O Poeta
7 Devaneio
Notas iniciais
– No que está pensando? – Hinata afagou os cabelos de Naruto; Naquela brisa que lhe acariciava a face.
– No que Sasuke me disse sobre Itachi — Respirou fundo observando as cortinas da enorme cozinha balançarem, perdido em pensamentos. Ainda não tinha tocado no omelete à sua frente. – Não sei como uma pessoa honesta como o Sasuke pode ser irmão daquele manipulador, egocêntrico, ladrão.
– Isso vai de caráter, não tem nada a ver com laços sanguíneos e também Sasuke não é flor que se cheire. – Ela explicou segurando a jarra de suco e despejando no copo vazio de Naruto.
Ele a observou fascinado. Ela ficava ainda mais linda com os cabelos negros presos num coque conservador, deixando apenas alguns fios rebeldes colarem na face fina. Hinata levantou os olhos para o rosto maduro e bronzeado dele.
– Devia esquecer essa sua rixa com o Uchiha.
Naruto levantou a sobrancelha e virou o rosto para a televisão no alto da parede de azulejos verdes; vintage dizia sua prima Karin.
– Como quer que eu esqueça um cara que me ameaça de morte, rouba da população e ainda tem a capacidade de tentar se reeleger visitando asilos e orfanatos? É nojento, é baixo! – Escandalizou apontando para a televisão. A reportagem já havia começado e o rosto de Itachi estampava o visor de quarenta e duas polegadas.
– Farei o possível para reerguer Tokio desse monstro que é a crise. Hospitais estão precários, nas escolas faltam professores, as ruas? Não pode-se dizer que exista de fato uma rede de esgoto decente, principalmente nas periferias e isso não pode ficar assim. A população merece o que há de melhor
– E o que senhor tem a dizer sobre os recentes ataques do partido da oposição? – A repórter ajeitou-se no sofá de couro branco, na certa esperava uma resposta atrevida. Já era de se esperar que a imprensa goste de bons barracos.
Itachi sorriu pequeno, virando-se para a câmera de número sete. Aquele velho ar de escárnio o tomava por inteiro, nunca excedia o tom de voz ou se via alterado como o rival. Respiração compassada.
– Acredito que seja uma maneira de atingir a minha possível reeleição, sabe... Abalar as estruturas. – Brincou arrancando risos falsos da repórter. — Apenas o que querem é enaltecer uma figura nova no ramo da política,que queiram colocar aquele Naruto Uzumaki no poder, a única forma é boicotando minha campanha.
Os olhos de Itachi faiscaram ao pronunciar o nome do rival. Ele sabia exatamente como atingi-lo.
Naruto, irritado, bateu com os punhos na mesa de madeira maciça. Os copos e prataria balançaram com o impacto e até as juntas do político doeram, estava farto daquele Uchiha.
– Esse imbecil deveria ter o mínimo de vergonha na cara, tudo isso só está acontecendo com Tokio por culpa dele! Por culpa do governo de merda que ele fez! – Gritou voando com o prato na parede. Alterado, com os nervos à flor da pele, sentiu o peito explodir. – E ainda tem a capacidade de envolver meu nome nisso tudo!
Hinata fechou os olhos lentamente, respirando fundo. Não era a primeira vez que o noivo perdia a cabeça assim mas ser explosivo daquela maneira era demais. As empregadas logo se prontificaram para limpar a bagunça que o patrão tinha feito.
– Não, não. Podem deixar que eu limpo. Não se preocupem, eu cuido de tudo. – Disse sem graça pela atitude agressiva do homem, sem dúvida esperada. As mulheres ainda tentaram corromper a ordem da menina mas logo assustaram-se com outro berro do patrão.
– Você ouviu o que ele disse, Hinata? Ouviu bem?
Ofegou antes de correr uma mão pelo cabelo espetado.
– Ele me acusou em rede nacional de boicotar a campanha lixo que está fazendo! Foda-se que é irmão do Sasuke, pode ser irmão até do Buda... – Fitou o punho machucado por alguns segundos, ainda com raiva – ... Eu não vou deixá-lo ser reeleito.
O rosto estava enrijecido, o maxilar travado. Naruto precisava se recompor mas as veias saltadas em sua testa denunciavam que alguns minutos seriam necessários.
Como ele odiava aquele Uchiha! Poderia destroçá-lo apenas com as mãos se possível mas não seria tão baixo quanto o próprio, se fosse para derrotá-lo seria em cima de uma palanque, de frente para milhares de pessoas.
Naruto fechou os olhos, tentando fazer as imagens cínicas de Itachi sumirem de sua mente. O maxilar doído dos dentes trincados, as têmporas para explodir. Como é que Jiraya havia lhe ensinado? Ah! Conte até dez intercalando na respiração.
Não se brinca com gente de pavio curto.
Depois de alguns segundos, já recuperado, Naruto ergueu a cabeça e fitou a expressão preocupada de Hinata. Olhos brancos arregalados e as frágeis mãos tapando a boca semi aberta, ela estava assustada com certeza.
– N... Naruto. — Ela o encarava, atônica, com a boca seca.
– O que foi?
O político ainda franziu a testa, não entendendo o porque da surpresa da noiva, ela já o viu estourar milhares de vezes e aquela não tinha sido diferente das outras. Pelo menos, era o que ele pensava antes de erguer o braço doído e dar de cara com a mesa, de madeira pesada, virada do outro lado da cozinha, com as pratarias espalhadas pelo chão e as empregas encolhidas num canto. Abraçadas. Duas mulheres de meia idade com pânico da atitude inesperada do patrão.
– Eu não sei... Como isso aconteceu. Desculpem. – Disse atordoado, massageando o punho dolorido, sentindo o suor lhe escorrendo pelas costas.
– A mesa pesa dezoito quilos e você a virou com apenas uma mão ... Uma mão ... – Ela proferiu lenta e cansada demais. Fazendo as palavras ecoarem em sua cabeça incessantemente. – Acho que não teve uma boa noite de sono. Por que não damos um passeio pelos jardins da mansão? Hein? – A menina estendeu a mão, receptiva ao homem loiro que quase destruíra a cozinha recém reformada.
Naruto ainda ficou um tempo parado, encarando a cena deplorável até levantar os olhos para ela. Para sua Hinata. Ele inclinou levemente a cabeça para o lado, fascinado com aquela mulher, em pé, estendendo o braço.
– Eu ... Você tem razão. – Naruto, envergonhado, virou-se para as empregadas que ainda o encaravam e desculpou-se.
Não demorou muito para que os ares na mansão ficassem um pouco mais leves, os burburinhos de que Naruto tinha perdido a cabeça corriam pelos corredores e aquilo tinha sido pela manhã, já era tardezinha.
E o casal deitado na grama fugia da rotina corrida do político e das tardes de estudo que Hinata tinha para ingressar na faculdade. Tinha perdido um ano no colegial porque largou tudo na cidadezinha que morava para fugir com o loiro.
Quando o viu palestrando em sua escola sobre os recursos hídricos que melhorariam a infraestrutura do Japão, seu corpo inteiro tremeu, até as papilas gustativas deixaram de salivar. Primeiro foram seus olhos azuis, depois sua fala mansa para logo ser a segurança em seus gestos. Aquele foi o dia em que ela não conseguiu tirá-lo da cabeça.
Hinata tinha apenas quinze anos na época. E Naruto vinte e sete.
– Devia tirar férias da política, está ficando tão estressado que nem o Amplictil está dando jeito na insônia. – Ela suspirou aconchegando-se nos braços do homem. O polegar dele acariciava o contorno do lábio da garota, eram tão finos e delicados. Poderia beijá-los a cada dez segundos, não se cansaria nunca. – Precisa de um tempo para você, para mim...
Naruto beijou o cabelo dela antes de se sentar na grama, apoiando o cotovelo direito no joelho.
– Senhora, seu chá. – Uma empregada estendeu a bandeja sobre a grama, olhando fixamente para o patrão. Provavelmente ainda assustada por ter presenciado a mesa voar mais de cinco metro na parede.
É, acontece.
– Obrigada. – Hinata sorriu vendo a mulher afastar-se.
– Eu não sei se eu conseguiria. É gratificante para mim poder fazer alguma coisa em prol dos outros. – Não tinha brincadeira em seu tom, notava-se que falava sério porque sua voz soava firme, madura. Ele sonhava com uma sociedade utópica. – Eu quero mudar Tókio, Hinata e não vou desistir desse meu sonho mas enquanto tiver gente como Itachi usurpando da população, fica meio difícil. É por isso que eu preciso do seu apoio, preciso de você ao meu lado.
Ele inclinou a cabeça e os lábios se abriram quando a puxou para o seu colo, colando seu corpo no dela, entrelaçando as línguas. Seus dedos agarraram o cabelo do loiro, roubando todo o ar de seu arfar.
Ela gemeu contra sua língua impetuosa, sentindo as mãos do homem crescerem em seu corpo. Divagando nas curvas do quadril, até repousarem em sua bunda, apertando, enchendo as palmas na carne branca e macia.
***
– Não sei o que deu em mim, simplesmente abri as pernas e ele fez o que quis comigo. – Sakura dizia vasculhando as prateleiras da livraria nova do bairro. Era pequena e ainda tinha uma pouca variedade de livros mas estava disposta a achá-lo. – Ino, tinha um bando de moleques nos olhando pela janela e sabe o que eu fiz?
Entre risos contidos, a amiga a observou pegar um livro mais ou menos grosso com uma mulher sensualmente presa com algemas na capa; Era um livro erótico.
– O que? – A loira não conteve a gargalhada, era novidade para ela Sakura não saber o que fazer quando interessava-se por alguém.
– Nada! – Olhava incrédula para a amiga. Sasuke provocava muitas coisas que Sakura não conseguia controlar. Era estranho, diferente. – Eu não fiz nada. Entende, Ino? Eu não consegui mover um músculo para afastá-lo.
A garota caminhou por mais algumas prateleiras, com Ino atrás, ainda sem entender o porque da amiga estar procurando livros na seção de literatura erótica. Ela nunca se interessou por aqueles tipos de contos, nem quando estava no auge da puberdade.
Sakura agachou-se na prateleira debaixo e capturou um outro livro; Dessa vez, a capa era de um casal insinuando o ato sexual. Era impressão da loira ou a amiga estava ficando paranoica? Ela corria os olhos procurando outro e mais outro.
– Sakura, eu sinceramente preciso saber quem é. – Ino ergueu o olhar cínico. – Ele deve ser o tesão em pessoa para te deixar tão neurótica por livros pornôs.
Ino deu uma gargalhada épica, olhando para ela com uma expressão divertida. Sakura ruborizou abaixando o olhar para os braços com cerca de quatro livros; Do mesmo autor.
Ela molhou os lábios, envergonhada por estar fazendo aquele papelão na frente de uma amiga de infância. Estava realmente procurando tudo que tinha referências ao Uchiha.
Não, ela não era uma fã alucinada. Quanto mais procurava, menos sabia à respeito do vizinho.
– Ele é o autor dos livros que eu estou procurando, desses que estão no meu braço. – Sussurrou desejando que Ino não a escutasse com clareza e mostrou a foto do homem no verso do livro.
– Quer dizer que esse gato é o seu vizinho? Olha, estou impressionada. – A loira alongou os olhos na contra capa do livro. Ele era muito, muito atraente, e os cabelos negros jogados no rosto como uma franja? Lindo demais. – Não sei se fico feliz ou com inveja.
– Eu me sinto extremamente atraída por ele... – Sakura não costumava perder-se em devaneios, sempre fora pé no chão mas ultimamente o que era esporádico virou rotina. – ... O cigarro, a ironia, o silêncio... Será que eu estou ficando maluca? Porque, ele não é nem um pouco simpático, nem comunicativo, é tão mal humorado que chega a dar raiva, tem que ver os foras que me dá, no entanto, o mistério que ele guarda entre uma tragada e outra me intriga demais. É quase como se eu precisasse saber mais e mais dele.
Perguntava-se mais para si mesma do que para a amiga que a observava atentamente. Com o cenho franzido, analisando a expressão de paisagem que Sakura demonstrava.
– Esse tal vizinho, pela foto, parecer ser muito gato. Não me admira que esteja babando por ele. – Ela riu tapando a boca. – Acho que toda essa crise de má educação compensou quando o atacou.
– Você fala como se eu atacasse todo homem que aparece!
As duas já dirigiam-se ao balcão para pagar um total de quatro livros escritos por Sasuke quando uma mulher, pouco mais alta que Sakura e de cabelos lindos, irregulares as parou educadamente. Parecia ansiosa, animada.
– Por Kami! Onde encontraram essa coleção? Estou de viagem e onde moro não existe nenhuma livraria decente. Estou louca por esses livros! Sério, eu amo esse autor!
Sakura e Ino olharam uma para a outra rapidamente; não era sempre que viam uma pessoa escandalosa quase chorar ao ver livros eróticos. Dava até graça.
– Ah! Eles estavam na prateleira lateral. – A médica apontou ainda com o sorriso divertido grudado nos lábios. — É só procurar com jeito.
A mulher arregalou os olhos de felicidade, ajeitou os óculos caídos na ponta do nariz. Seus cabelos eram de um vermelho intenso; cor de fogo, cor de fênix. Era mais ou menos da idade das duas amigas, além de apresentar um sotaque típico interiorano.
– Obrigada. – Sorriu com os dentes pressionados no lábio inferior. – A propósito, o meu nome é Karin.
Mesmo com os braços ocupados, a garota tentou apertar a mão da outra mas tudo que pôde fazer foi balançar a cabeça, acenando.
– Sou Sakura e essa é Ino. Muito prazer.
Não demorou muito para que as duas saíssem da livraria. A médica satisfeita com o baú de informações sobre o vizinho e a loira tagarelando sobre a pequena briga, de puxar cabelos, que tinha tido com alguém que ela não lembrava o nome.
Não importava, sequer conseguia assimilar o que a amiga falava. Tudo que entrava por um ouvido, saía pelo outro e balançava a cabeça fingindo beber cada palavra que a outra falava.
Talvez estivesse sendo egoísta demais. Talvez. A questão é que Ino não parecia notar novamente os devaneios invadindo a mente sã de Sakura.
Ela levantou o olhar. Primeiro viu um par de tênis surrado. Depois uma calça jeans escura até levantar mais um pouco e encontrar um rosto familiar; duro e muito bem cuidado.
– Gaara? O que faz por aqui? – Sua surpresa cortou totalmente o assunto que Ino vomitava aos quatro ventos. Do que ela estava falando mesmo?
– Sakura... Oi. — Os olhos de um verde incomum a encarando intensamente. – Será que podemos conversar?
Ela encarou com um olhar duvidoso e então desviou os olhos. Sakura realmente não sabia o motivo dele estar ali, não se falavam desde a formatura da faculdade, nem um telefonema desde a festa. Aquela bendita festa.
– Claro. – Assentiu com a cabeça. Andou até ele, levantando os olhos. Não, ainda não tinha ideia do porque do velho amigo tê-la procurado.
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