O Poeta

27 Reflexo


Notas iniciais
Olá! Espero que gostem.

Era um pouco complicado não pensar na trabalheira que daria para tirar toda aquela neve da entrada do prédio, já estava até prevendo a briga entre os moradores para escolher quem seria o responsável pela limpeza. Não bastava apenas chamar uma empresa especializada naquilo?

Estava de madrugada, a neve já cobria quase todo o asfalto de branco e Sasuke observava os flocos caírem. Já era comum perder o sono quando a noite caía, principalmente porque a sudorese sempre o atacava, sem motivo algum aparente suas mãos suavam a tal nível que água escorria.

Já completava meses desde a última vez em que colocou um cigarro entre os lábios e mesmo assim alguns dos efeitos colaterais ainda persistiam em se manter. Ele não entendia o motivo já que o doutor responsável pelas medicações na clínica o havia dito que dentro de alguns meses já não sentiria mais tanta a necessidade de fumar, no entanto a cada novo dia que se iniciava a vontade crescia, podia senti-la em seu peito.

Verdade que já estava um pouco sensível ao cheiro da fumaça do cigarro. Quer dizer, ela realmente tem um cheiro horroroso e que impregna em todo o ambiente! E também era verdade que toda vez que molhava a cabeça no banho sentia uma falta de ar tão grande que a tosse era inevitável.

― Sasuke... ― A garota murmurou enquanto dormia, era bem provável de que se tratava de um sonho.

Ela estava bem encolhida de frio por entre as cobertas pesadas e com parte de seu corpo exposto contrastando com outra parte que estava escondida pelos panos. A perna excessivamente branca estava quase toda pintada por vermelhidões e algumas marcas roxas, aliás, qualquer aperto um pouquinho mais forte que a jovem levasse já faria um hematoma.

Sasuke desencostou-se do parapeito da janela e foi até a cômoda na qual tirou um par de meias que raramente usava, sua vizinha estava tão encolhida de frio, quase em posição fetal que decidiu cobrir seus pés com aquelas meias.

Primeiro o lado direito; Em seguida o lado esquerdo.

O olhar caiu para o semblante sereno da jovem, seu rosto permaneceu sério enquanto analisava os exóticos cílios cor de rosa, eles tinham como detalhe o fato de serem longos e para baixo, não eram curvados para cima como sempre via. Estava claro naquele momento que ela recorria aos recursos de maquiagem para mantê-los em curva.

Era um detalhe que ele nunca tinha reparado antes.

Sim, ele nunca tinha reparado em como o rosto de Sakura era pequeno ou em sua pele levemente rosada nas bochechas. Aparentemente o que mais o chamava atenção eram os fios naturalmente cor de rosa, sabia que essa era sua cor de origem, pois os pelos de outras partes do corpo da médica também tinham essa tonalidade.

O rosa era o novo ruivo.

O escritor respirou bem fundo antes de se levantar para um banho bem gelado, dessa vez não cairia na tentação como fez horas atrás, ainda mais com uma cena tentadora como a que estava vendo: Sakura dormindo usando apenas um par de meias.

O relógio marcava três e quarenta da manhã quando Sasuke saiu do banho, largou a toalha jogada em cima da cômoda do quarto e sentou-se no sofá da sala. O sono ainda não tinha chegado, por isso resolveu ver como estava a sua caixa de email.

― O que está fazendo acordado? ― Sentiu um toque feminino acariciar seus cabelos.

Estava tão concentrado na tela do notebook que ao menos percebeu a mulher aproximar-se sorrateiramente do sofá, inclusive já não estava mais nua, vestia uma calcinha de algodão um pouco maior do que Sasuke gostaria.

Ainda assim continuava sexy.

― Sem sono. ― Disse enquanto checava a caixa de entrada do email e metade deles era propaganda de lojas sobre objetos que ele jamais usaria. Por exemplo: um cortador de grama multifuncional. ― Devia estar dormindo.

― Eu que te digo isso. ― Sakura murmurou deixando as costas de sua mão escorregar pelo rosto de Sasuke até chegar no queixo, puxando-o para que a encarasse. ― Não é bom trocar o dia pela noite.

Ela olhava para ele e em seus olhos via refletida a imagem de um homem cansado, que apesar de nem estar na casa dos trinta anos tinha olheiras profundas.

Com um sorriso compreensivo, o beijou na boca, descendo para o queixo e voltando para os lábios. Sakura estava estranhamente tímida com aquele contato, sentiu sua face arder quando abriu os olhos e encarou aquele par escarlate.

Um beijo casto para um momento casto.

― Está vermelha.

Aquela afirmação a pegou desprevenida, pois não esperava que ele pudesse perceber a vermelhidão queimando em suas bochechas. Quer dizer, a única luz que iluminava o ambiente era a da tela do notebook, o que não ajudava muito já que a tela de descanso tinha acabado de entrar.

Ele a tocou levemente na parte quente do rosto, não entendia o motivo da mulher estar com vergonha. Os dois tinham transado naquele sofá em que estavam sentados, tinham transado em cima do balcão da cozinha, debaixo da ducha forte do chuveiro, ele a tinha chupado no chão do corredor e sobre a mesa lotada de papel.

Os dois tinham feito quase que o kamasutra inteiro desde o momento em que começaram a sair juntos, mas foi naquele brilho inocente nos olhos de Sakura que ele enfim enxergou a garota apaixonada dentro daquela mulher de quadril largo e seios medianos.

― Você...Eu... ― Engoliu em seco.

― Acho que seu senso de percepção não é muito bem apurado. ― Sakura afagou a mão de Sasuke com a sua.

Ela não esperou qualquer outra reação do escritor, assim que confirmou o que há algum tempo sentia, deitou-se no sofá de maneira que os pés ficassem encaixados no colo de Sasuke e a sua cabeça apoiada na almofada ainda cheirando a tabaco.

― Continue checando os emails. ― Disse pouco antes de pegar no sono.

Ele ainda a encarava um perplexo, não era todo dia que se tinha uma mulher declarando no meio da madrugada, era realmente complicado ter algo para dizer a respeito. Sasuke respirou fundo, aos poucos foi se acostumando com a ideia e assim voltou sua atenção à tela do notebook.

Prezado Senhor Uchiha,

Devido o sucesso do seu mais recente lançamento, a feira nacional de livros entrou em contato conosco para que mais cópias fossem impressas. Como de costume, solicitamos a sua presença no evento em nome da editora e de seu crescente sucesso.

Att,

A direção.

Sasuke não pensou duas vezes antes de procurar o celular nos bolsos das várias calças que se lembrava de ter usado antes da internação. Vasculhou quase cinco jeans e o máximo que encontrava eram recibos de pagamento, que por sinal tinham a tinta das letras quase apagadas.

Apalpando o bolso do sexto jeans, encontrou um maço quase vazio. O primeiro reflexo que teve foi de largar imediatamente o objeto, fazia tanto tempo que não tocava em um que o simples gesto era como se voltasse a tragá-lo e antes de recolher para jogar fora olhou na direção da sala, onde Sakura ainda parecia dormir profundamente.

― Não me diga que vai desperdiçar essa oportunidade. ― A voz da mulher de seus pesadelos o incitou. ― A oportunidade de fazer o que te dá vontade.

Sasuke fechou os olhos e os abriu subitamente, queria ter certeza de que aquela mulher não fazia parte de sua insanidade particular, inclusive o ambiente tornou-se mais gelado e isso reforçava a idéia de que o que estava ali não era apenas coisa da sua cabeça.

Ela estava sentada na cadeira que ficava no canto do quarto, aquela que normalmente é cheia de roupas empilhadas tiradas no dia anterior e no anterior do anterior. Um pálido morto dominava a pele da mulher, a visão não era agradável nem para os acostumados porque a podridão se instalava no ambiente e jurava que poderia enxergar parte de seus ossos se olhasse para o rosto por muito tempo.

― O que você é, afinal? ― Seus pensamentos estavam confusos.

― Você me conhece, Sasuke. ― Os olhos negros da mulher possuíam um sádico brilho molhado, parecia estar se divertindo com a situação perturbadora. ― Olhe dentro do maço, vai mesmo jogar fora a chance de livrar o seu corpo desse vazio que sente por dentro?

O pé direito tocou o chão;

O pé esquerdo tocou o chão;

As articulações estalavam a medida que o corpo se levantava da cadeira, o líquido preto viscoso escorria das pernas e manchava o chão do quarto. Sasuke não estava com medo como costumava ficar, na verdade apenas acompanhava os movimentos daquela estranha mulher que exalava um cheiro forte de enxofre.

― Sente esse cheiro? ― O vermelho opaco dos lábios femininos contrastava com o escarlate que escorria pelos cantos, até o queixo e pingava no piso gelado. Aquele simples acontecimento soava como um tiro porque era o único som presente no ambiente. ― É o cheiro de como o seu corpo está por dentro sem a nicotina, é o cheiro do fracasso que você é sem o que te faz feliz.

Fracasso.

Fracasso.

F-R-A-C-A-S-SO

Os olhos negros de Sasuke observavam o maço com refinada atenção, estava tão hipnotizado pelo objeto que mal sentiu quando retirou o cigarro de lá de dentro, a loucura o fez passá-lo pelo nariz, cheirá-lo e colocá-lo entre os lábios. Já podia sentir o gosto da tragada viajando pela garganta, entrando nos pulmões.

Aquele prazer que com certeza encurtaria sua vida.

― Não é quase reconfortante? Não seja fraco deixando todo mundo controlar o que você deve ou não fazer. ― Ela sorriu diabolicamente, os dentes perfeitamente brancos e afiados ficaram a mostra.

A presença feminina franziu a testa, transmitindo insatisfação com a maneira como Sasuke a encarava:

― Não me olhe com essa carinha de desconfiado, se quer permanecer como um fraco então jogue fora aquilo que te faz mais seguro e continue com essa vidinha de merda, bebendo umas cervejinhas. Quer dizer que você pode encher a cara que está tudo bem e não pode fumar um cigarrinho? É apenas um.

Não vai fazer mal fumar apenas um cigarro

Apenas um cigarro não o fará ficar viciado.

Apenas um.

Apenas um.

Somente um.

Somente um e nada mais.

― Vamos, Sasuke. Estou esperando. ― Estendeu na direção do escritor um isqueiro que sabe-se lá de onde surgiu. ― Nós dois sabemos que você quer saborear esse prazer tanto quanto eu.

Cedendo aos encantos daquele vício, acendeu o cigarro, logo na primeira tragada foi como se o mundo começasse a girar e então todos os seus problemas desapareceram. Não havia mais mulher, não havia mais aqueles pesadelos que o atormentavam, não havia mais insônia ou perturbações na cabeça, era apenas ele e a fumaça.

Uma tragada após a outra, um alívio para a sua mente cansada.

***

― Eu não acredito que estou servindo de manequim no meio de uma loja. ― Gaara bufou. ― Todo mundo está olhando para mim. E bem, você sabe... Eu sou um cara tímido.

Em parte era puro exagero do rapaz, ninguém o estava olhando a não ser a vendedora que segurava várias camisas de botão para que Sakura pudesse decidir qual levar, além disso, os três estavam na área dos provadores.

A parte que não exagerada da história, era o fato dele ser tímido e estar sob os olhos da vendedora que o analisava minuciosamente. Não, não, ela não o estava encarando com segundas intenções, mas sim porque ficara em dúvida sobre qual camisa de botão tinha se encaixado melhor em seu corpo.

― Não exagere, estamos no provador e não no meio da rua. ― Disse tentando abafar a risada. ― E também, Sasuke está ocupado demais com essa coisa de feira nacional do livro e por isso não pôde vir comigo hoje. E vocês dois vestem exatamente o mesmo número, não queria levar algo que não caísse bem. ― Dizia sentada analisando o conjunto em um todo: a calça jeans, a camisa de branca de riscas e o sapato. ― Arregace as mangas um pouco, acho que ficará bem despojado.

O rapaz fez o que a garota lhe pediu, não adiantaria discutir com uma pessoa que sabia exatamente o que queria, principalmente se fosse tão cabeça dura quanto Sakura. Fazia um tempo desde a última vez que viu tamanho brilho nos seus olhos, poderia ser até um pecado contrariá-la e arriscar daquela felicidade toda sumir.

Ele gostava de vê-la feliz.

― Acho que esse ficou bom, eu usaria. ― Concluiu virando-se para o espelho, olhando de relance para o reflexo da vendedora que fazia um sinal de positivo com as mãos, também feliz por enfim conseguir satisfazer o gosto da cliente. ― Esse não é cheio daquelas frescuras e nem é muito apagado, acho que fez um bom negócio.

― Eu também gostei, ficou ótimo.

Parte do nervosismo de Sakura tinha acabado, a roupa estava excelente e evidenciaria ainda mais o belo rosto que o escritor possuía, além de fazer com que aparentasse ter um pouco mais de massa muscular já que estava bem mais magro do que o habitual. A parte que a deixava insegura era sobre como Sasuke receberia o presente. Ele não gostava muito de surpresas, na verdade as detestava e por isso estava com medo de estragar tudo.

― Ele vai gostar. ― Gaara tocou seu ombro em sinal de apoio. ― E se não gostar, eu fico com a roupa.

Os dois riram.

― Não é você que tem que conquistá-lo e sim ele te conquistar de volta.

Sakura não confirmou nem negou, apenas manteve-se parada encarando o amigo.

― Senhorita, foi uma ótima escolha. Quer que eu embrulhe para presente? ― Com quatro ou mais camisas penduradas no braço, a vendedora os encaminhou para o caixa.

― Seria ótimo.

Sakura estava completamente feliz com as compras que tinha feito, seria o presente ideal para levantar o humor de Sasuke que pela manhã tinha demonstrado certo estresse. Ela jurava que poderia ser o cheiro de cigarro que impregnou o apartamento e que segundo o escritor, parecia vir de fora.

Era totalmente plausível; ele tinha parado de fumar há menos de um ano e ainda sentia vontade, então qualquer um ficaria maluco ao sentir o cheiro daquilo que já foi mais do que um hábito.

― Débito, por favor. ― Disse ao estender o cartão para a vendedora.

É, ele iria gostar.

Enquanto a médica terminava de finalizar a conta, Gaara a esperava do lado de fora da loja, observava o movimento vazio do shopping e com isso alguns lojistas faziam de tudo para atrair os poucos que transitavam pelos corredores.

Uma menina toda vestida de amarelo passeava de mãos dadas com a mãe, ela que caminhava em passos largos e parecia ter pressa enquanto que a pobre criança precisava dar ligeiras corridinhas para alcançar a mãe, aquilo o indignou, será que ela não entendia que as perninhas da menina eram curtas demais para alcançar a passada larga da mãe?

Mesmo que estivesse com pressa, a menina não poderia acompanhá-la daquela maneira.

― Distraído? ― Sakura segurava a sacola de papel com uma mão e com a outra a bolsa. Seu sorriso estava encantador.

― Olhando aqui as pessoas.

Ela o puxou pelo braço na direção da saída do shopping, tinha em sua cabeça a vaga lembrança da jovem ter lhe dito sobre um compromisso que teria logo após as compras.

― Entendi. Estou atrasada e ainda preciso pegar o metrô até a estação perto de onde Sasuke e eu combinamos. ― Ela olhou frustrada para o relógio de pulso enquanto desviava de alguns que entravam em seu caminho. ― Ele vai me matar, ainda disse para eu não me atrasar.

***

Sasuke podia ouvir tudo o que o casal do lado discutia, ambos não faziam questão de esconder que estavam brigando e o pior de tudo é que brigavam por alto tão idiota que o fazia pensar se aquelas duas pessoas eram normais.

Ele fechou os olhos rapidamente agradecendo aos céus por nunca ter se envolvido de forma tão seria com uma mulher a ponto de discutir no meio da rua, até porque ele a deixaria falando sozinha, não gostava de chamar atenção.

― Sasuke! ― Sakura gritava como uma adolescente desesperada enquanto puxava um sujeito com uma tatuagem estampada na testa.

Continuou imóvel até que a garota estivesse próxima.

Sakura respirava ofegante ao mesmo tempo em que abanava o rosto completamente vermelho pela corrida. Não tinha ideia do quanto ela correra, mas supôs que fora uma longa distância.

― Está atrasada.

― Des... ― Tossiu engasgada ― Desculpe, eu vim o mais rápido que pude, descemos duas paradas depois.

Era um pouco complicado decifrar o que se passava na cabeça do escritor, isso porque ele sempre mantinha a mesma expressão séria, apenas algumas vezes que era possível notar uma contração em seu maxilar. Naquele momento, os dois jovens eram apenas encarados pelo olhar vazio de Sasuke.

― “Descemos”? ― Fez questão de enfatizar a palavra embora não houvesse sinal de ciúmes em sua voz.

Sakura não conseguiu esconder o constrangimento daquele ciúme implícito, seu rosto tornou-se tão vermelho quanto a luva que usava e por uma fração de segundos pensou no que poderia explicar para o escritor, quer dizer, os dois não tinham nada sério e o motivo de sua saída com Gaara era para comprar um presente. Não poderia estragar a surpresa simplesmente se entregando.

Sua intenção era fazer disso uma surpresa.

― Ela me ajudou a escolher uma roupa para o aniversário do meu sobrinho. ― E tomou a sacola das mãos da médica que o olhou surpresa; ele não tinha sobrinhos, não mesmo. ― Não é, Sakura?

―... É... Ajudei. ― Sequer olhava nos olhos de Sasuke. ― Você sabe como homem não tem senso de moda... I — Imagina se eu ia deixá-lo ir com uma gravata borboleta e meias coloridas.

― Me cha-

― Não me importo ― Sasuke rapidamente o cortou e sem se importar com a reação do rapaz, olhou para o relógio de pulso e puxou Sakura consigo.

Notas finais
Gostaria que percebessem como é gradativa a relação dessa mulher com Sasuke, em um capítulo ela apenas conversou com ele, em outro já o assustou e nesse já tiveram contato quase físico. Arriscam alguma teoria?