O Poeta
2 Incessante
Notas iniciais
Insônia. Revirar na cama não era hábito do qual ela estivesse acostumada. Já era a quarta vez que Sakura levantava atrás de um copo d'água porque simplesmente não conseguia pregar os olhos.
Por infelicidade do destino ou por pura falta de sorte, os remédios que a ajudavam a dormir tinham ficado na casa dos pais. Sua única alternativa era fazer o que há muitos anos não era necessário: Contar os números ímpares até perder a conta... Ou até cair no sono.
Mas os gemidos que ecoavam do apartamento ao lado a intrigavam. Sakura podia contar duas outras vozes além da do misterioso vizinho, eram de mulheres e gritavam palavras indecentes, algumas que ela nem ao menos sabia que existiam. Aquilo não a incomodava, apenas fazia com que ficasse ainda mais curiosa com relação à Sasuke.
– Não gosta de conversa mas gosta de um bom sexo – Concluiu sem segurar o riso, que para uma adulta soava até infantil demais. Como uma menina curiosa por sabe de onde vem os bebês.
Ela sentou no colchão e se endireitou rente à parede. Era feio e sabia disso mas não pôde controlar suas delicadas mãos de fazerem o formato de concha na parede. Ali ela repousou os ouvidos até o sono capturá-la.
***
Sasuke já estava acordado há algum tempo, deitado de barriga para cima e braços dormente das duas prostitutas que dormiam ao seu lado. Letárgico. Olhava para um ponto fixo no teto, talvez o ventilador rodando ou quem sabe o mosquito procurando alguma vítima.
A heroína perdia seu grandioso efeito, sendo vencida pela realidade que era obrigado a encarar todos os dias ao abrir os olhos. Pelo menos a droga, nos momentos antecedentes, era a sua salvação; glória.
Ele levantou ainda cambaleante, com a visão turva de duas ruivas nuas adormecidas. Sasuke permaneceu ali, massageando as têmporas doídas, não demorou muito para que buscasse a carteira de cigarros no criado mudo ao lado da cama, seus pulmões necessitavam de um pouco daquela nicotina viciante.
– Não sei como ainda não morreu de câncer – Aquilo era pura ironia vinda da boca de uma versão mais velha de Sasuke -... Ou de overdose
Apontou para a seringa jogada no chão coberto pelo carpete mais caro de Tokio, tinha alguns resquícios de sangue mas aquilo era uma característica normal de um apartamento de um drogado.
– Itachi? O que faz aqui? – Sem tirar o sorriso do rosto, o escritor acendeu o cigarro, degustando do sabor da nicotina. – Quer um autógrafo? Sou famoso agora.
– Uma excelente descoberta do mundo pornográfico, devo me ajoelhar? Mas eu não vim aqui te venerar. Na verdade estou à negócios e decidi dar uma passada nesse adorável ambiente... – Escorregou os olhos para o irmão e depois as mulheres nuas, prostradas na cama – ... Lascivo.
Sasuke sorriu olhando o cigarro entre os dedos. Gostava do senso de humor do irmão, ele era excelente com as palavras. Tão bom que acabou tornando-se político, fazia o inverso de Robin Hood: roubava dos pobres para dar aos ricos.
Novamente soltou a fumaça presa nos pulmões.
– E o que achou? Tem um excelente serviço de quarto – Apontou para as prostitutas.
– Imagino, mas eu prefiro a minha humilde vida do outro lado do país. É bem mais acolhedora.
O mais novo deu de ombros e caminhou o corredor escuro, até chegar à sala completamente bagunçada com os rascunhos de seu trabalho, era seguido pelo irmão. Sasuke prendeu o cigarro entre os lábios e abriu a geladeira, pegando tudo que é comestível e os jogando no liquidificador. Aquela era com certeza uma atitude que Itachi não esperava, sentiu repulsa ao ver o queijo sendo batido com o aspargo que era misturado com retalhos de manga.
Não sabia como o irmão e ele tinham saído da mesma mãe. Itachi era o oposto de Sasuke. Totalmente avesso ao consumo de drogas, lícitas ou ilícitas, nunca na vida provara um vinho sequer.
Além de ter um equilíbrio emocional bem melhor que o caçula.
– Agora me diga, Itachi. O que de fato veio fazer em minha casa? – Levantou a cabeça e novamente soltou o ar. Notava-se um certo ar de ironia em sua voz – Não espera que acredite que simplesmente quis me ver, não é? Meu querido irmão, sinto lhe informar mas os Uchiha não fazem nada sem interesse. – Aqueles dois se conheciam tão bem que cada um sabia o que se passava nos pensamentos do outro. Apenas uma troca de olhares bastava. – Se está querendo que eu faça propaganda da sua reeleição na noite de autógrafos do meu livro... Pode esquecer, não vou me meter nas merdas que faz.
Ele ajeitou a gravata bem apertada, tentando formular uma resposta nesse pequeno espaço de tempo. Talvez não conseguisse, eram ligados demais. Seu irmão despejava a gororoba no copo enquanto o encarava firme.
– Você quase me pegou dessa vez — Arqueou as sobrancelhas e sentou-se numa cadeira qualquer que vira pela frente – Vim falar do seu querido amigo, aquele tal de Uzumaki. Pois bem, ele e mais alguns outros de esquerda vem atrapalhando a minha campanha, causando sérios danos à minha porcentagem de intenções de votos.
– E eu com isso? – Sua voz era baixa e rouca, quase delirante.
Itachi caminhou até o irmão, rindo, estreitando os olhos. Tentando ao máximo ser convincente com sua "ameaça".
– Tire-o do meu caminho ou eu mesmo o farei.
Antes que Sasuke pudesse responder, a campainha tocou. Uma, duas, três vezes. Revirou os olhos esperando que não fosse a garota faladeira do apartamento ao lado mas infelizmente quando abriu a porta, viu duas pérolas esverdeadas encarando-o tímidas ou será que ele via curiosidade ali?
– São sete da manhã. – Ela assentiu minimamente, de maneira quase imperceptível.
– Eu resolvi passar aqui antes de ir trabalhar para te entregar os hashis que me emprestou na noite passada. Muito obrigada, foram bem úteis. – Sakura sorriu estendendo os delicados braços e lhe entregando as peças de madeira. – Qualquer coisa que precisar, é só tocar a campainha.
– Hm, disponha.
Sasuke a observou caminhar às pressas até a porta do elevador, provavelmente estaria atrasada para o trabalho, parecia ser uma daquelas garotas atrapalhadas em que tudo dá errado, no momento errado. Olhou para os hashis em suas mãos e depois para a garota que apertava, insistentemente, o botão do elevador.
Era divertido observar as sucessões de trapalhadas dela.
Sasuke revirou os olhos quando Itachi gesticulou gestos obscenos com relação à Sakura, não tinha percebido que o irmão também tinha presenciado a pequena demonstração da nova vizinha. E riu disso.
– Nem pergunte, acabou de se mudar para o apartamento ao lado. – Disse voltando para cozinha e pegando a "vitamina" que fizera. Tinha um gosto horroroso mas não podia negar que aquilo o mantinha em pé quase que a manhã toda já que o cigarro e a heroína lhe tiravam quase toda a energia – Ela fala demais... Isso é irritante.
Itachi nem fez questão de tapar a gargalhada estridente, tirou do bolso sua valiosa moeda e começou a brincar com ela por entre os dedos, sem que a deixasse cair. Diferentemente do mais novo, seu pequeno vício era tão inofensivo quanto um hamster.
O assunto morreu. O escritor terminou de beber a batida; O irmão fitava o teto com a moeda entre os dedos. O silêncio pairava, podia-se ouvir apenas o barulho das teclas do notebook, do cigarro sendo expelido e o do sapato do Uchiha mais velho batucando no assoalho da sala, sua cabeça maquinava como os dedos batendo no teclado. Incessante.
– Ela é bem bonita, não acha? — E Sasuke sem parar de digitar franziu o cenho.
– Um pouco, é gostosa mas não tão bonita.
Itachi crispou os lábios ao perceber o pouco caso que o irmão fizera com sua colocação, detestava quando ignoravam o que dizia porque quase sempre tinha um intuito por trás de uma simples frase, como dito antes: Os Uchiha não faziam nada sem interesse.
– Podia ao menos fingir que me escuta, quando foi a última vez que fez sexo sem precisar pagar? Você tem uma vizinha bonita que está quase rastejando pra te conhecer melhor e só o que faz é cagar na cabeça dela. – Sasuke levantou os olhos. Sua versão mais velha sabia mesmo como tirá-lo do sério.
Fitou o irmão por alguns segundos, ainda com o gosto das palavras cuspidas, o rosto vermelho. Voltou seu olhar para a tela do notebook.
– Sei o que quer fazer... Não vou transar com a vizinha nova. E sobre o Naruto, vou conversar com ele. – Pegou um cigarro que já deixava ao seu lado e o acendeu.
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