O Poeta
3 Infortúnio
Notas iniciais
– Quinze minutos atrasada, Sakura! – Ino gritou, vendo a amiga se aproximar com o vestido amarrotado, sapatos nas mãos e o rosto avermelhado da pequena corrida até a recepção do hospital. – Mas o que foi isso? Parece até que foi atacada por ursos!
Ela riu.
Mesmo depois de anos, Sakura não deixara de lado seu modo atrapalhado de ser. Isso a tornava desejável por uma grande parte dos homens, sabe-se que até algumas mulheres sucumbiam ao excelente humor que a mulher de cabelos róseos emanava.
– Eu sei, eu sei. Acordei atrasada, meu carro não quis pegar e eu tive que vir de metrô! – Sakura vociferou apoiando uma das mãos no balcão e colocando os sapatos, que deveriam estar brancos, nos delicados pés alvos – Quase fiquei louca quando descobri que a passagem aumentou. Você sabia que aumentou?
Ino balançou a cabeça em sinal de reprovação. A verdade é que a amiga estava passando por uma onda de azar.
– Sorte sua que a Tsunade está de férias, não gostaria de ver uma de suas médicas desse jeito – E apontou para o vestido todo amassado, parecia ter sido tirado de dentro de uma garrafa – Venha, vamos dar um jeito nessa cara amassada de colchão.
Sakura tocou em seu rosto com a ponta dos dedos, estava mesmo quente, também notara que a raiz de seus cabelos róseos estava molhada. Provavelmente sua maquiagem estaria em frangalhos e aquilo era algo que ela não podia suportar logo na segunda semana de trabalho.
Respirou fundo e seguiu a loira que mal se suportava em cima de um salto que nem alcançava sete centímetros, as duas caminharam o corredor que Sakura que conhecia muito bem, levando em conta que fora contratada há pouco tempo. Antes de chegar ao vestiário de funcionários, passavam pela ala de oncologia.
Gostaria de ter metade da força que aquelas pessoas tinham. Às vezes os casos eram irreversíveis e um simples sorriso requeria um tremendo esforço mas ainda assim, eles não desistiam.
– Sakura, você vai tomar banho? – Ino abriu o armário em que guardava suas roupas reservas e pegou algumas peças que talvez serviriam na amiga.
– Vou si... Ino! Isso é um hospital, não uma boate. Não posso vestir essa coisa cheia de lantejoulas – De repente sentiu seu rosto ruborizar ao se imaginar vestida daquele jeito vulgar. Qual seria a reação de seus pacientes se a vissem com um vestido que mal lhe cobria as coxas? – Não posso usar isso, não tem outra coisa que não seja tão curta?
A loira gargalhou ao perceber que as roupas guardadas ali eram da festa que ela tinha ido há alguns dias e conhecia Sakura como ninguém. Ela jamais usaria aquele tipo de vestimenta a não ser que precisasse muito, por isso fingiu estar insultada. Fez bico e cruzou os braços.
– Oras! Não precisa avacalhar com as minhas roupas! E também ninguém vai reparar se você não abrir o jaleco. Portanto é isso ou aquela coisa sem graça que você chama de vestido – Estreitou os olhos – Não pense em me enganar com essa sua pose de virgem imaculada, lembra-se do aniversário do Gaara? Você transou com ele e com um outro cara... Ao mesmo tempo. Assuma esse seu lado puta, minha amiga.
Não adiantaria discutir, além de perder mais tempo de trabalho, Ino arrumaria mil e um motivos para que a amiga usasse o que lhe era ofertado. As duas se conheciam desde o primário, faziam tudo juntas e aquela amizade era uma dádiva que Sakura prezava. Por isso sabia que se começasse uma discussão, ficariam ali para sempre discutindo sobre todos os homens com quem ela já havia se deitado.
– Tudo bem mas é melhor ninguém me ver desse jeito! – Ino novamente caiu na gargalhada ao ver que o rosto da amiga rubro de vergonha, talvez pela má sorte ser tanta a ponto de se rebaixar com um vestido de paetê dourada que mal cobria as nádegas. – Ah Ino! Você me paga!
– Eu pagar? Querida, você vai me agradecer quando Kakashi der de cara com a sua musa usando esse vestidinho!
Sakura bufou sem esperança alguma daquele dia melhorar, seria o caos se Kakashi a visse naquela roupa de mulher fácil. Entrou no cubículo chamado de box e deixou que água limpasse as impurezas daquela manhã, quem sabe levasse a onda de desventuras consigo? Era tudo que ela queria.
Pensando bem... Musa? A garota passou longos vinte minutos no banho pensando no motivo de ser tachada de musa, o que lhe remetia à ideia da amiga estar achando que os dois estavam... Não é possível. Sakura não conteve o riso, que quase a matou afogada, ao perceber que Ino sugestionava seu relacionamento com Kakashi. Por Kami! Ele era um homem casado, claro que um excelente amigo mas o respeito que ela lhe atribuía era incondicional.
– Essa garota me diz cada uma...
A médica logo tratou de se desvencilhar de pensamentos que a distraíam do trabalho e pouco a pouco foi se vestindo, tentando ao máximo manter o jaleco fechado mesmo que a vergonha fosse quase tão grande quanto sua vontade de se enfiar debaixo de uma coberta. Olhou-se no espelho e esboçou um leve, quase imperceptível sorriso.
Sakura transitava pelo hospital como uma enfermeira, exercia funções que não condiziam com o seu diploma, no entanto, tinha plena consciência de que a demanda de funcionários naquela unidade estava escassa. Faltava mão de obra qualificada, equipamentos médicos decentes e os poucos médicos que atendiam desdobravam-se para cobrir a falta.
Faziam coisas que não condiziam com sua especialidade e com recém contratada médica não era diferente. Inclusive, ela aplicava soro em um paciente quando viu, na televisão, o rosto que estampava a decadência da província.
Itachi Uchiha.
– Nem acredito que votei nesse cafajeste – A paciente disse rispidamente apontando para o aparelho televisor que ficava no alto da parede. – E ainda tem a capacidade de dizer que quer se reeleger.
Sakura abaixou o olhar e fez nascer um sorriso triste. De consolo.
– Você não é a única, também votei nele. – Deu uma pausa enquanto ajeitava a velocidade do soro – Ele cortou parte das verbas que vinham pros hospitais do governo... Disse algo sobre contenção de despesas. Eu com toda a minha inocência, realmente acreditei em suas palavras de campanha.
A médica franziu o cenho ao ver a expressão de escárnio no rosto do deputado que apenas enriquecia seus bolsos às custas da população e ainda tinha a capacidade de desfilar pelas ruas pedindo votos. Aquela campanha era um lixo.
– Muitas pessoas pensaram a mesma coisa... Dizem até que ele tem um irmão, acho que é escritor mas não aparece muito na mídia, aliás, quase nunca aparece.
– Deve ser igualmente detestável – E era mas o que Sakura nem tinha prestado atenção, era na semelhança que o deputado tinha com o seu misterioso vizinho.
***
Com o cigarro pendurado na boca, Sasuke caminhava pelas ruas da vizinhança que estavam recém sendo decoradas para o Natal.
Na opinião do escritor: Pura perda de tempo.
Ele não costumava sair de casa de dia mas o estoque de heroína tinha acabado e cada tempo precioso sendo perdido sem a droga era como um enorme buraco no meio do estômago. Além disso, seu estado dependente aumentava consideravelmente rápido, á ponto de não conseguir ficar mais que doze horas sem uma picada.
Passou por uma banca de revista. Por duas. Na terceira, avistou um prédio de esquina com o cimento e lajotas caindo aos pedaços.
– Moderação, poeta, moderação no pico... – Sasuke sorriu de canto ao avistar o homem de cicatriz no queixo com uma bolsa. Ali estava a sua droga. – Já vi muito marmanjo morrer em menos de dois meses de consumo, e cá entre nós, eu gosto do lucro que você me dá.
Retirou o cigarro da boca e soltou a fumaça lentamente, uma terapia para o seus pulmões quase apodrecidos. Colocou as mãos no bolso do casaco, um envelope pardo caía no campo de visão do negociador, fazendo com que o brilho nos olhos acastanhados lhe desse um ar de criança em noite de Natal.
– Estou vivo, não estou? – Sasuke observava o cigarro entre os dedos enquanto que o homem contava o dinheiro que lhe fora entregue. Nota por nota e seus olhos reluziam de prazer em ter aquela pequena fortuna em mãos.
Era deplorável o buraco no qual ele se enfiava, tão fundo que talvez nunca conseguisse sair dele. Qualquer um podia vê-los negociando a droga, estavam em uma esquina pouco movimentava mas que passava ainda um certo fluxo de pessoas.
O escritor estava tão dependente daquela morte lenta que já não se importava mais em ser reconhecido, apenas queria degustar da sua doce Hero.
Hero. Um apelido carinhoso que dera para a droga que sempre lhe consumia as veias e dava pequenos choques em seu sistema nervoso, bastavam meros oitos segundos.
– Está tudo certo, é sempre bom fazer negócios com você – O sujeito olhou para os dois lados e entregou uma pequena bolsa vermelha camurça.
Um oásis para qualquer viciado.
Sasuke esboçou um leve sorriso. Estava gloriosamente satisfeito com o que tinha acabado de comprar. E sem se importar em apagar o toco do cigarro, o tacou no chão para logo depois pisá-lo. Aquele já estava quase no filtro.
Estava escurecendo e os passos ficavam cada vez mais largos, parecia que o prédio não chegava nunca. Ele precisava chegar logo, por isso iniciou uma breve corrida, no ritmo daquelas que as fazem no fim da tarde ou no começo da manhã apenas para manter seu físico no lugar mas o escritor tinha um corpo tão delineado que causava inveja nos homens e suspiros nas mulheres. Estava fazendo uma papel ridículo correndo de calça jeans, uma blusa branca e uma bolsa vermelha à tira colo.
– Boa noite, o tempo está ótimo, não está? – Uma voz adocicada despertou sua cabeça do próprio mundo.
Sasuke ainda confuso da pequena corrida, nem percebeu quando a mulher de longos cabelos róseos enfiou a chave no portão externo no prédio e o esperava para que pudesse fechá-lo.
Ele estava ficando cada vez mais avoado.
– Eu prefiro chuva – Proferiu num tom rouco, voltando à sua habitual expressão fechada. – Detesto calor.
Para Sakura, aquilo era um marco para ser celebrado, enfim tinha conseguido arrancar mais que duas palavras do charmoso vizinho.
– Uma coisa não tem nada a ver com a outra, o verão é uma estação de calor mas o que faz mais sucesso são as pancadas de chuva no fim da tarde. – Sem perceber, a médica observava a maneira que o homem impunha o cigarro nos lábios e expelia a fumaça, aquilo era tão natural. Era cena mais sexy que já tinha visto.
– Verdade. – Meneou a cabeça para os lados, deixando a jovem ainda mais encantada.
Os dois subiram o elevador, apenas com o som da música típica impactando com o silêncio de ambas as bocas.
Sasuke indiferente; Sakura intimidada.
– Você me faz lembrar alguém, acho que já te vi na televisão – Engoliu seco ao sentir os olhos homem escorregando pelas pernas nuas. Droga! Ela tinha esquecido completamente que ainda estava com o vestido de Ino.
– Se você assiste canal de putaria, talvez – Riu, debochado.
Os olhos verdes da garota arregalaram-se com aquela resposta e seu rosto virou-se para a porta do elevador, apertou o botão do andar novamente. Seus pés inconscientemente batucavam no chão, enquanto que o vizinho infringia as regras do prédio que diziam que fumar no elevador era estritamente proibido.
Sasuke se divertia com as reações da garota quando era pego espiando aquela blusa disfarçada de vestido. Aquele par de pernas brancas, nuas. Foram meros quarenta segundos para concluir que aquelas pernas não eram de se jogar fora.
Subiu seu olhar para o quadril sem temer o flagra, apenas analisava o que o irmão aprovara, e ele tinha razão, ela devia ficar ótima de quatro.
– Belo vestido – Sasuke riu e colocou o cigarro na boca, seu velho companheiro.
Ele caminhou até a porta de seu apartamento sentindo o olhar atônico de uma jovem assustada, ela deveria estar sentindo-se assediada. Não era aquele tipo de mulher que o escritor gostava, putas faziam mais o seu feitio.
Sakura deslizou pelo fundo espelhado do elevador, deixando seu corpo sentar-se no chão enquanto as portas novamente eram fechadas. Ela não estava exatamente assustada com aquele sujeito, pode-se dizer que estava até encantada com a abordagem e isso a fazia querer conhecê-lo ainda mais.
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