O Poeta
30 Temor
Notas iniciais
Os dedos não paravam de batucar no apoio da poltrona, não tinham um ritmo certo, vez ou outra eram alternados pelos pés que balançavam como um tique nervoso.
As máscaras de oxigênio continuavam no lugar. Certo.
O cinto estava muito bem preso e mesmo sendo a terceira vez que os checava, uma quarta vez seria apenas por precaução.
― Você nunca me disse que tinha medo de avião... ― Sakura o questionou arqueando lindamente a sobrancelha cor de rosa.
― Não tenho. ― Sasuke rapidamente fechou a cara que já não era das mais simpáticas.
― Aliás, já viajamos antes de avião e pelo que eu me lembro você até dormiu no banheiro. Estranho que esteja nervoso.
A pequena diferença entre as duas viagens é que na primeira ele ainda estava sob o efeito do álcool que virou garganta abaixo de estômago vazio. Aquilo lhe deu um pouco de coragem, no entanto, passou cerca de dez minutos vomitando apenas água no banheiro do avião.
Só a memória daquele dia fez com que os cabelinhos do braço se eriçassem.
― É. Eu estava com sono. ― Mentiu.
Sakura pensou em rebater a resposta, mas era possível sentir o nervosismo exalando dos poros do escritor em forma de suor.
Por Kami! Aquilo era impossível já que o ar condicionado estava em uma temperatura tão baixa que até a ponta do nariz estava começando a ficar gelada, consequentemente vermelha.
― Vamos vai ficar bem. ― Ela inclinou a cabeça para o lado esticando a mão para tocá-lo no queixo, a barba por fazer evidenciava ainda mais a pele branca. ― E quando chegarmos lá você vai fazer essa barba nojenta.
― Não acredito que te dei essa liberdade toda. ― Ele tentou esconder o nervosismo com uma expressão preguiçosa.
Sakura permaneceu em silêncio até depois de o avião levantar pouso, estava pensativa demais para alguém que raramente tinha a oportunidade de sentar na poltrona ao lado da janela. Podia-se deduzir que estava vislumbrada com o luxo da primeira classe, mas eventualmente ela não pararia de falar nem por um minuto.
Ela estava pensativa demais.
De repente se pegou olhando fixamente para o rosto de Sasuke. Ela observou a tensão na testa relaxar, os cílios abaixarem lentamente, a boca se abrir soltando um pouco do ar que estava preso na garganta. Ele parecia tão inocente dormindo, tão indefeso.
O corpo dela se moveu para o lado, para mais perto do calor que exalava do corpo de Sasuke, a cabeça encostando no ombro e o braço enroscando-se no dele. Era a primeira viagem dos dois como um casal, como namorados. Quase impossível ter as palavras Sasuke e namorados na mesma frase, mas dessa vez estavam tão perto que a médica podia ouvir os coros de aleluia.
― Na-mo-ra-dos. ― Sussurrou aspirando o cheiro do suéter e voltando a encostar a cabeça no ombro do rapaz.
Sasuke permaneceu adormecido quase que o tempo todo, algumas poucas vezes abria discretamente os olhos para conferir se estava vivo, tocava o corpo todo com a mão livre enquanto que tentava se livrar do peso que Sakura exercia sobre seu outro braço.
Ele mexeu uma primeira vez para se certificar de que ela estava dormindo, mexeu uma segunda vez para aliviar o formigamento, na terceira vez conseguiu arrastar o braço para fora.
― O senhor deseja alguma coisa? ― A aeromoça sibilou um sorriso. ― Outro cobertor, talvez?
Sasuke continuou abrindo e fechando o punho para a circulação sanguínea voltar ao normal, odiava sentir aquela sensação de músculo adormecido, era como se mil agulhas estivessem perfurando o seu braço.
― Não, obrigado.
A moça fez uma pequena reverência e continuou o seu caminho por entre os passageiros, ela oferecia suco ou água para os que estavam acordados ou trazia alguns aperitivos acompanhados de café.
Sasuke pensou que se estivesse na classe econômica, os assentos não seriam tão confortáveis ou a distância entre os passageiros não seria respeitada. Uma barra de cereal seria mais do que suficiente para alimentar uma horda de pessoas amontoadas em pequenas poltronas.
Viajar de primeira classe era um dos poucos luxos que costumava usufruir, que gastava sem dó.
― Que alívio! ― Fez uma careta e mexeu mais um pouco o braço, sentindo que tudo voltava ao normal.
Sasuke olhou para o lado para se certificar de que a garota estaria no mais profundo sono antes de colocar os fones de ouvidos e ligar a pequena televisão à sua frente. Procurou mais de dez opções de filmes, no entanto, o menos pior era o desenho infantil de dublagem precária.
― Eu gosto desse. ― Sakura espreguiçou-se roubando um lado do fone de Sasuke.
― Diga-me que filme infantil você não gosta? ― Debochou sem se dar conta de que Sakura já o tinha selecionado e os primeiros segundos já estavam rolando.
― Você é muito quadrado! Desenhos natalinos são ótimos para passar o tempo.
Sasuke pigarreou surpreso com a afirmação dela. Ele não era quadrado, só não ficava bem um homem de quase trinta anos assistindo desenho natalino e ainda com uma dublagem totalmente fora de sincronia.
Aquilo era um absurdo!
― Só dê uma chance. ― Sakura o encarou tão minuciosamente que pôde perceber a pequena mudança no rosto dele. ― Você pode se surpreender.
― Duvido. ― Ele praguejou.
― Assista e me diga depois.
***
― Você tem certeza que está bem para ir? ― Karin perguntou mais uma vez para Naruto antes de terminar de secar a cabeleira ruiva.
― Eu já disse que estou bem e Sasuke é meu melhor amigo, eu tenho que aboiá-lo nesse momento.
Estava mais do que óbvio que aquele sorriso esboçado no rosto de Naruto era falso, seu exagero em mostrar que estava tudo bem já o entregava. Ele sequer conseguia dar o nó da gravata direito e não era como se não soubesse ou nunca tivesse feito antes, ele o fazia todos os dias pela manhã.
― Não precisa ir tão formal assim, aposto que Sasuke vai com o mesmo suéter azul do ano passado. ― Ajeitou a armação dos óculos e gesticulou para que a empregada entrasse no quarto, era a mesma loirinha que tremia sempre que tinha que interagir com Naruto.
― Como tem tanta certeza?
― Faço parte do maior fã clube japonês dedicado à ele. Não tem nada sobre Sasuke que eu não saiba.
A mocinha apertou os olhos enquanto tentava ajeitar o nó errado que Naruto tinha feito na gravata, sua atenção estava totalmente voltada em consertar o erro e manter o patrão parado no mesmo local.
Ele virou na direção de Karin para a insatisfação da empregada que teve que acompanhá-lo. Naruto não fazia de propósito, o problema é que ele era o tipo de pessoa que não consegue ficar parado por muito tempo. Quando criança, era chamado de pestinha por toda vizinhança porque era difícil controlar-se e ficar calmo os outros meninos de sua idade.
― Já não era para estar lá? ― As mãos na cintura e de peito estufado.
― Não quando eu sou prima do melhor amigo dele, não acha? ― Karin bateu na própria testa, deixando a sua afirmação ainda mais óbvia. ― Com você do meu lado eu tenho entrada garantida.
― Por favor, senhor... Fique parado para que eu possa ajeitar melhor a gravata ― Sabe-se lá de onde a empregada conseguiu juntar tanta coragem para repreender Naruto, mas ao fazê-lo ela optou pela forma mais polida que pôde.
Ele cutucou a cabeça da empregada na intenção de chamar sua atenção:
― Você pode falar comigo normalmente, não vou despedí-la por me pedir para ficar parado. Não sou um maníaco por demissão e você não precisa ter medo de mim, sou legal. Karin quero ver como você iria se virar se eu não fosse.
***
― Boa tarde, em que posso ajudá-los? ― O sorriso da recepcionista pareceu mais forçado do que deveria, poderia ser o cansaço da expressão ou a vontade de ir para casa.
― Meu nome é Sasuke Uchiha, eu fiz a reserva de duas suítes normais hoje pela manhã. ― Repousou o braço levemente definido sobre a bancada de madeira, os fios negros jogados no rosto e tampando um lado do rosto.
Duas suítes.
Dois cômodos separados.
Uma fina barreira separando os dois.
Sakura se viu entrando em pânico naquele momento, não esperava que Sasuke fosse capaz de ir tão longe no combinado, pelo menos não a ponto de reservar dois quartos. Seu rosto logo ficou empalidecido e depois, vermelho de frustração.
Engoliu em seco já se preparando para ouvir alguma piadinha vinda da recepcionista, mas ela não veio, ao contrário do que pensou a mulher apenas concentrou seu olhar para a tela do computador procurando pela ficha.
O nível de profissionalismo naquele hotel era outro nível, na verdade muito acima do que esperava de um homem largado como Sasuke. Ele tinha bom gosto.
― Identidades, por favor. ― A recepcionista mordeu os lábios revirando a lista.
― Cancele, vamos ficar só com uma suíte. ― Sakura deixou de lado todos os bons modos que tinha aprendido com a mãe e quase debruçou sobre a bancada, jogando todo o corpo para frente.
― Sakura...
― Dois cômodos diferentes já é um pouco de exagero, não acha? ― O timbre mudou completamente, até as feições ficaram um pouco mais autoritárias. ― Não tem sentido viajarmos juntos e dormirmos em quartos separados. Se o receio é passar do limite, peça duas camas, mas que pelo menos sejam no mesmo quarto.
O escritor suspirou profundamente antes de gesticular para que a recepcionista pudesse fazer a mudança pedida.
― Então, uma suíte normal com duas camas de solteiro. ― Confirmou com a faceta séria e voltou a encarar o monitor juntamente com a moça.
― O quarto já está reservado. ― Ela retirou o cartão magnético debaixo do balcão e o entregou nas mãos de Sasuke. Parecia tão cansada que sequer reparou no burburinho que as outras recepcionistas faziam na presença do escritor, aliás, ela nem sabia que estava atendendo uma pessoa da mídia.
― Satisfeita? ― Jogou a mochila no ombro e enfiou o cartão magnético no bolso da calça.
Sakura não respondeu, mas só o sorriso desenhado em seu rosto já poderia ser interpretado como uma resposta e não o tirou até chegar à suíte, onde trocou o sorriso por uma expressão de completo espanto:
― Não acredito que essa é a suíte normal! É maior do que um andar inteiro do nosso prédio! ― Largou a bolsa em cima da poltrona de couro e correu para o banheiro já que todas as vezes em que hospedava-se em hotéis, sua primeira ação era avaliar o banheiro e certificar-se de que era usável ― Eu sinceramente não imagino um cara que vive de macarrão instantâneo e sakê hospedando-se em um hotel que tem até hidromassagem na suíte.
Ela parecia tão impressionada quanto uma criança em uma loja de brinquedos, não parava de vasculhar cada canto do recinto a procura de algo que poderia estar no dia a dia de uma jovem de classe média.
Sasuke acompanhou com os olhos a médica jogar-se de braços abertos na cama, enfim dando uma pausa em toda aquela excitação.
Ela estava tão encantada. Quase inocente.
― Você pode tomar banho primeiro se quiser... ― Sasuke aproximou-se de forma sorrateira, esgueirando-se pela distância que os separava. Estavam como nos velhos tempos: separados por centímetros de distância. ―... A feira aqui em Osaka é um pouco diferente da tradicional, ela acontece durante noite e se estende até as seis da manhã.
Ele estava tão perto que podia sentir o calor que emanava do seu corpo.
― Você está perto demais... ― Sakura afirmou calmamente levantando os olhos para o escritor, que vagarosamente aproximou o rosto ainda mais até encostar os lábios nos dela, os abrindo com o toque da língua dela.
― Só mais um pouco. ― Interrompeu o beijo enquanto mergulhava na visão do movimento que o peito de Sakura fazia ao respirar, ele subia ao inspirar e descia ao soltar o ar. ― Você fica muito deliciosa quando nervosa...
Ele deslizou a mão gelada por debaixo da camisa dela, fez questão de sentir cada uma das costelas até voltar explorando os lugares onde sabia que Sakura tinha as pintas que contrastavam lindamente com a pele branca da barriga.
Sasuke havia decorado onde cada uma ficava.
Desejava com toda a alma descer a mão por dentro da calça jeans, ensopar os dedos com o molhado da boceta de Sakura, chupar aqueles seios extremamente convidativos porque era exatamente o que faria há mais ou menos um ano, no entanto, ele se recompôs.
Ele não era uma máquina de fazer sexo e nem ela.
Sakura sentiu o corpo arder por dentro quando Sasuke retirou as mãos do contato que tinha com a sua pele. Ele estava tão suave e receoso com algumas atitudes que a fizeram ficar apreensiva também, os olhos não estavam mais tão rudes como no dia em que se beijaram pela primeira vez.
― Sasuke...
― Hm?
― Você vai se atrasar. ― Sakura apoiou o corpo em um dos cotovelos e levou a outra mão até o rosto dele, contornando os dedos ao redor de sua boca. ― E eu nem sei ainda com que roupa ir.
Ele a ouviu bufar.
Pensou em dizer para que ela fosse com qualquer roupa, mas se isso acontecesse, ela protestaria da forma mais cruel possível: roupas cheias de decote.
Sim, ela o faria porque mulher nenhuma gosta de ouvir do parceiro uma opinião vazia, sem interessa. E Sakura o faria amargurar o evento inteiro desfilando com a barriga de fora ou as coxas carnudas totalmente expostas.
― Lá faz frio. ― Mentiu.
Ele levantou-se da cama rapidamente, no embalo já abriu a mochila e de lá tirou algumas mudas de roupas, todas elas pareciam ter sido tiradas de dentro de uma garrafa.
― Mas o gelo já está até derretendo.
― Você que sabe, vou tomar banho primeiro. ― Sussurrou pouco antes de caminhar até o banheiro com as roupas na mão e enfim pôde trazer a sua preocupação à tona.
Sasuke forçou-se para não tossir cada vez que a água da ducha caía em suas costas e cabeça, fez um esforço tremendo para que o ar que lhe faltava não desse outra crise.
Enquanto a água escorria ralo abaixo, ele apoiou-se na parede procurando fôlego para resistir, mas era quase impossível porque tudo por dentro parecia arder como se tivesse engolido água fervendo.
O esforço não seria tanto se ele apenas tossisse, ao invés disso, guardou para si a vontade.
"Sasuke, vai ficar tudo bem."
O rosto dele e ficou vermelho.
"Não perca o controle."
Ele esfregou a no rosto.
"Você é forte."
A água continuava caindo e Sasuke mantinha-se ereto, as mãos pálidas cerradas fortemente.
“Você é forte."
Aos poucos tomava o controle da própria respiração.
“Você é f..raco."
***
Sasuke tinha razão quando disse que o evento começaria às 22 horas, no entanto, por algum motivo que Sakura não prestou atenção eles teriam que chegar antes e lá estava o escritor avaliando a área em que ficaria para os autógrafos antes da palestra no auditório.
As estantes estavam lotadas de livros escritos por Sasuke, cada um deles focando em um tipo de tema, abordando de várias maneiras o sexo, tinha lido alguns deles e se impressionado com a descrição do ato em cada cena, a forma como ele construía os personagens era de uma inteligência fascinante. As personalidades não se repetiam e por incrível que pareça, seus pequenos contos tinham um enredo bem estruturado por trás do sexo.
Pode-se dizer que Sasuke era um poeta da literatura erótica.
Deixou escapar um sorriso ao se pegar lendo a sinopse de um livreto de não mais que setenta páginas, mas que tinha em sua capa parte de uma coxa feminina com uma marca de batom em sua superfície: "Sombras por trás de um beijo."
― Não conhecia esse... ― Folheou algumas páginas não conseguindo conter a curiosidade sobre como Sasuke desenvolveria o sexo entre duas mulheres, passou batido por algumas páginas para chegar direto na parte que mais lhe interessava.
― Não sabia que também se interessava por garotas. ― Sasuke a surpreendeu.
A médica o analisou, ele estava inexpressivo apenas esperando por uma reação dela. A boca ligeiramente aberta de uma forma tão sensual que Sakura não pôde resistir molhar os lábios.
― Curiosidade.
― Eu era jovem quando o escrevi. Muito.
― Senhor Uchiha, os portões serão abertos em dois minutos. Não importa se o lugar é grande e tenham outros autores, o senhor tem um grande fandom esperando há horas na fila. ― O funcionário de aparência esquisita o alertou. ― Sugiro que tome o seu lugar.
― Hm. Tudo bem.
O lugar pareceu estremecer com a entrada daquela quantidade exorbitante de pessoas, muitas se direcionavam para o estande do seu autor preferido, outras estavam tão perdidas que ao menos sabiam qual fila enfrentariam primeiro.
Não era fácil se locomover através dos corredores que foram ampliados para comportar tamanha quantidade de pessoas, mas valia o esforço para conseguir pelo menos um livro autografado daqueles monstros dos mais vendidos do país.
Veja bem, não eram apenas monstros, eram alguns responsáveis pela expansão da literatura japonesa em outros países e a diversidade de gênero era grande.
Sakura sorriu ao ver a enorme fila que se formava diante da área em que Sasuke ficava, mesmo depois da polêmica da internação na clínica de reabilitação.
― Ele muda completamente na frente do público, não acha? ― Ela soltou um grito abafado ao perceber que Naruto estava parado ao seu lado.
― Como você chega sorrateiramente desse jeito? Quer me matar de susto, é? ― Ralhou sem capacidade de esconder a surpresa que teve ao vê-lo.
― Desculpe, mas não resisti. Você abre muito a sua guarda. ― Gargalhou divertindo-se com a expressão assustada de Sakura. ― O que está fazendo aqui?
― Sasuke me convidou para acompanhá-lo.
― Não me diga que você e o... ― Naruto ainda estava com traços divertidos no rosto. Sakura assentiu. ― Sério? Mas está firme mesmo? É monogâmico? E Sasuke sabe?
A gritaria das meninas continuava ecoando naquela área e Sakura olhou rapidamente para a direção da fila, que para sua surpresa, tinha aumentado ainda mais. Ela estava impressionada mesmo por ninguém ainda ter percebido que Naruto estava ali.
― Lógico que ele sabe, no entanto, é mais complicado do que parece. Estamos naquela fase só do beijo na boca, sabe?
― Boa sorte com essa fase, então. ― Gargalhou divertido. ― Vamos ver quanto tempo vai durar isso porque vocês dois, provavelmente, no mesmo quarto não coloco muita fé.
Sakura continuou com a mesma expressão calma e confiante. Os dois estavam um pouco distante de onde o escritor fazia a sua aparição, por isso era um pouco mais fácil para Sakura conversar com mais liberdade.
Ela confiava em Naruto.
― Eu também não coloco muita fé. ― Sorriu.
― E a saúde dele? Você sabe que não tenho como controlá-lo, ele já é maior de idade e também eu moro bem longe.
Não era muito difícil captar a mensagem que Naruto queria dizer com aquela pergunta, ele se referia ao uso da heroína e da nicotina. Sakura voltou a observar Sasuke de longe, lembrou-se da maneira abatida com que ele tinha saído do banheiro, seus olhos estavam extremamente vermelhos, o corpo esguio tinha ficado levemente retraído.
Alguma coisa tinha acontecido com ele enquanto estava no banheiro.
― Ele está escondendo alguma coisa de mim, tem momentos em que parece que está à beira de um colapso enquanto em outros, age como se nada estivesse acontecendo. ― Suspirou sem ânimo.
De certa forma, desde que o conhecera não houve nenhum momento em que Sasuke não apresentasse um comportamento melancólico, até as suas histórias tinham traços sombrios e quase sempre terminavam com um final diferente do convencional.
O escritor dizia que eram as histórias com final trágico que faziam mais sucesso, isso tirando a questão que o sexo, por si só, já vende.
― Bem, Sasuke sempre foi meio fechado, no entanto, as drogas o fizeram parecer ainda mais esquisito. Ele parou de usar heroína durante um curto período de tempo na faculdade, nem preciso dizer que ele surtou ― Naruto passou a mão nos fios loiros, seus cabelos bagunçados davam-lhe um aspecto bonito e as sobrancelhas grossas contribuíam para fazer o rosto parecer ainda mais anguloso. Porém, as olheiras não mentiam sobre as várias noites que passara sem dormir. ― Por isso estou te perguntando, ele é o tipo que consegue dar nó até no vento. Eu só fui descobrir que ele tinha voltado a usar heroína quando encontrei um fundo falso no azulejo do banheiro dos funcionários.
― Eu... Eu vou observá-lo bem.
A médica sabia que Sasuke era um homem complicado, instável demais e muito difícil de ser compreendido, mas de alguma forma aquilo a chocou de uma forma que seria impossível descrever. O calor em seu peito aumentou e ela voltou a realidade quando percebeu flashes no local: Sasuke estava sendo entrevistado e o tumulto aumentou, a gritaria, o empurra-empurra.
Não era uma simples entrevista porque ambos os lados estavam alterados, garotas tentando agredir a imprensa, se debatendo, chacoalhando.
― Merda! ― Naruto correu em direção à Sasuke que era escoltado por quatro seguranças.
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