O Poeta
1 Prepotência
Notas iniciais
Sedento, o empresário travou suas mãos na cintura da prostituta que brincava com os botões da camisa branca, ele não queria mais perder tem com as malditas preliminares nem com... Com...
Sasuke desviou os olhos da tela do notebook ao mesmo tempo em que parou de tamborilar os dedos no teclado. Aqueles sons de caixas sendo arrastadas tirava toda a sua concentração em continuar uma cena comprometedora como aquela. Detestava barulho e era por isso, unicamente por isso que tinha ido morar naquela vizinhança.
Ele levantou do sofá já com o cigarro pendurado nos lábios e em passos preguiçosos caminhou até a porta do apartamento. Uma garota de longos cabelos rosados arrastava caixas que deveriam estar pesadas demais para o seu corpo magro e provavelmente frágil.
– Precisa de ajuda? – Sorriu acendendo o cigarro que lhe consumia os pulmões desde muito novo.
– Eu.. Eu não sei, acho que sim – Sakura se esforçava para manter a caixa em seus finos braços, quase dava pra ver seu sacrifício em manter-se em pé — Seria problema?
Sasuke franziu o cenho e soltou a fumaça presa na garganta.
– Deixa que eu levo – Disse sem deixar o cigarro cair de sua boca ao mesmo tempo em que pegava a caixa pesada de suas mãos deixando-se guiar pela garota que o conduzia até o apartamento ao lado do seu. – Quantas mais tem?
Sakura suspirou olhando ao seu redor e vendo a montoeira de coisas que já tinha conseguido levar até o apartamento, seus olhos caminhavam pelo aposento e verificavam se cada cada caixa, trazida pelo caminhão de entregas, estava ali.
– Essa a última... – Ela concluiu se virando em direção ao estranho que terminava de fumar o cigarro encostado na janela do local. Distraído, exibindo as costas nuas que sem querer Sakura se pegava admirando – Obrigada... A propósito, eu me chamo Sakura.
– Hm. Sasuke — Ele se virou para garota, caminhando em sua direção com um toco de cigarro entre os dedos, chegou a se aproximar perigosamente dela mas logo desviou o caminho para a porta do apartamento. Ao menos se deu o trabalho de fechá-la.
Ela sempre fora uma pessoa comunicativa, que gostava de criar laços com outros em seu convívio e até quem não era, dava um jeito para que se tornasse mas pelo o que pôde perceber na prepotência dos passos de Sasuke, ele não era muito fã da palavra comunicação.
Sakura cruzou os braços, prendeu o lábio inferior entre os dentes. O cheiro da fumaça daquele maldito cigarro não saía de suas narinas, era quase como se estivesse incrustado nelas e até espirrou umas duas ou três vezes por conta disso mas nem por esse motivo deixou de desempacotar alguns objetos necessários para o mínimo de sobrevivência num apartamento em que o fogão ainda não tinha chegado e a cama muito menos.
Não demorou muito para que o colchão em que dormiria fosse arrumado, nem que o macarrão instantâneo sem graça fosse preparado de improviso no micro-ondas. Logo tudo estaria em seu devido lugar, ela acreditava.
– Talheres, talheres... Eu preciso de talheres! – Revirou quase todas as caixas à procura de um mísero par de hashis, fez careta quando o único que encontrou estava partido ao meio – Por Kami! Primeiro o carregador do caminhão de entrega quebra a perna e não pode vir, depois o elevador do prédio enguiça e agora isso?! Hoje é o seu dia Sakura... Hoje é o seu dia.
A garota bufou enquanto se sentava no colchão. Tentou pegar o macarrão com a ponta dos delicados dedos mas ele sempre escorria de volta ao copo, também tentou se aproveitar da água do macarrão para "bebê-lo" mas só o que conseguiu foi se engasgar com o tanto de massa que tinha entrado em sua boca.
Claro que poderia sair e jantar fora mas como uma mulher precavida, ela já tinha pesquisado os preços dos restaurantes da redondeza e todos excediam o seu poder aquisitivo do momento, aliás, só tinha conseguido comprar aquele apartamento porque os pais tinham lhe dado uma boa parte do dinheiro mas se tudo desse certo, dentro de alguns pouco meses já poderia comer em qualquer restaurante que lhe viesse na cabeça.
Sakura ainda observava o copo de macarrão quando levantou os olhos e lembrou-se daquele homem de costas delineadas que a havia ajudado há algumas horas.
– Bem, ele não me parece muito simpático... – Olhou para o copo e depois para a porta. Decidida, ela levantou-se da cama improvisada e foi em direção ao apartamento que o tinha visto sair quando veio ajudá-la.
Ela mordia os lábios furiosamente, estava receosa em apertar a campainha de um desconhecido. Entenda, tudo que ela menos queria era ser aquela vizinha chata que por tudo bate na porta dos outros pedindo babujarias, no entanto, ela tocou.
A porta foi aberta de forma abrupta, revelando dois olhos negros inexpressivos mas que de alguma forma intimidavam e foi assim que Sakura se sentiu quando desviou os seus dos dele. Intimidada.
Se arrependendo mortalmente por tal ato, a menina se pegou encarando descaradamente o peito nú daquele homem e seus lábios foram ainda mais pressionados pelos dentes.
Ela engoliu seco quando seus olhos foram escorrendo do abdômen definido até o zíper da calça jeans. Ele era atraente, isso não podia negar.
– O que quer? — Apoiou o braço esquerdo no batente da porta e perguntou indiferente, com a voz baixa, tinha traços de irritação mas que se uma pessoa desatenta escutasse, não notaria nada além de ignorância.
Entretanto, o que Sakura mais tinha era atenção ao que acontecia em sua volta e ela tinha percebido o mal humor presente em cada palavra esboçada.
– Eu... Bem... Nem sei como pedir isso – Então ele arqueou a sobrancelha – É que eu não acho hashis em lugar algum nas caixas e... Eu queria saber se poderia me emprestar alguns. Depois dessa, eu prometo não incomodar.
Porém, Sasuke não era idiota nem nada, sabia que aquilo aconteceria mais vezes. Não tinha ideia de quanto tempo aquela mulher ia morar ali, mas já tinha se conformado.
– Entra – Abriu mais a porta, no entanto, Sakura continuou parada do lado de fora do apartamento, receosa e ainda não entendia o motivo de estar tão intimidada. O escritor aproximou seu rosto do dela, inclinando-se para frente, seu nariz a centímetros do dela – Você quer ou não quer os hashis?
– Claro que eu quero … — Sua voz se esvaiu assim que o rapaz se afastou e lhe deu passagem para que entrasse no apartamento.
Mobílias brancas. Um notebook no sofá e o cheiro de nicotina impregnado nas paredes, nos móveis, em tudo. Era assim que Sakura descreveria a sala de estar do vizinho mas nenhuma dessas características era páreo para o ar fúnebre do local. Não, não pense que cheirava mal nem nada do tipo, era apenas a vibração triste que impactou a menina.
Ela o observava cavucando as gavetas da cozinha, não tinha um único momento em que ele estivesse sem o cigarro entre os lábios, tragando como um compulsivo. Era charmoso mas o que não cabia em sua cabeça, era como ele ainda tinha pulmões.
– Aqui, são os melhores que eu tenho – Sasuke olhava sugestivo para o pedaço de pano que cobria o corpo da mulher. Tão pequeno. Tão vulgar. Exatamente como seus contos. – Só não esqueça de devolver... São os melhores.
E novamente expeliu a fumaça de sua boca sem se importar com a pouca distância que tinha em relação à garota. Ele nunca se importava, com ninguém, nem com o fato dela ter tossido ao inalar aquela fumaça cinzenta.
– Não vou esquecer, prometo.
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