seguir prejudicasse pessoas importantes e Sakura tinha em sua cabeça que o alvo era alguém em específico.

― O que houve com o seu dedo? ― Uma voz estranhamente familiar lhe dirigiu a palavra. Aquela voz... Aquela voz

Aquela voz

Ela não poderia estar ouvindo aquela voz.

― Não é educado deixar uma pessoa falando sozinha. ― Sasuke debochou pegando com certa brutalidade a mão machucada de Sakura e examinando-a. ― Como fez isso?

― O... O que faz aqui? ― Como por impulso, ela recolheu a mão.

A rua movimentada pareceu ter sumido e as pessoas que passavam apressadamente ao seu lado, sempre desviando umas das outras também já não existiam mais. O homem à sua frente parecia um pouco mais magro do que o normal e por isso o cabelo caindo sobre os seus olhos o faziam aparentar ser ainda mais magro.

Ainda assim estava lindo.

― Não se responde uma pergunta com outra pergunta, é feio e a rua é pública.

A mulher fechou a cara com tamanha ignorância vinda daquele sujeito e seguiu o seu caminho para casa. Sakura realmente continuava com seu gênio forte, talvez fosse isso que a deixasse mais atraente aos olhos do escritor.

Ela tinha uma maneira desafiadora de passar por cima do que estava sentindo e em sua opinião aquela desaforada estava cada dia mais encantadora, ainda mais com aquele rebolado gracioso que fazia enquanto caminhava.

Sasuke riu apressando o passo para alcançá-la.

― Sakura? ― Ela nem mesmo o olhou. Seus cabelos cor de rosa voavam na direção oposta da do seu rosto e por esse motivo pareciam mais longos, no fim das contas, ele não passava da metade de suas costas.

Em um breve momento ele lembrou-se da primeira vez que a vira, era até engraçado pensar que uma menina mirrada daquela conseguia carregar tantas caixas de mudanças e não ficar cansada. Sasuke não admitiu, mas só de carregar uma, já estava ofegando. Só de pensar já estava ofegante.

Aquilo? Aquilo era um sinal do seu pulmão doente.

De repente o arfar começou a ficar cada vez mais pesado, menos ar entrava em seus pulmões. Sasuke estava sufocando.

Inspirar pelo nariz e expirar pela boca.

Inspirar pelo nariz e expirar pela boca.

Inspirar pelo nariz e expirar pela boca.

Mal se deu conta de que já estavam no saguão do prédio e que Sakura falava-lhe alguma coisa mas que não conseguia escutar, podia ver que estava falando pelos movimentos suaves de seus lábios e ela estava linda daquele jeito.

― Sasuke? ― Tocava-lhe o rosto, fitando seus olhos atentamente.

Sasuke estava se esforçando para respirar normalmente e enquanto isso não acontecia, Sakura o colocou sentado no banquinho de gesso que ficava pouco antes do saguão, não demorando muito para sentar ao seu lado.

Inspirar pelo nariz e expirar pela boca.

Aos poucos a respiração do escritor foi se normalizando até conseguir fazê-lo com antes. A moça percebeu que a cada segundo os movimentos nos ombros de Sasuke ficavam mais lentos, sabia disso porque sempre que podia o olhava de relance.

― Há quanto tempo isso vem acontecendo?

Ele olhou-a nos olhos e sibilou, quase em um sussurro.

― É a primeira. ― Sasuke não desviou os olhos da caixa de correio em nenhum momento, estava meio incomodado com o acontecido e principalmente por ter sido na presença da médica.

Sakura levantou-se do banco, de um lado só segurou as sacolas ao mesmo tempo em que tentava abrir a porta de vidro que dava para o saguão. Aquela atadura no dedo apenas dificultava as coisas porque ao tentar enfiar a chave na fechadura, seus dedos não respondiam ao comando porque inconscientemente tentavam evitar que qualquer coisa tocasse o dedo machucado e por isso errava tanto ao tentar abrir a porta.

Na primeira tentativa a chave escapuliu de suas mãos; Na segunda tentativa o volume da atadura não deixava que a chave fosse enfiada completamente no buraco.

― E eu vou ficar sozinho? ― Por fim levantou e foi em direção a garota, seus olhos focalizaram nela. ― Você é médica, devia me deixar em observação.

O ar debochado de Sasuke sempre a fazia ficar estressada, não só porque desafiava o seu bom senso, mas também porque demonstrava que não levava a vida a sério.

Era irritante.

― Vai, vai ficar sozinho sim. ― Disse firme e decidida. ― Se você não lembra, eu trabalho vinte e quatro horas e descanso setenta e duas horas tirando a parte do dinheiro que ganho cobrindo plantão de algumas médicas, sabe como é né?

Estava sendo divertido ver o quanto cresceu nos meses em que esteve fora. Sakura estava mais agressiva e menos na defensiva, não estremecia a cada patada que levava do escritor e rebatia sempre que podia.

Ela estava maravilhosa.

Sasuke esperou que ela entrasse no saguão para assim puxá-la pelo antebraço e logo em seguida empurrá-la para a parede mais próxima, apertando-a para ter certeza de que a estava tocando de verdade.

― Mas que mer...

― Gos... To... Sa ― Ele sorriu levemente e aproveitou o momento para encarar os seios em uma visão privilegiada por conta de sua altura.

Então Sasuke segurou o rosto de Sakura e selou seus lábios junto aos dela, não se importando com inquietação que sentia dentro de si ou com talvez o flagra que os dois poderiam sofrer de algum morador do prédio. Em poucas palavras, ele estava pouco se fodendo para quem aparecesse ali.

Fazia tempo que os dois não se beijavam, sentir o gosto daquela boca o despertara para muitas lembranças vividas em seu apartamento, inclusive das vezes em que entrava no banheiro só para vê-la tomar banho.

Não, naquele momento ele não estava pensando no sexo em si, poderia até mais tarde por uma conseqüência de ações, entretanto, naquele saguão ele só queria beijar aquela boca carnuda, fazer reconhecimento de área ao deslizar as mãos pelo corpo da jovem.

A mulher o sentiu puxá-la levemente para si, escorregando as mãos para o meio de suas costas e as encaminhando para a cintura fina, acariciando o lugar.

― Seu cabelo cresceu... ― Sasuke segurou o queixo da médica com a ponta dos dedos que aos poucos foram subindo e tocando levemente os lábios vermelhos pela pressão do beijo.

― Sasuke... Eu... Isso não devia ter acontecido. ― O que mais o deixou assustado foi a fato de nunca tê-la visto chorar e naquele momento estava a centímetros de distância de um rosto vermelho e coberto em lágrimas.

Aquilo não poderia ter acontecido, não poderia. Sentia a pele queimar e em cada parte que havia sido tocada estava estranhamente gelada, estava confusa, estava tudo naquele momento mas principalmente irritada por ter ido morar naquele maldito prédio, por não ter encontrado os hashis naquela merda daquela mudança.

Estava irritada porque apenas queria trabalhar em paz, no entanto encontrou algo totalmente diferente de sua definição de paz.

Encontrou um escritor fumante, bêbado, drogado e podre de rico.

Encontrou Sasuke Uchiha.

Ele a olhou fundo nos olhos e suspirou em seguida, distanciando-se de Sakura. Permaneceu ali por algum tempo, pelo menos até que as lágrimas da garota secassem completamente, por mais ogro e estúpido que fosse, Sasuke não era tão desumano a ponto de continuar uma atitude que claramente a incomodava.

― Somos vizinhos, então... ― Suas orbitas verdes reluziam com a claridade escassa do cômodo que aos poucos ficava gelado. Seu rosto procurava uma expressão certa para aquele momento, mas parecia estar confuso também, assim como a cabeça da jovem. ―... Não fale comigo mais do que o necessário.

Aquilo foi um choque para Sasuke. No primeiro momento achou que não estava ouvindo. No segundo momento não teve dúvidas de que sua audição ainda funcionava muito bem e era uma das únicas coisas de sua saúde que ainda não estava estragada.

― Você o que? ― Aquela afirmação quase beirando a súplica enviou uma sensação de ardor em sua têmpora, como uma leve dor de cabeça.

― Não fale mais comigo, por favor.

Notas finais
Não me matem hahaha