O Poeta

4 Euforia


Notas iniciais
Olá! Tudo bem com vocês, eu ia postar esse capítulo lá pelo dia 28 mas resolvi trocar, decidi colocá-lo como um presente de Natal

A euforia preguiçosa finalmente o havia atingido, sentia o corpo todo quente e tudo parecia se mexer em câmera lenta. Estaria ele rápido demais ou o mundo teria congelado o tempo? Sasuke necessitava daquela sensação de êxtase ritmada com a sonolência, aquilo o alimentava, o envolvia, fazia com que cada nervo fosse cruelmente excitado.

Com certa dificuldade nos movimentos, tirou a seringa do braço e riu. Riu da pequena gota de sangue que escorrera pela branca pele, sua mente confusa achou graça da voz embargada e do elástico que apertava seu braço.

– Merda! – Tropeçou nos próprios pés e caiu de cara no chão. Não dava a mínima para o sangue escorrendo da boca, na realidade, não sentia dor alguma no local, apenas podia perceber que algo viscoso escorria pelo queixo e descia pelo pescoço. — É disso que estou falando...

Apenas quando sua amada Hero agia em seu corpo, que Sasuke conseguia mostrar os dentes em um sorriso sincero, de puro prazer, nem quando transava com as melhores prostitutas.

Ele caminhou até o quarto, desengonçado e tirando os sapatos que o atrapalhavam no andar, nem quis saber da meia que ficou pendurada no dedão do pé. Aquela euforia que o atingira rapidamente transformava-se em náusea ou seria sonolência? Sasuke não sabia, apenas tirou o elástico do braço e se jogou na cama desarrumada.

É. Às vezes a disforia tornava-se um efeito de sua confusão mental. E quando isso acontecia, o sono era a melhor opção.

O som dos ponteiros do relógio. O computador ligado. A geladeira aberta. A seringa jogada no chão. Sangue seco no piso da sala. Dezessete horas na cama sem mover um músculo sequer, nenhum ronco ou ereção inesperada.

Apenas o doce fiasco das sobras da droga em sua corrente sanguínea. Uma carcaça de Sasuke jogada na cama.

***

Naruto ajeitava a o paletó recém tirado da tinturaria enquanto caminhava apressado pelo aeroporto, não que ele realmente se preocupasse com a aparência, apenas queria parecer menos desleixado do que realmente era. Afinal, a grande noite de autógrafos do livro de Sasuke seria naquele dia, não podia simplesmente aparecer de chinelo de dedo e regata.

– Naruto, você precisa comer... Ele vai entender se não formos o primeiro no evento — Hinata com toda sua leveza tentava acompanhar os passos largos do noivo mas vejamos, de salto, ela mal conseguia alcançar seus ombros, que dirá aguentar o ritmo das passadas do loiro que notavelmente estava apressado. – E também, só começará às oito. Não precisa de tanto.

Naruto parou de andar. Fitou os intensos brancos suplicantes da menina que havia roubado dos pais, nem podia dizer que a havia incitado à fugir com ele. Hinata era só uma menina que mal beiradeava os dezoito anos e mesmo assim, teve a audácia de tirá-la do conforto dos pais para seguir uma vida como sua mulher.

Que ironia...

– Faz quase um ano que eu não o vejo. – Sua voz se dobrou ofegante, castigada pelo cansaço de trabalhar horas à fio num gabinete espremido. – Imagina, um ano... Parece que foi ontem que enchemos a cara e fomos expulsos do bar.

Naruto riu prendendo seu olhar para o chão.

– Entendo todo o seu carinho por esse seu amigo mas de que adianta encher a cara de estômago vazio? Hein... — Hinata sorriu pequeno e ajeitou carinhosamente a gravata do noivo, apenas ela conseguia fazê-lo mudar de opinião, às vezes – Podemos comer no restaurante do hotel, com àquele vinho que você adora e depois de um banho maravilhoso, irmos à essa noite de autógrafos. Não vai demorar.

Ah como a voz daquela linda menina de cabelos negros o fazia esquecer de tudo. Das pessoas ao redor falando, das risadas escandalosas, do barulho que vinha de todos os lados, inclusive do porque de estar ali. Naruto até fechou os olhos, em sua opinião, a voz da doce Hinata era daquelas que deveriam ser apreciadas.

– É. Talvez você tenha razão.

– Eu sempre tenho razão – Ela arqueou as sobrancelhas e enlaçou suas mãos nas do loiro. Seguiriam para o hotel.

– Nem sempre, nem sempre. Eu não concordo quando diz que está gorda – Disse pausadamente para que a garota prestasse atenção em cada palavra de descontentamento com relação ao bendito peso. Como ela poderia intitular-se gorda? Era perfeita, todos os detalhes de seu corpo tinham sido milimetricamente esculpidos pelos anjos.

– Porque eu tenho razão – Naruto revirou os olhos, não queria discutir, não ali.

Com a ajuda do taxista, colocou no porta malas a pouca bagagem que haviam trazido. Iriam apenas passar um fim de semana, o loiro apenas queria matar a saudade que sentia do amigo, o irmão que nunca teve.

Um percurso de quarenta minutos, contando os engarrafamentos que se alastravam naquela cidade. Naruto encarava a paisagem com nostalgia e um sorriso de canto no rosto. Não podia negar que morria de saudades daqueles prédios, dos terrenos baldios que aos poucos tomavam forma como centro comerciais.

Queria dividir todas as sua lembranças com a sua doce morena.

Hinata apoiava sua cabeça no ombro do noivo, tentando captar as novidades que lhe invadiam o campo de visão. Um certo nervosismo descontrolava a respiração sempre centrada da menina. O fato de Naruto estar levando-a para sua cidade Natal significava uma coisa: O relacionamento dos dois estava tomando grandes proporções.

Sorriu trêmula quando o loiro apontou para a escola em que ele e Sasuke tinha se conhecido.

– Não nos dávamos bem na época. – Deu um pequena pausa para um beijo delicado no cabelos de Hinata. Tão inebriante. – Competíamos em tudo... É claro que eu via nele um desafio, quero dizer, Sasuke era o melhor da turma e eu queria provar que não era pouca merda.

– E como ficaram tão amigos?

Aquela era mesmo uma boa pergunta. Não tinha uma data exata de quando a amizade tomou forma nem uma maneira certa.

– Não sei explicar... Apenas aconteceu. No início Sasuke parece meio mal educado ou talvez grosso mas na verdade, é só um cara solitário. – Ele disse sem tirar os olhos da paisagem acinzentada e avistando o hotel mais famoso da cidade; Também o mais caro.

Hinata merecia o luxo que o deputado fazia questão de oferecer.

– Fico feliz então que esteja de volta e muito honrada por me trazer para conhecer sua cidade natal – Qualquer um que escutasse a entonação sem vigor de sua voz, perceberia um certo desconforto proferido. Não era sua culpa, apenas não estava cômoda com a situação.

E Naruto percebeu. Molhou os lábios com a língua, ele deveria saber que aquilo aconteceria, claro! Uma hora ou outra ela sentiria falta de casa, dos pais, da irmã e até do primo nariz empinado. Ele desceu do táxi já sentindo que a vinda para Tókio havia sido um grande erro mas quando a viu entrar no hotel sem nem ao menos o ajudar com a bagagem, teve certeza.

– Você não vem? – Brancos vieram de encontro aos azuis quando Hinata reclinou a cabeça levemente para trás. Sua pergunta mais pereceu uma afirmação, ou quem sabe uma ordem.

Ele balançou a cabeça de maneira imperceptível. Aquele seria o fim de semana mais longo de sua vida.

– Não sei porque sempre que tento te fazer conhecer um pouco mais de mim, você insiste em me tratar como um estranho e quando quer que eu faça as suas vontades, simplesmente vem toda carinhosa para cima de mim – Falou suplicante, em tom de reprovação e odiosamente alterado. O pavio curto de Naruto sempre os deixava em más situações, principalmente quando ele resolvia discutir em público. – Porque?

– Você não entenderia. – Ela se voltou para a frente, falou sem irritação na voz e ignorando os olhares que os cercavam. Hinata já estava até acostumada com os barracos promovidos por seu noivo, doze mais velho que ela.

Foi exatamente assim que aconteceu quando ele resolveu fazer uma passeata pedindo a cassação do mandato um tal de Itachi; cem mil pessoas foram às ruas e nada foi feito. Naruto costumava gritar no escuro.

***

Sakura sentia-se uma idiota por estar cedendo à sua natureza curiosa mas veja bem, ela não podia evitar. Estava inquieta e ainda com metade dos móveis para tirar daquelas malditas caixas, deveria ter aceitado a ajuda de seu antigo professor e excelente mentor: Kakashi. Mas só de lembrar que disputaria sua atenção com um livro de conteúdo duvidoso, sua cabeça começava a pipocar.

Perdia-se naquele mar de caixas, dava até vontade de chorar mas logo as esquecia quando corria para a porta e espiava o corredor através do olho mágico. Nenhum movimento detectado.

– Sakura, Sakura... Você tem que parar de ser tão curiosa. – Dizia para si mesma quando se pegava espiando o corredor. A última vez que fora tão curiosa, resultou em uma transa no banheiro de um restaurante.

É. Sakura costumava apreciar o lado sexual da vida.

Deitada no chão da sala, ela perdia-se em pensamentos corriqueiros que quase a levavam ao tédio. Talvez não tenha sido uma boa ideia não pegar o plantão daquela noite, pelo menos estaria ocupada demais aprontando-se para trabalhar e não tentando cuidar da vida dos outros.

– O que será que ele faz da vida? Quase não o vejo sair de casa nem nada … – Dizia encarando o teto mal pintado, cheio de falhas nos cantos. Sorriu desgostosa ao lembrar do quão caro teve que pagar por um apartamento que mal conseguia atingir 40 m².

Sakura levantou bruscamente ao ouvir o som de uma porta bater, correu para verificar de quem se tratava e não pôde acreditar no que seus olhos viam: Era realmente Sasuke, claro que era! Dava para ver nitidamente seus passos preguiçosos até o elevador, o cigarro preso nos lábios e o sorriso debochado.

É lógico que ela tinha que sentir-se uma completa idiota, parecia uma adolescente de quinze anos perseguindo algum tipo de ídolo, apesar de que aquele sujeito não tinha nada para ser idolatrado por alguém. Sakura ajeitou os cabelos e engoliu seco quando o olhar negro do vizinho se virou para sua porta.

Aquele sorriso. Parecia que ele sabia que ela o observava, mas não tinha como saber, estava atrás de uma porta de madeira.

– Já pode sair, foi descoberta. – Sasuke soltou a fumaça e empunhou o cigarro entre o dedo indicador e o polegar. Sua sobrancelha estava tão arqueada que era impossível de não detectar o sibilar de deboche.

Ela ficou pasma, petrificada. Aquela atitude a tinha deixado assustada, levou alguns segundos para se recompor. Deu meia volta e abriu a porta sem coragem de encará-lo, até porque ele ainda estava parado ali, com o olhar sugestivo, brincando com o cigarro entre os dedos. Sasuke tentava reprimir o sorriso mas definitivamente era impossível, a garota estava mesmo assustada e aquilo o divertia tanto.

– Como...

– A sombra dos seus pés – E então apontou para o espaço mais ou menos perceptível entre o fim da porta e o chão – O que você quer?

Novamente o cigarro voltava para a sua boca, Sakura sentia-se como se estivesse ficando ofegante, seus olhos se perderam naqueles finos traços chamados de lábios que aos poucos soltavam uma fumaça cinzenta.

Voltou os olhos para o chão.

– Nada... Nada mesmo, eu realmente não quero nada, eu estou aqui de bobeira, você sabe... Eu estou falando demais, não é? – Ela suspirou tapando o rosto com as mãos, estava tão vermelha, aquele tipo de situação sempre a deixava meio cabreira.

Sasuke revirou os olhos e se voltou para a porta do elevador que ainda não tinha chegado, apertou o botão duas vezes seguidas. Queria dar uma passada por um bar antes de se direcionar para a livraria onde aconteceria a noite de autógrafos. Terminou o cigarro e o elevador ainda não tinha subido. A garota já voltava para o apartamento quando o escritor tirou do bolso um relógio antiquado, aqueles folheados de ouro que as joalherias disputavam entre si.

Um legítimo do século XIX. Caso não saibam, Sasuke tinha como hobby colecionar velharias mas o atual vício mantinha esse passatempo estagnado.

– Eu gosto de beber antes de encontros com a imprensa, quer vir? – Perguntou sem emoção, olhando fixamente para a porta de metal polido. Normalmente a deixaria falando sozinha mas como era sua vizinha, teria que se acostumar com a sua presença;

E também, o que ela tinha de testuda, tinha de pernas bonitas.

– Agora? Imprensa? Você é tão famoso assim?

Sasuke balançou a cabeça, tirando do outro bolso um maço de cigarros. Estava quase vazio, talvez durasse umas três ou quem sabe umas quatro horas.

– Eu sou escritor, contos eróticos. Por isso, outro dia, você disse que tinha me visto na televisão. – Ele deu uma pausa e acendeu um outro cigarro, dando um tempo para uma tragada épica e uma admirada nas pernas brancas da garota. Pelo o que parecia, ela gostava de exibi-las. – Meu último livro ficou no top 10 por quarenta semanas, eleito o melhor do ano passado pela New York Times e humildade não é um dos meus fortes.

Ele deitou os olhos sobre ela, reparou no minúsculo pijama que lhe cobria o corpo. Um pouco infantil para a idade que cogitou que ela tivesse. Uns ursos brancos enfeitavam a parte de cima. Estreitou os olhos quando a garota cruzou os braços, talvez envergonhada e tentando inutilmente cobrir a barriga de fora.

– Eu esqueci a minha carteira no apartamento, um minuto.

– Eu pago – Disse por fim, puxando a menina pelo antebraço, para que o acompanhasse. Não iriam mais pelo elevador, a escada era a melhor opção, até porque ele já estava ficando irritado com a demora, com certeza deveria ter algum imprestável segurando a porta. Como ele detestava aquilo.

Notas finais
Não reparem, meus personagens falam sozinhos, ás vezes hahaha