O Poeta
29 Inércia
Notas iniciais
― Sasuke, quantas vezes já te disse para não ficar brincando por aqui? Não deveria se fazer de surdo! ― As palavras não foram tão impactantes quanto a expressão severa de Fugaku.
Aliás, Sasuke era apenas um garoto de seis anos que brincava com a sua bola no corredor da casa; naquele corredor.
Não demorou para que fizesse bico e corresse para a barra da saia de sua mãe. Esta que o pegou no colo e acarinhou, com a ponta dos dedos, as bochechas gordas de uma criança de seis anos.
― Ele é apenas uma criança. ― Suspirou. ― Arteira, mas ainda assim uma criança, não precisava ser tão incompreensível. Nosso Sasuke não pode brincar lá fora com as outras crianças porque está com catapora, o que tem de ruim deixá-lo brincar um pouquinho aqui?
O homem lentamente desfez o franzido da testa, levando os dedos para massagear a têmpora dolorida. Talvez sua esposa tivesse razão, deveria relevar algumas atitudes exaltadas que recentemente andavam afetando o convívio familiar.
Problemas.
Problemas.
― Está certo... ― E a dor de cabeça não passava.
― Desde que esse cofre veio aqui para casa que as coisas tem piorado. Tranca o escritório à sete chaves, não deixa seus filhos brincaram pela casa sozinhos e o cúmulo do absurdo foi ter despedido a empregada porque simplesmente envernizou a porta desse escritório. ― Disse forçando carinhosamente a cabeça de Sasuke em direção ao seu ombro, como toda mãe faria. ― Cuidado... Eu não quero ter que mandar arrombar essa porta.
Os olhos de Sasuke se abriram instantaneamente e o torpor daquela lembrança quase o fez cair da cama.
Precisava de água, de um banho.
Não era como se fosse um sonho qualquer, também não era como se fosse um pesadelo. Tudo tinha sido tão palpável que ainda podia sentir o cheiro do verniz da porta.
― Merda de sono. ― Sasuke resmungou esfregando os olhos remelentos.
Lentamente, ele se ergueu na cama, ainda acostumando-se com a situação em que se encontrava. Procurou pela presença de Sakura, mas o espaço vazio era o que o recebeu, por meio segundo esqueceu-se que apesar de morarem no mesmo prédio cada um tinha o seu próprio apartamento e ir com calma tinha sido uma das regras que Sasuke impôs no relacionamento dos dois.
Talvez estivesse quase entrando em inércia de tão devagar que aquilo estava.
Vendo-se sozinho chamou o melhor amigo que poderia ter naquele momento, aquele que o traria conforto nas horas de solidão: o cigarro.
Uma punheta de manhã também seria uma ótima ideia; fumar batendo punheta, então.
***
Ele parecia não acreditar no que aquelas imagens mostravam, depois de tantas buscas por seu paradeiro, depois de tanto dinheiro sendo gasto procurando-a pelos arredores de sua cidade natal era complicado descobrir que a menina estava escondida bem debaixo do seu nariz.
Naruto revisava as fotos ainda incrédulo; tinha certeza de que a garota da foto era Hinata.
― Como a descobriu? ― Largou as fotos para olhar diretamente para o rosto do homem.
― Foi complicado. No começo não pensei que fosse a garota que o senhor procurava mas reparando bem, tinha as mesmas características. ― Franziu a testa. ― Talvez até a mesma idade.
A partir do momento em que o homem de meia idade pronunciou a frase: “foi complicado", Naruto não deu ouvidos a mais nada do que lhe era dito. Seus olhos estavam focados na menina da foto; em Hinata.
Os cabelos estavam bem mais curtos, um pouco acima da altura do queixo e sua íris naturalmente perolada fora coberta por uma lente que mais ou menos se assemelhava com um tom violeta.
Nem mesmo a tentativa de engrossar a sobrancelha tinha funcionado porque ele a reconheceria até no inferno.
― Viu algum bebê? ― Ainda fixado nas fotos.
― Não senhor.
― A cesárea estava marcada para semana passada... ― Sorriu de uma forma tão amarga que, para o detetive, foi impossível não sentir um aperto bem no coração.
A garganta ficou seca.
O ardor no canto dos olhos brotou rapidamente; chorar era o que Naruto menos precisava naquele momento, por esse motivo embrulhou as fotos no envelope pardo e o devolveu ao homem.
― Obrigado, Asuma. Pode ir.
Era perfeitamente normal estar confuso diante aquela situação, até porque não esperava que pudesse encontrá-la na mesma província em que ele morava e muito menos que até lentes de contato tinha colocado para Naruto não a encontrasse.
Naruto passou longos minutos pensando em todas as explicações possíveis que teriam motivado Hinata a abandoná-lo, entretanto nenhuma dela era plausível o suficiente.
Nenhuma.
Ela era tratada como uma rainha tinha tudo que queria no momento em que bem entendia.
Nenhuma.
Ele a amava. Ele a amava desde o momento em que colocou os olhos nela.
Nenhuma.
Ele fizera todos naquela maldita propriedade a amarem também. Se fosse preciso, faria a província inteira amá-la.
Nenhuma mesmo.
― Merda! Merda!
Em um acesso de raiva, jogou tudo que via pela frente, na parede. O primeiro objeto a ser arremessado foi a cadeira de madeira. Depois foi o notebook que tinha acabado de comprar, no entanto ele parecia não satisfeito e por esse motivo descontou cada milímetro de sua raiva na estante lotada de livros.
Naruto não mediu forças para derrubá-la e ver todos os livros indo abaixo. Parecia hipnotizado com aquela cena. Era… Era simplesmente reconfortante descontar a raiva em objetos que nada tinham a ver com seus problemas.
― Naruto, eu estava pen… ― Karin interrompeu a fala ao dar de cara com o primo destruindo o escritório, aliás, ela jamais o vira daquela maneira. ― O que está acontecendo aqui?
Ele se virou lentamente em direção à prima.
― Quero que me deixe em paz.
― Eu não vou sair daqui até você me dizer o que está acontecendo. ― A voz da jovem sequer se alterou, estava tão acostumada com o temperamento forte do primo que a sua única reação foi ajeitar a armação dos óculos no rosto.
Naruto ficou ainda mais tenso; A gota de suor escorreu desde a nuca até fazer caminho pelos músculos das costas, estava tão louca para sair daquela situação quanto o próprio Naruto.
― Naruto… ― Aproximou-se cuidadosamente, tocando seu ombro com carinho. ― Você sabe que pode se abrir para mim.
***
... A jovem estudante pousava as mãos no abdômen definido do amante, remexendo o quadril a cada estocada, gemendo alto e libertando a puta interior. Exibia o seu corpo co...
― Puta merda! — Sasuke urrou ao sentir o dedo queimar. Estava tão entretido no conto que se esqueceu completamente do cigarro por entre os dedos enquanto digitava.
E aquele era o sexto cigarro que fumava desde que abriu os olhos pela manhã. Sasuke sabia que a necessidade de tragar daquela fumaça tóxica não era mais como antigamente, estava pior e ainda mais constante.
Quando terminava um, já queria outro e mais outro e mais outro. Um ciclo quase tão vicioso quanto era com a heroína.
― Essa porra ainda vai me matar mais rápido do que a heroína mataria se eu ainda a estivesse usando. ― Tirou mais outro cigarro da carteira e o colocou por entre os lábios, logo a chama do isqueiro se acendeu.
Sasuke quase pôde sentir um resquício de felicidade entrando pelas suas vias respiratórias; matando as suas células; envenenando o pulmão.
Mais uma vez a fumaça foi exalada pelas narinas, talvez o apartamento todo estivesse empesteado com o cheiro da nicotina, mas quem disse que o escritor se importava com isso? Não, ele não se importava nenhum pouco. Inclusive daria outra tragada para certificar-se que o cheiro espalharia ainda mais.
Dessa vez seria pela boca.
Sasuke aos poucos desistiu da ideia de impregnar nicotina no apartamento e encarou mais uma vez a tela do notebook, via que o curso piscava implorando para que o conto fosse finalizado e postado no blog. Era um texto simples, com erotismo mediano e uma sensualidade casual, no entanto, as ideias de como terminaria aquele sexo tinham ido embora no momento em que perdeu o embalo queimando o dedo.
O escritor escorregou o olhar para uma dupla de passagens aéreas que tinha comprado há alguns dias, pensou seriamente em rasgar uma delas, afinal não tinha motivos para levar ninguém à tira colo.
Os lábios se contorceram em uma careta desgostosa e observou o cigarro entre os dedos. Ah tão reconfortante...
― Talvez não seja má ideia. ― Sussurrou dando um peteleco na guimba da ponta do cigarro.
(...)
― O que é isso?
Sasuke não tirava os olhos daquele projeto de pano que Sakura ousava chamar de camisola, aquilo era tão curto que dava para enxergar tudo e tão transparente que era como se estivesse nua.
Sua boca salivava.
Gostosa.
― Sasuke, escutou o que eu disse? ― Ela sacudiu as mãos a centímetros do rosto do escritor.
― Eu ouvi o que disse... ― Os olhos subiram lentamente das coxas até os seios evidentes naquele minúsculo pano e depois para o rosto.
Com certeza ela ficava ainda mais gostosa vestida daquele jeito. Muito. Muito mais.
―... São passagens, você vai comigo para a semana da literatura em Osaka.
Ela o encarou ainda sem entender muita coisa, quer dizer, ele poderia estar apenas blefando para ver qual seria a sua reação, por isso disfarçou a expressão mais séria que conseguiu e as pegou das mãos de Sasuke.
― Passagens? ― Fingiu analisar o papel.
― É isso que está escrito na linha em que você está fingindo ler. ― Debochou.
Era curioso ver a maneira com que ela virava e desvirava o papel para ver se ele realmente estava sendo sincero e que não se tratava de uma pegadinha.
Aliás, Sasuke não era de pegadinhas.
― Se eu fosse você começaria a arrumar a mala logo.
― Mala? Mas eu nem disse se vou com você. ― Sakura disse devolvendo a passagem para o vizinho. ― E sabemos que eu não posso aceitar.
Ele a viu sentar-se no sofá com as pernas levemente flexionadas para o lado. Os olhos verdes de encontro aos negros.
― Sasuke... Lembra quando concordamos em ir devagar? ― O reflexo do sol acarinhava o rosto pálido. ― O jantar foi divertido e é algo que possamos fazer sem preocupações ou medo de avançar o sinal.
Naquela distância era possível ver o imenso esforço que ela fazia para não pegar o papel de volta, até as mãos ficavam inquietas.
Pensando bem, ele não poderia negar que Sakura tinha uma ponta de razão sobre aquilo. Os dois combinaram de fazer cada coisa em seu tempo certo, de não atropelar os acontecimentos e fazer tudo ir por água abaixo.
Sim, sim.
― Está certo. ― Ponderou nas palavras ao retrucar.
Aquela altura da vida era um pouco complicado ser rejeitado, ainda mais para um homem que tinha qualquer mulher que desejasse sem nenhum esforço sequer.
Mais complicado ainda porque em parte concordava com ela.
― Passo aqui antes de ir. ― Sasuke caminhou poucos passos até ela e aproximou seu hálito da boca vizinha, largando um beijo desleixado ali.
Bem desleixado mesmo, pois naquele momento tudo que ele mais queria no mundo era chutar uma porta ou xingar alto mas apenas a encarou sem emoções após o beijo e despediu-se.
Pobre Sasuke... Por essa ele não esperava.
― Se eu mudar de ideia, te aviso.
― Ei Sasuke, veio tomar café? ― Ino saía do banheiro com a toalha pendurada no pescoço e um sorriso amigável.
― Eu já estava de saída ― Cumprimentou-a discretamente com uma leve referência esperando que não insistisse. ― Passo aqui mais tarde.
― Ué, eu disse alguma coisa que não devia? ― Ino largou a toalha em qualquer canto e encarou Sakura.
Quando o escritor cruzou a porta, suas costas foram alvo do olhar preocupado de Sakura. Claro que ela podia ter aceitado o convite e só os céus sabiam a vontade que tinha de aceitar, mas apesar disso, precisava se manter firma ou a promessa de seguir um passo de cada vez iria por água abaixo.
A mecha de cabelo cor de rosa caiu sobre os olhos.
― Não, Ino. ― Sorriu.
" Não"
― Vocês brigaram? ― Ino disse enquanto arrumava a mesa para o café da manhã. Primeiro colocou o chá, depois foram os bolinhos, por fim espalhou as tigelas vazias. Arrumar a mesa antes de qualquer refeição era uma de suas estranhas terapias.
― Não ― Sentou servindo-se de chá. ― Sasuke me comprou passagens para Osaka… Era para a feira de literatura que eu comentei ontem quando cheguei. Parece que ele é um dos escritores convidados para dar uma palestra.
Ino sorriu verdadeiramente ao ouvir que o relacionamento da amiga com o estranho vizinho de andar estava aos poucos evoluindo. Ela sabia o quanto Sakura gostava dele.
― Mas você não parece muito feliz, o que aconteceu?
Sakura, por um descuido, derrubou chá sobre a mesa mas por sorte foram apenas algumas gotas, nada de muita significância.
― Eu não aceitei e…
― Vocês são duas traidoras! ― Gaara disse entrando no apartamento com duas sacolas na mão, que pelo cheiro delicioso, só podia ser pão fresco. ― Eu disse que vinha tomar café com vocês, só precisavam me esperar.
― Mas você demorou tanto. Diferente da Sakura, hoje eu tenho que trabalhar. ― Ino fez cara feia.
Gaara tirou da primeira sacola os pães recheados e da segunda sacola tirou os pães cobertos de queijo que Sakura amava. Sim, todos os amigos dela sabiam o quanto aquele pão coberto de queijo derretido fazia seu coração acelerar.
― Não se preocupe Gaara. Ainda nem começamos a comer. ― Sakura respirou fundo.
― Tem certeza de que não vai à feira? ― Gaara recebeu um olhar de reprovação de Sakura e um chute de Ino. ― Ai! Eu sei… Eu sei… Estava ouvindo a conversa atrás da porta, mas não deu para resistir. Sério. Sakura, você não tem nada a perder a não ser algumas fodas...
De repente o cheiro de nicotina entrou pelas frestas da porta, vindo do corredor.
―... A gente não pode desperdiçar oportunidades por insegurança, é assim que muitos sonhos vão por água abaixo. ― Gaara deu leves tapinhas na testa de Sakura. ― E também, você pode se divertir.
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