O Poeta

23 Nevasca


Notas iniciais
Olá, tudo bem com vocês? Eu não lembro se avisei capítulo passado mas desde a internação de sasuke até o capítulo anterior, passaram-se seis meses.

"... E na região leste do país há 18% de chances de nevar nessa tarde ..."

Itachi terminava de enfiar o último pedaço de pão na boca quando Madara cruzou para a cozinha. Seu terno sempre impecável, não importava quantas intempéries passasse com a vida corrida de Tokio, aquele pedaço de pano nunca amassava.

O idoso caminhou sem dificuldades até a mesa, onde a empregada lhe serviu o café sem açúcar. Ele levantou o olhar para o outro Uchiha.

— Acho impressionante como ainda não morreu engasgado, aquele jornal de celebridades deveria fazer uma matéria sobre isso. — Debochou voltando sua atenção para a mesa repleta de comida.

O jovem serviu-se do suco enquanto terminava de mastigar.

— Não acredito que se interessem tanto pela minha vida pessoal, sabe que a estrela da família sempre foi o Sasuke. — O cabelo solto e molhado, manchava o pano da camiseta azul marinho, graças ao aquecedor poderia manter esse tipo de hábito.

O mais novo governador tinha acordado um pouco mais tarde do que de costume, tinha decidido que conversaria pessoalmente com o diretor da clínica e ver em que estado seu irmão se encontrava.

Mesmo ligeiramente interessado na máquina de fazer dinheiro chamada Sasuke, também não deixava de pensar no que isso afetaria o processo que até o momento estava sendo um sucesso.

Bem, não sabia o quanto o mais novo seria forte para aguentar as tentações do vício.

— Você tem um elevado talento em complicar as coisas mais fáceis da vida.

— Do que está falando? — Itachi perguntou sorrateiramente, manteve o tom de voz baixo.

O som da televisão começava a ficar incômodo, aquelas entrevistas aleatórias que o programa da manhã fazia eram um tédio.

Como se a vida de um político já não fosse tediosa o suficiente.

— Porque não conversa com Sasuke para que ele fale um pouco da experiência na clínica? Mande algumas mensagens positivas pro povo, talvez — Madara dizia tudo com intenso deboche, não que isso fosse seu forte mas às vezes acontecia. — Você sabe como a mídia ama uma história de superação, dê o que eles querem. Não vai precisar tirá-lo de lá.

O governador balançou a cabeça negativamente para a surpresa do ancião. Itachi sabia muito bem que seu irmão era orgulhoso

Conhecia ainda mais porque admitia também ser um pouco.

O som da televisão aumentou inesperadamente com o fim do noticiário e o início das propagandas. Céus! Como ele odiava quando isso acontecia, parecia que as empresas não tinham senso de que aquilo era ridículo e só fazia o telespectador abaixar o volume ainda mais.

Aliás, aquilo não era contra as leis?

Ele tirou o guardanapo do colo e colocou sobre a mesa.

— Não acho que ele vá concordar mas farei o meu possível. — Levantou — Bem, eu já vou indo. Sabe que não gosto de me atrasar nos meus compromissos.

O homem não fez questão de secar o cabelo nem de prendê-lo, caminhou até o sofá pegando a camisa social devidamente passada e tirando a que usava. Itachi sempre fazia isso antes de sair de casa porque sempre lavava a cabeça quando acordava e deixava os cabelos secarem naturalmente.

Não, não era babaquice da sua parte mas ele gostava de cuidar de si mesmo.

— O que está olhando? — Perguntou para a mesma empregada que havia recolhido a camisa molhada do sofá. Os olhos não paravam quietos enquanto o patrão tentava acertar os botões daquela.

— N...Nad... O senhor está colocando os botões na casa errada. — Engoliu em seco.

— Eu não vou almoçar em casa hoje, tenho assuntos muito particulares a tratar, então... — Perdeu as palavras enquanto ajeitava a camisa branca que talvez custasse mais do que a vizinhança inteira da moça empregada. — … Como eu ia dizendo, mande a cozinheira preparar o almoço só para Madara .

Não era difícil ficar nervosa na frente de Itachi, muitas vezes sua arrogância deixava as pessoas ao redor um tanto intimidadas e não estava sendo diferente com a jovem que usava aquela saia que vinha até a altura do joelho para esconder a finura das pernas e um crachá no peito com seu sobrenome para que sempre fosse identificada, assim como os demais empregados dos Uchiha.

— Sim senhor. — E se retirou do aposento.

***

Por mais que a internet fornecesse dados inimagináveis para Sakura, ainda não era o suficiente para conseguir entender o que se passava.

As informações eram vagas, apenas falavam sobre a chacina na mansão Uchiha e dos diversos suspeitos.

Falavam até do estranho incêndio que havia acontecido sem mais nem menos enquanto todas aquelas mortes eram executadas.

Suspeitos...

Todos inimigos de Fugaku, que havia se metido com pessoas erradas.

Ela precisava de mais, precisava saber o que realmente tinha acontecido naquela noite, o que tinham feito os irmãos, que ainda menores de idade haviam testemunhado a morte dos pais.

Era como se não existisse nenhum Uchiha depois da trágica morte dos pais.

Nenhum histórico.

Nenhuma reportagem.

Nada até o grande BOOM do primeiro escrito publicado de Sasuke em um jornalzinho fajuto. Nada erótico.

Apenas um poema mórbido com um quê sensual mas que havia sido de grande relevância a ponto do escritor ser referência até os dias atuais.

Depois disso, uma avalanche de notícias sobre os irmãos. Assuntos desenterrados e a entrada de Itachi para a política.

O império Uchiha estava novamente de pé e a imprensa parecia amá-los

Sakura bebeu um gole do café e tornou a olhar a papelada que tinha juntado ao longo dos 6 meses mas nada explicava de fato o que queria saber.

— Quem é você, Sasuke? Quem é você?

— Sakura, nós precisamos de você na emergência. — Shizune surpreendeu a médica ao entrar na sala sem bater.

A jovem teve que reprimir o grito de susto, não esperava que alguém fosse lhe procurar naquela hora da manhã, no entanto, logo sorriu e levantou-se da cadeira.

Mal dava para ver a cor da mesa com aquela montanha de papéis desordenados.

Shizune não pôde deixar de dar uma espiada na bagunça. Veja bem, não é normal uma saleta de uma pessoa conhecida como metódica ficar tão desarrumada da noite para o dia.

— O que são esses papéis? Algum problema com os arquivos dos pacientes? — A morena perguntou pouco depois de ver o desespero da colega de trabalho fechando a porta.

—Não... Nada, eu só decidi jogar fora alguns arquivos meus. —Aquele sorriso amarelo não iria enganar ninguém.

A medida que ela caminhava lado a lado com Shizune, sentia o ar entrar e sair de seus pulmões queimando, sabia que estava cada vez mais perto de ter um colapso nervoso. As horas sem dormir também ajudavam.

Aquilo atiçava a curiosidade de qualquer um que fosse próximo da médica e não estava sendo diferente naquele momento.

— Sabe, desde que te conheço; o que faz pouco tempo, eu reparei que você não sabe mentir — Shizune esclareceu enroscando o braço no de Sakura. Um sinal de apoio. — Vá lavar o rosto, eu te espero aqui. Não vai querer enfrentar o batente com essa cara de quem madrugou.

—Obrigada — Sorriu.

Bastou três passos e já estava dentro do minúsculo banheiro dos funcionários, com as paredes refletindo sua silhueta de tão bem limpas entretanto só pôde ver seu real reflexo ao se virar para o espelho que ocupava boa parte daquele pequeno espaço.

Com uma surpreendente calmaria desfez seu coque colocando os grampos um a um na bancada, fez tudo com cuidado para que nada caísse dentro da pia.

A água pingava esperando para lavar o rosto delicado da mulher, um rosto que estava sofrendo nas noites de insônia.

Sakura absorveu o ar como se fosse seu último, com as mãos apoiadas na mármore gelada. Já não estava mais raciocinando direito nesses últimos dias, em parte porque sua curiosidade não lhe deixava quieta e buscava por mais informações.

Uma gota caiu da torneira e seus olhos acompanharam até que fosse perdida ralo abaixo.

Shizune bateu na porta chamando pela médica, parece que não estava brincando mesmo quando disse iria esperá-la:

— Vamos Sakura!

— Eu já vou! — Rapidamente molhou o rosto e recolocou os grampos para que o coque fosse novamente erguido. Seu reflexo estava um pouco mais relaxado enquanto a luz brincava com a pele excessivamente branca —Tudo vai melhorar...

Pobre Sakura.

O dia passou automaticamente, alguns pacientes aleatórios davam entrada no hospital mas nenhum em estado grave para que a médica pudesse ocupar a cabeça.

Tentou por várias vezes se concentrar em cada um daqueles que estavam nas macas, queria poder ler apenas uma vez os prontuários sem que sua cabeça viajasse para os papéis em cima de sua mesa e que Sasuke não invadisse seus pensamentos cada vez que via uma silhueta masculina parecida com a dele.

Estava exausta daquele dia que parecia nunca acabar e enquanto caçava algo para fazer, os olhos esverdeados correram pelo quarto onde cerca de cinco pacientes repousavam. Já estavam estáveis porém em observação. Ela caminhou até a cama mais próxima de si, onde um menino deitado olhava para o teto como se esperasse por algum milagre.

— Konoha...maru, certo? — Perguntou enquanto olhava a ficha do menino. — Caiu andando de bicicleta... Posso ver como está esse curativo?

— Claro

O menino levantou o braço mostrando a gaze muito bem colocada, ele não deveria estar recebendo tanta atenção, só tinha ralado um pouco o braço. Não deveria.

Aquilo nem tinha doído muito, se não fosse pela insistência dos amigos nem tinha passado no hospital. Uma água com sabão resolveria.

— Você está ótimo. — Sorriu colocando a prancheta na mesinha ao lado da cama e virando para uma enfermeira que passava por ali naquele momento. — Por favor, chame o responsável por Konohamaru, ele já pode ir para a casa.

— Mas eu vim sozinho, quer dizer, os meus amigos me trouxeram. Devem estar lá na recepção me esperando, são Udon e Moegi — Interveio já sentando na cama, um breve momento e já estava no chão. — Só eles sabem que estou aqui.

Sakura o encarou por longos minutos, não estava preparada para liberar um menor de idade sem a autorização de algum responsável legal, aquilo era contra as normas do hospital. Quantos anos deveria ter aquele garoto? Doze anos talvez?

Pela janela já era possível ver que a neve bloqueava os caminhos por onde os carros passavam, pequenos flocos caíam de encontro ao vidro. Tinha que ser rápida ou não poderia sair por conta daquela neve que caía lentamente.

18% de chances de nevar”

Parada, ela olhava para o nada ouvindo o som dos carros que aos poucos ficavam atolados.

— Você está bem? — Perguntou a enfermeira que havia passado ali há alguns minutos, ela trouxera duas outras crianças consigo.

— Sim, sim. Eu só estou preocupada com a neve, a meteorologista não tinha dito que havia poucas chances de nevar hoje?

A mulher bufou ao seu lado, olhou para o relógio assustada.

— Ah não credito que vai nevar logo agora! Meu plantão acaba em vinte minutos, hoje é aniversário da minha filha e eu tinha prometido que íamos passar juntas. Olha, essas crianças insistiram dizendo que estão com esse menino, pode tomar conta disso por mim? — Perguntou esperançosa porque sabia que a médica nunca conseguia recusar um pedido, dizer não era uma das coisas mais difíceis para ela.

— E aí? Eu vou poder ir embora agora? — O menino cujo nome era Konohamaru perguntou arregalando os olhos, quase que suplicando. Aquelas mulheres não tinham ideia de como odiava hospitais, aquele ambiente era um completo tédio, a comida insossa.

Sakura olhou mais uma vez o tempo pela janela e o volume de neve que caía era um pouco maior do que há alguns minutos. A sutileza com que os flocos pintavam a paisagem de branco era assustadoramente linda.

E perigosa.

— Sinto muito crianças, mas terão que esperar aqui até que o tempo fique melhor. — Era costume abaixar para falar com crianças mas dessa vez não precisou, o garoto era exatamente de sua altura e isso a deixou um pouco desconfortável. — Olha, até que venha um responsável de vocês, não poderão sair do hospital. Imagina a complicação que seria se eu permitisse que saíssem com essa neve toda caindo e acontecesse alguma coisa ruim com vocês... Não só o hospital seria responsabilizado mas eu também por permitir que saíssem.

— Mas...

A menina que era consideravelmente mais baixa que a mulher de cabelo rosa ainda tentou protestar mas logo foi cortada pela médica.

— Mas nada, podem tentar usar o telefone lá da sala de espera. Ficarão quietinhos? — Sakura nem os deixou contra argumentar, saiu da emergência e caminhou vagarosamente para a sua sala.

O salto batendo no piso.

Tosses vindas de alguns pacientes no corredor.

As rodinhas da haste que prendia o soro fazendo aquele barulho chato.

Ela suspirou. Uma senhora mandou-lhe um sorriso benguela enquanto era empurrada em uma cadeira de rodas.

A primeira coisa que fez ao entra em sua sala foi repousar o corpo cansado na cadeira sem coragem de olhar a pilha de folhas e jornais que inundava sua mesa de trabalho.

— Bem, aqui vamos nós... — A médica tomou coragem e começou a retirar alguns papéis aleatórios de cima de sua minuciosa pesquisa e jogando na lixeira que aos poucos ia se enchendo.

Não demorou muito para que empilhasse de forma organizada todos aqueles impressos. Sua mesa já não estava mais uma bagunça mas ainda sim, estava lotada de uma papelada que levaria para casa e estudaria cada detalhe, porém um descuido de sua parte a levou a derrubar uma pequena parte da pilha da direita, alguns papéis foram espalhados pelo chão. Sakura soltou um palavrão e ajoelhou-se para novamente organizá-lo em cima da mesa.

Precisaria urgentemente colocá-los em pastas, só assim evitaria que um novo acidente acontecesse.

As pequenas mãos tateando cuidadosamente o chão embaixo da cama que usava para examinar alguns pacientes, puxava os papéis um a um até sua atenção cair em uma folha com a foto da mansão destruída, com aquelas faixas amarelas.

Perícia descarta a hipótese de que o incêndio na mansão da família Uchiha tenha sido acidental”

Apesar do incêndio que atingiu a mansão da quinta família mais rica do Japão ter sido noticiada como acidental, investigadores responsáveis pela perícia do local afirmam que a análise preliminar indica um incêndio criminoso.

Segundo o delegado que investiga o caso, os corpos de Mikoto e Fugaku Uchiha ainda não foram encontrados mas a informação mais recente é de que duas silhuetas foram vistas fugindo do local logo antes dos bombeiros chegarem.

— Duas silhuetas? — Sakura sentiu seu coração apertar e a sensação de angustia lhe subir pela garganta. Quanto mais se afundava naquelas notícias, mais perdida ficava.

***

A nevasca que acontecia por toda Tókio estava lentamente interferindo no sinal da televisão onde o repórter informava para que todos os cidadãos ficassem seguros em suas casas e não saíssem por nada desse mundo.

Parece que alguém seria demitida do jornal matinal...

Itachi revisava algumas papeladas enquanto Sasuke trocava de roupa no banheiro do gabinete do governador. As roupas reserva do irmão lhe serviram como luva, nunca tinha reparado que os dois eram mais menos do mesmo porte físico.

Após sair do banheiro, o rapaz olhou para sala impecavelmente arrumada e tinha que admitir que Itachi era um maníaco filho da puta com relação à limpeza, nada fora do lugar ou sequer uma penugem de poeira no chão liso. Até debocharia da mania esquisita que o irmão tinha mas talvez se abrisse a boca para falar alguma merda, voltaria para aquela clínica dos infernos.

— Ainda não me disse porque me tirou de lá. Aliás, como me tirou de lá em menos de uma hora? — O escritor permaneceu um tempo parado, esperando uma resposta do irmão, parado em frente a sua mesa.

Itachi suspirou, sem desgrudar os olhos das licitações para a pavimentação de uma ruazinha qualquer.

— Não há nada que o dinheiro não compre. — Fechou a pasta e a ignorou sobre a mesa. — Deveria saber disso, irmãozinho.

A estática alta da televisão que havia perdido completamente o sinal adentrou em seus ouvidos, lembrando das vezes em que era obrigado a assistir chiados junto com alguns pacientes que brigavam pelo controle do aparelho e sem querer mudavam para um canal fora de sintonia.

Só de lembrar daquele lugar, um arrepio cruzou sua espinha.

— Hm. Talvez mas porque? — Franziu a testa e tentou procurar no bolso um maço de cigarro. Aquele velho hábito retornando. Nada.

Itachi levantou os olhos e o viu encarando com a mesma seriedade de quando o sugestionou a se relacionar com a vizinha, notoriamente desconfiado da saída abrupta da clínica para dependentes químicos.

O político sabia que as pessoas eram subornáveis, não tinha dúvidas de que se escorregasse dinheiro para o diretor da clínica, conseguiria que o irmão fosse liberado. No mundo em que vivia, a ética do trabalho não era superior a ética do dinheiro mas também ficou surpreso pois achou que a ambição do diretor o fizesse ao menos recusar a primeira oferta e não que se contentasse com a micharia oferecida.

Um sorriso debochado saiu dos lábios do irmão mais novo, logo em seguida uma balançar leve de cabeça. Sasuke não precisava mais que o governador abrisse a boca para dizer seus motivos.

Estavam bem claros na última frase dita pelo mais velho: “Não há nada que o dinheiro não compre. Deveria saber disso, irmãozinho.”

— Deixa eu adivinhar... Você acha que eu estando de porre faço mais dinheiro do que sóbrio. — Batia palmas e exibia uma faceta ainda mais debochada que o sorriso anterior.

— Não é bem isso apesar de ser verdade.

O escritor rumou até a parede de fotos do aposento, algumas dezenas ilustravam aquela parte sem graça do local, deixava seu olhar escorregar pelos apertos de mão com alguns outros políticos e empresários.

Ele sabia que alguns estavam envolvidos em esquemas de lavagem de dinheiro, Itachi um dia tinha comentado sobre o dono da maior distribuidora de cerveja do país.

— Quando essa maldita nevasca passar, quero te mostrar algo que escrevi.

Itachi balançou levemente a cabeça, mesmo que o irmão não pudesse vê-lo fazer esse gesto, era possível saber que tinha concordado.

Enquanto a neve fazia a cidade de refém, os dois teriam que aguardar no prédio em que trabalhava, seria impossível sair e mesmo que usassem as correntes nas rodas do carro oficial ainda assim seria perigoso.

— A imprensa já sabe da minha saída? — Sasuke permitiu-se desviar a atenção das fotos emolduradas para o político

— Não quer saber da sua vizinha? — Provocou.

Silêncio.

Olhos cerrados.

Punhos Fechados.

Mente bagunçada.

Por fim, engoliu a pouca saliva que lhe restava na boca e ainda com as mãos no bolso, virou-se para encarar o mais velho que não expressava nada além de um olhar austero.

— Não se responde uma pergunta com outra pergunta. A imprensa já sabe da minha saída?

E de repente a imagem de Sakura toda suada invadiu seus pensamentos, aquela pele livre de imperfeições escorrendo gotículas de suor era tentadora demais.

Ahh, e como era... Aquela mulher gozava de um jeito inesquecível, não expressava seu desejo com poucas sílabas e sempre rebolava quando sentia as mãos pesadas na cintura.

Sakura tinha um sorriso deslumbrante depois do sexo. Ele sentia falta disso.

— Vai saber amanhã, hoje tudo está focado no erro meteorológico da mulher do tempo. Você acredita? 18% de chances de cair neve e quando se abre a janela só o que vê é branco. — Itachi sentou-se na cadeira e pegou sua fiel moeda, transitando-a por entre os dedos. — Está pronto para fazer dinheiro?

— Hm. Que seja.

***

Sakura media a temperatura de uma senhora quando o barulho da oscilação de energia inundou o hospital, por cerca de milésimos de segundos a luz foi embora e voltou.

— Não se preocupe, temos geradores. — A médica acalmou a mulher à sua frente. — A senhora pode aguardar na recepção com os demais, por favor.

Guardou o termômetro no bolso do jaleco desejando que o tempo melhorasse para que pudesse ir para casa logo. Estava cansada, merecia um banho e por mais que o hospital tivesse chuveiros para os funcionários não era a mesma coisa do que banhar-se na sua própria casa, com tranquilidade mas não descartou de relaxar um pouco.

A médica percorreu alguns corredores, passou pela cafeteria e avistou alguns colegas de trabalho mas um banho era sua primeira opção. Acenou para Ino que logo veio ao seu encontro.

— Eu não aguento mais ficar nesse hospital, eu não aguento mais sentir cheiro de éter. — A loira resmungou enroscando o braço no da amiga, assim podendo caminhar juntas.

— Não acho que vamos embora tão cedo, não vê que até o sinal da televisão caiu? E parece que a nevasca só piorou. — Disse num tom triste, só de pensar que aquela hora já estaria em casa o cansaço parecia mais aparente.

— Nem me fala, as autoridades pediram para que ninguém fosse as ruas porque a coisa está feia mesmo e essas pessoas todas aqui amontoadas? Logo mais vai ser difícil até respirar. — As duas desceram dois lances de escadas até chegarem ao vestiário feminino que estava totalmente vazio mas com sinais de que fora usado recentemente. — E se a luz acabar?

Sakura riu desvencilhando-se da amiga e indo até o seu armarinho. Tirou as chaves do bolso traseiro da calça jeans branca, por um momento pensou que não as tinha lá.

— Você sabe muito bem que temos geradores, o máximo que pode acontecer é um pifar mas acho bem difícil. Existem vários aparelhos ligados a eletricidade e arriscar que algo assim aconteça é brincar com a vida das pessoas.

A loira soltou um suspiro em sinal de inquietação, sabia que a médica estava certa mas mesmo assim tinha sua insegurança quanto ao fato de de repente os geradores não funcionarem e muitos pacientes que necessitam dos aparelhos ligados morrerem.

Não, ela não poderia pensar nessas coisas. Sua mãe dizia que pensar muito em coisas ruins atraía coisas piores. E até deu batidinhas com o punho fechado no banco de madeira bem no meio do vestiário.

— E você e o Sasuke? — Teve que correr para acompanhar Sakura que já estava na área dos chuveiros, o que era meio complicado devido ao chão molhado. Tinha medo de escorregar entretanto afundou o pé em uma poça gelada de uma falha no piso. — Não te vi mais acordando no meio da noite para atender os telefonemas dele... Não te ligou mais?

A mulher umedeceu os lábios e ofereceu-lhe seu melhor sorriso forçado antes de ligar o chuveiro.

— Não... Foi só aquela noite mesmo, só aquela noite.

— Então, se você precisar de mim, eu vou estar bem aqui do lado secando o meu sapato, pisei numa poça de água perto desse chuveiro aí.

Era um alívio para Sakura poder tomar seu banho sozinha, não que quisesse a amiga longe mas aquele momento ela simplesmente queria fechar os olhos e lembrar das vezes em que Sasuke apertara com vontade as suas coxas enquanto assistiam televisão ou quando simplesmente era acordada com o rosto do escritor no meio de suas pernas, chupando, lambendo.

E sorriu consigo mesma

Notas finais
Madara deu uma ideia no começo do capítulo que Itachi não seguiu... E essas ações terão consequências.